"O melhor lugar do mundo é onde Deus me quer".
São José Freinademetz
Irmã Gertrudine - "...o
importante é a animação do povo para olhar não
somente para dentro do Brasil como também para fora."
Eu nasci em Guntersblum às margens do rio Reno,
perto de Meinz, no dia 15 de janeiro de 1920. O casamento dos meus pais
também foi no dia de Pe. Arnaldo, dez anos antes. Então
acho que Pe. Arnaldo já entrou na minha vida antes mesmo do meu
nascimento. Meus pais casaram-se em novembro de 1910 e em 1911 nasceu
minha irmã e em 1913 meu irmão. Depois veio a 1ª
guerra mundial, papai foi mandado como ferroviário para a Rússia
e voltou somente em 1918. Em 1920, eu nasci como última da família.
Aos três anos de idade, fomos expulsos pelos franceses para outro
lado da margem do Rio Reno, pois meu pai era ferroviário e todos
os ferroviários foram expulsos. Depois de um ano voltamos.
Eu nasci numa cidade pequena de mil habitantes, mas, apenas trezentos
eram católicos, era diáspora, o nosso Vigário era
muito zeloso e dedicava-se especialmente às crianças e
à juventude. Ele arrumou uma biblioteca para nós, fazia
teatro conosco, chamava-nos para cantar, justamente para nos proteger,
e assim nós crescermos num ambiente Católico, apesar da
nossa vizinhança Luterana.
Freqüentei o curso primário na Escola Municipal e nós,
católicos, fizemos esforço para sermos alunos bons e assim
não poderem dizer que os Católicos não prestavam.
Agora, no tempo do nazismo a minha família, com a graça
de Deus e iluminação do Espírito Santo, não
aderiu a ele, também não entrei na juventude nazista,
mas isso era muito perigoso para o emprego do meu pai.
Na escola, mudaram o inspetor e então o novato vinha cada mês
para perguntar publicamente quem de nós ainda não estava
na juventude nazista. Então, com mais umas cinco ou seis colegas,
meninos e meninas, levantávamos. Ele dizia: “Eu não
quero ver ninguém mais de pé na próxima vez”
. Nós abaixávamos a cabeça e ficávamos na
nossa. Felizmente, saí da escola primária em 1934, porque
também era até arriscado meu pai perder o emprego.
Na nossa paróquia havia muitas revistas missionárias dos
Palotinos e dos Verbitas. Eu tinha treze anos quando um Irmão
Verbita que espalhava as revistas chegou e o Vigário me disse:
“Ana, vá com ele para a casa da Dona Izabel para mostrar-lhe
o caminho”. Enquanto caminhávamos o Irmão Verbita
me perguntou: “Quantos anos você tem?” __ Treze. Respondi.
- E você vai sair da escola?
- Vou sim senhor.
- E o que você vai ser?
Eu respondi prontamente: Irmã Missionária.
-O que? , perguntou assustado.
- Nesta Paróquia assim? Aonde você vai?
- Eu ainda não sei, nós temos umas revistas em casa, a
gente está olhando.
- Você sabe que tem as Irmãs de Steyl?
- Não, não sei.
- Então vou mandar-lhe as revistas.
Dito e feito, ele me mandou os prospectos. Eu já tinha pensado
antes em entrar nas Palotinas em Limburg, na Alemanha, mas, com os prospectos
de
Steyl gostei, meu irmão mais velho também gostou e assim
pedi admissão na
candidatura em 29 de dezembro de 1934.Os meus pais me acompanharam até
a casa
Provincial. Lá fiquei um ano e a superiora sempre verificava
para que área as
candidatas iam depois servir na Congregação. Então,
mandaram-me no ano seguinte
para Steyl, para fazer o curso científico. Em 1939 começou
a segunda guerra
mundial. Eu estava de férias, meu pai tinha estado de licença
por causa de uma gripe.
Ele me disse: “Eu vou logo voltar ao trabalho porque senão
eles vão dizer que eu estou me poupando”. Meu pai poderia
ser preso, pois era público que a gente não era nazista.
