"O melhor lugar do mundo é onde Deus me quer".
São José Freinademetz
Irmã
Maria das Graças: "Deus é tão bom, é
ele que realiza, nós só ajudamos."
Meu nome completo é Romilda Mallmann – Irmã Maria
das Graças (SSpS). Nasci em Linha Sítio, Cruzeiro do Sul
– RS. Sou da 5ª geração de descendentes alemães
de ambos os lados, paterno e materno. Os primeiros vieram de Hunsrvek,
no início da colonização alemã no Rio Grande
do Sul. Cultivamos a língua alemã até hoje.
Tenho seis irmãos e duas irmãs, meu pai e meu irmão
mais velho já são falecidos. Trabalhei sempre na lavoura
com eles.
Meus pais eram muito piedosos, rezávamos sempre o terço
em família. Desde pequena sempre lancei um olhar para as freiras.
Já vestia minhas bonecas com hábito. Vocação
é um toque de Deus, a serviço da vida.
Eu tinha doze anos quando fiquei dois dias no hospital com minha mãe
e lá havia religiosas do Sagrado Coração de Maria.
Uma delas apenas perguntou: Você quer ser irmã? Foi um
toque de Deus na minha vida, nem me lembro o que respondi, mas isso
caminhou comigo. Quando papai foi buscar mamãe, na saída
a Irmã lhe disse: Ela vai ser irmã. A resposta dele foi:
Ah é?
Um dia papai comentou com uma visita que parecia que eu queria ser freira,
mas, que não me deixaria sair até eu ter 18 anos. E quando
os completei, chegou na minha terra uma missionária, Ir. Bernadina,
que depois voltou para Wimbern e lá faleceu. Pude até
fazer visita ao túmulo dela.
Na semana que Irmã Bernardina deu palestra para as jovens, perguntou
ao grupo quem queria ir com ela. Muitas levantaram a mão, daí
a Missionária apontou seu dedo em minha direção
e disse: ela vai comigo. Penso que Ir. Bernardina percebeu que estava
queimando lá dentro de mim para falar com ela isso.
Quando terminou aquela missão eu já fui junto para Poço
da Antas. Mamãe que não gostou quando saí um dia
me falou que as colheitas eram boas deste que entrei no Convento. Estou
capinando, às vezes eu me lembro de você, paro e rezo,
disse ela.
Fui em 1958 para Poço das Antas e lá trabalhava muito
no hospital e estudava no Juvenato. Cuidava das meninas quando a Irmã
não estava eu ficava, então, responsável pelas
internas.
Eu saía muito com a Irmã Redentris (que faleceu aqui no
Convento) para as capelas e casas de família no interior. Nós
íamos com uma charrete fechada com lonas e puxada por com cavalos.
Dormíamos nas casas do povo, nem sempre tínhamos como
tomar banho, só lavávamos os pés. Às vezes
havia até pulgas nas camas, não era fácil, fazia
parte da missão.
Em 1963, entrei no Convento SS. Trindade éramos vinte e cinco
meninas, das quais, doze eram do Sul. Fiz o postulantado, noviciado
e esperei mais meio ano porque o médico achava que eu tinha um
problema no coração.
Após os votos, fui à primeira casa, no Espírito
Santo, onde vivemos bem pobres, foi uma boa experiência. Esperávamos
a galinha botar um ovo para fazermos um bolo para o lanche.
Depois, fui a Registro, trabalhei na casa e Irmã Míriam
(já falecida) e eu estudávamos juntas à noite,
cursamos o primeiro e segundo ano do ginásio.
Então fui para Sagrado Coração de Jesus, onde freqüentei
a terceira e a quarta séries do ginásio e trabalhei na
casa. Depois voltei para o Convento a fim de me preparar para os votos
Perpétuos. Foi uma provação! Deus dá uns
toques doces no começo, depois aos poucos, vêm alguns mais
amargos.
Feitos os votos perpétuos fui para o Encantado, administrei a
casa com funcionárias, o que foi muito bom. Fiz o curso de administração
por três anos, à noite. Então estive em Juiz de
Fora, onde ajudei um pouco por um ano. Em seguida fui a Brasília,
lá fiz uma experiência linda com as crianças na
sala de aula. E como iam fechar a escolinha, fui transferida pela primeira
vez para Roma (Nemi) por três anos. Estava lá havia seis
meses quando recebi a noticia do falecimento do meu pai.
No final do tempo previsto, pediram-me para ficar mais três anos.
Voltei ao Brasil, fiquei dois meses de férias e retornei. Depois
de um ano e meio, me chamaram de volta ao Brasil. Irmã Anemarie
(Madre Geral), disse: você faz o terciato, depois ajuda em mais
um terciato e então volta ao Brasil.
De volta, fui para o Taquaril em Belo Horizonte, MG, onde trabalhei
na Pastoral da Criança por oito meses e então, fui para
o Meier para substituir uma Irmã que tinha ido participar do
terciato. Lá permaneci por quatro anos.
Em 1996, fui novamente chamada para Roma, para mais três anos.
Lembro-me que lutei um pouco, ponderando, vou ou não vou. Tinha
que dar resposta em uma semana. Aí falei com Irmã Vera
Letícia, que me disse: Se fosse eu ia hoje já. Isso me
animou e lá fui eu, agora com outra experiência, pois conhecia
o lugar, um pouco melhor a cultura, a língua e os costumes. Em
1999 voltei ao Brasil e no ano seguinte fui novamente para Brasília.
A coordenação da comunidade foi uma boa experiência.
Agora, após sete anos de meu retorno, foi-me solicitado de novo
a ir trabalhar em Roma. Fiz uma reflexão sobre se valia à
pena ou não e senti que, com a graça de Deus posso ainda
dar minha contribuição, estar a serviço do Senhor.
Vejam sempre me senti e me sinto Missionária. Em toda parte onde
estamos somos missionárias, depende de nós, da intenção
do nosso coração. Senti-me e me sinto sempre na missão.
Quando eu trabalhava no terciato, quanta gente, quantas Irmãs
por lá passaram para se prepararem melhor para sua missão
e isso me dava alegria, sentia-me como se eu também fosse nessa
missão delas. A minha vida, tudo que aconteceu é uma vivência
interior tão forte que não dá para contar. Só
quem faz a experiência de Deus acha que vale a pena ficar na Vida
Religiosa, quem não faz isso, não agüenta. Tem que
ter vocação. Só pela minha força não
ficaria. Mas Deus é tão bom, é ele que realiza,
nós só ajudamos.
Agora vou ajudar no generalato e a minha expectativa é de me
sentir cada vez mas missionária servindo outras missionárias
do mundo inteiro que por lá passam.
A vocês todas de nossa Província, um muito obrigada por
me terem dado mais uma oportunidade. Não é fácil
sempre partir, morrer, deixar algo, província, família
e coisas também. Que cada uma no seu espaço, no seu trabalho
se sinta muito missionária naquilo que é e que faz. Que
tenham muita coragem no coração, muita intimidade com
Deus, fé, esperança e amor.
Rezemos umas pelas outras. Penso que se rezássemos mais umas
pelas outras seriamos melhores e teríamos mais vocações.
Sinto que vale a pena darmos nossa vida, estarmos a serviço do
Evangelho e fazermos tudo o que é possível para a maior
honra e glória de Deus.
Irmã
Maria das Graças Mallmann -
pertence a Província Brasil Norte, SSpS
Abril - 2007