"Naxiri
e o Caminho"
Conta-se
que numa aldeia da Amazônia vivia uma mulher que, através
de seus muitos anos, ganhara notoriedade por sua habilidade em viver
e conviver com harmonia. Era conhecida e respeitada nas redondezas como
a "Grande Mãe". Tal como uma sábia figura bíblica,
Grande Mãe era procurada para intermediar pequenas e grandes
questões relativas a uma convivência justa e pacífica
no interior da comunidade, e, coisa ainda mais complicada, nas questões
envolvendo a relação com os povos vizinhos.
Não
era de se admirar, portanto, que Grande Mãe fosse referência
também para o pessoal jovem da região, naquela inquietação
humana, mais forte ainda na juventude, de construir-se e afirmar-se
diante de si mesmo e da comunidade.
Assim,
um dia chega até Grande Mãe uma jovem de olhos brilhantes
e coração palpitante: "Grande Mãe, ensine-me
seu segredo, quero me tornar uma pessoa sábia". - "Pois,
bem", disse a Mulher, soltando uma baforada de seu cachimbo de
ervas da paz. Depois, encheu sua cumbuca até às bordas
com a bebida mais preciosa da tribo, o naxiri, e a entregou à
moça: "Vá pelos caminhos e preste atenção
a tudo o que encontrar".
Fácil,
não? Cumbuca nas mãos, a moça saiu pelos caminhos,
ávida, ela se tornaria sábia, sim, iria ter milhões
de coisas para contar à Grande Mãe. Por isso, demorou
mais que o previsto. Andou por caminhos conhecidos e menos conhecidos,
aventurou-se mais, foi além dos contornos admissíveis
para uma moça de tradições tão seguras.
Voltou à tarde com a certeza de que tinha feito um bom trabalho.
Aliás, ela mesma se surpreendeu por ter descoberto tantas coisas
mais em caminhos já tão conhecidos. Que mundo tão
simples e ao mesmo tempo tão complexo! Tantas coisas grandes
e pequenas, tantos detalhes, minha memória parece um cesto enorme,
daqueles que se usa para a colheita grande da mandioca, e olhe, está
cheio.
Grande
Mãe ouviu tudo em grande silêncio, mas sua enorme sintonia
escapava-lhe cintilante, visível, pelos olhos. -"É
verdade, o mundo se transforma quando estamos atentas. E a cumbuca?"
-"Ah! Foi tanta coisa, andei muito, tive que descer, subir, pular
obstáculos, procurar, defender-me pelo caminho, de modo que não
tive tempo de cuidar da cumbuca, ela está vazia".
Grande
Mãe tinha muita paciência, o que vinha de sua grande compreensão
da condição humana. Encheu novamente a cumbuca com a bebida
sagrada, recomendando `a jovem que saísse novamente pelo caminho.
A moça agora estava um cuidado só. A cumbuca quase transbordava,
agora o equilíbrio era o principal, coisa que não se adquire
assim, de uma hora para outra. É melhor não se arriscar
muito, quanto menor o caminho, maiores as chances. Assim, muito breve
estava novamente na presença da Mulher Sábia. - "Olhe,
consegui, não derramou uma gota sequer".
-
"E pelo caminho, o que você observou?"
-
"É que eu estava muito concentrada na taça e assim
me descuidei das coisas do caminho".
-
"Pois bem, minha filha, você mostrou grande determinação
em conhecer o caminho da sabedoria interior. Ele, na verdade é
simples, consiste justamente em estarmos atentas ao que acontece ao
nosso redor, sem, contudo descuidarmos do tesouro que carregamos em
nosso interior. É uma tarefa de vida. Vá, pratique isso
e você encontrará a sabedoria".
Adaptação
de "A Taça e o Caminho"
abril/2004