Um dia em que papai tinha saído para o trabalho, veio um telefonema
para minha mãe, avisando que o papai tinha sofrido um acidente.
Ele estava no vagão de cargas, uma porta rolou e imprensou a
cabeça dele. Em vez de o levarem logo para o hospital da cidade,
levaram-no para casa. Minha mãe era uma mulher muito corajosa.
Ela arrumou em casa o quarto e chamou o médico, o estado do meu
pai era terrível, não verteu nenhuma gota de sangue, ele
ficou com a cabeça preta, mesmo assim não estava inconsciente.
E o médico disse: “Eu não tenho coragem de mandá-lo
para o hospital, ele vai morrer no caminho”.
Minha mãe esperou uns seis dias e depois, ela corajosamente chamou
um táxi e levou meu pai para o hospital de Mainz. No dia seguinte,
ela foi visitá-lo e voltou muito desanimada. Dois dias mais tarde,
eu pude ir junto, quando chegamos no quarto ele estava sentado na cama,
reconheceu-nos e disse: “O padre me deu uma bênção
e eu melhorei”. A enfermeira religiosa então falou: “Olhe,
o seu marido estava para morrer, nós chamamos o padre para dar
extrema unção e aconteceu o milagre”.
Resumindo, realmente os médicos antes tinham falado que deviam
fazer uma operação de crânio, do contrário
ele iria ficar com ataques epilépticos, mas, minha mãe,
iluminada pelo Espírito Santo, não permitiu, pois os melhores
médicos já estavam na guerra. Ela disse: “Eu confio
em Deus e no Pe. Arnaldo, eu vou rezar”.
Quando meu pai recebeu alta os próprios médicos falaram:
“Nós não podemos explicar como o senhor escapou
desta, o senhor tem que dar um grande presente à Igreja”.
Minha mãe, então, heroicamente permitiu que eu voltasse
para Steyl. Em 1941 terminei o 2º grau. Com mais quatro colegas
entramos no Postulantado, na casa holandesa em Baxem, para não
sermos descobertas pelos nazistas, que já estavam na Holanda.
Assim passei a 2ª guerra mundial lá, depois voltamos para
o noviciado em Steyl e em 08 de dezembro de 1943 fiz, com mais três
colegas, os 1ºs votos. Em 1945 terminou a 2ª guerra mundial.
Recebi, então, uma cartinha de Roma com o destino missionário
para o Brasil. O Pe. Provincial Bigner, sempre falava de Nossa Senhora
de Fátima, que bonito, ela falou em português. Eu pensei
comigo, vou para um país que tem raízes católicas,
porque os imigrantes eram portugueses. Assim vim de bom grado ao Brasil.
Em 08 de dezembro de 1949 fiz os votos perpétuos.
Estudei física, matemática e religião no Sedes
Sapientie e em 1953 comecei a lecionar no Stella Matutina e lá
fiquei durante onze anos. Depois me transferiram para o colégio
Nossa Senhora da Piedade, no Rio de Janeiro, onde estou até agora.
Já se vão 42 anos.
Agora quando me perguntam : “A senhora de onde é?”
Eu respondo: “Eu nasci na Alemanha, mas, virei brasileira carioca”.
Primeiro eu dava muitas aulas de física, matemática, estatística,
religião, ciências naturais. Mas, em 1971 quando Dr. Mário
Gurgel fundou o Conselho Missionário Brasileiro, a Ir. Margareta,
que era provincial, me pediu primeiro para representar a Congregação
nesse Conselho.
Depois, em 1972 eu fui encarregada da Animação Missionária
na Diocese, e continuei membro ativo dela até uns quatro anos
atrás, trabalhando no duro lá na nossa Regional Leste
I, tanto na Arquidiocese como na COMINA (Comissão Nacional Missionária
) em âmbito diocesano.
Além disso, em 1972 o bispo Dom Mário Gurgel fundou a
escola Mater Eclésia, para a qual nosso colégio está
até hoje cedendo salas de aulas aos sábados e uma sala
permanente para biblioteca e secretaria. Quando Dom Mário foi
transferido para Itabira, pediu que eu assumisse a coordenação
desse núcleo, o que estou fazendo até hoje. Também
trabalhei na animação das Religiosas. Quando estava perto
dos 80 anos deixei de lecionar, deixando essa tarefa para gente mais
jovem. Meu trabalho até hoje é o de coordenadora do departamento
da Animação Missionária da Arquidiocese e também
do Núcleo Mater Eclesiae no Vicariato Suburbano.
Uma grande alegria que tive foi, primeiro, a acolhida que o povo brasileiro
dá ao povo que vem de fora. Depois, eu percebi que me interessava
por história. Conhecia os tempos tristes da história na
minha terra, por exemplo, depois da 1ª guerra mundial, quando foi
ocupada pelo exército francês até 1929. Então,
eu gostei muito do Brasil porque eu senti que seu povo como tal é
um povo pacífico devido às suas raízes portuguesas.
Claro, tem também páginas mais tristes do passado dos
índios e também dos negros, mas, de maneira geral, entre
os países Sul Americanos acho que nenhum país é
tão tolerante quanto o Brasil.
A gente também enfrentou dificuldades: primeiro com a língua,
depois, ainda não tinha muito jeito com a juventude. Eu era a
mais nova em casa e cresci mais com os adultos. Os cursos de orientação
pedagogica educacional que fiz no começo, me ajudaram a compreender
melhor a juventude. Os leigos e leigas, graças a Deus, têm
me ajudado de bom grado, quero dizer, as coisas estão funcionado
não devido ao meu trabalho apenas, mas, ao trabalho da equipe
que é composta por mais ou menos vinte pessoas, avós,
mães, um militar aposentado, um padre de Moçambique da
Congregação da Consolata e a gente faz um trabalho em
comum, isso é realmente bonito. A partir do Concílio Vaticano
2º, fomos nos acostumando graças a Deus a trabalhar com
os leigos e leigas, valorizando seus trabalhos e nos colocando sempre
mais nesse trabalho Pastoral no Brasil.
Na Animação Missionária, fazemos reflexão
a cada dois meses. No outro mês, cada um faz no seu Vicariato
uma reunião. Nessas reuniões de oração e
reflexão a gente escolhe, por exemplo, um determinado documento
atual para refletir, depois fazemos o planejamento prático. Quando
chega o mês de julho, começamos a preparar o curso de Animação
Missionária que se realiza cada ano, durante quatro sábados
do mês de setembro, em preparação ao mês missionário,
que é outubro. Depois, fazemos o pedido do material da Campanha
Missionária e a nossa equipe divide e encaminha para cada um
dos seis Vicariatos, cujas secretárias se encarregam de que chegue
às paróquias. Também escrevemos cartinhas para
os vigários pedindo seu apoio para esse trabalho. Também
faz parte da nossa equipe uma senhora viúva, fonoaudióloga,
bem entrosada na educação, que é responsável
pela Infância Missionária. Assim, temos na Arquidiocese,
e também faz parte do nosso trabalho, a Infância Missionária,
cujos membros, as crianças, também têm suas reuniões.
Nós insistimos na parte concreta da coleta e, graças a
Deus, a nossa coleta da Arquidiocese cada ano está subindo um
pouquinho mais. Mas, isso não é mais importante, o importante
é a animação do povo para olhar não somente
para dentro do Brasil como também para fora. Temos alguma preocupação
porque, às vezes, o povo só pensa na pastoral popular
que se realiza dentro do nosso bairro, dentro das casas, mas, nós
somos uma Congregação Missionária e por isso devemos
ajudar outras pessoas a olhar para fora.
Eu gostaria de dizer que Nosso Senhor é o autor de tudo. Eu sou
muito grata à minha Congregação (SSpS), eu tive
realmente boas formadoras; sou grata também às minhas
co-irmãs e às autoridades do Brasil pela acolhida.
Eu me sinto brasileira, carioca, Missionária Serva do Espírito
Santo.
Ir. Anna Lorenz (Gertrudine), SSpS
-
pertence a Província Brasil Norte
março
/ 2006
<outras
Experiências Missionárias>