"O melhor lugar do mundo é onde Deus me quer".
São José Freinademetz
Hildegard Wustmans: "...todo
mundo tem os dons e os coloca a serviço."
Meu
nome é Hildegard Wustmans, tenho 39 anos. Nasci na Alemanha,
numa família religiosa. Desde a adolescência, tinha o desejo
de "ver o mundo". Uma amiga de sua mãe, por sinal uma
Missionária Serva do Espírito Santo (SSpS), com missão
em Timor, Indonésia, quando de férias, costumava passar
uma semana em nossa casa. Eu tinha por volta de 15 anos e ficava entusiasmada
ao ouvir contar sobre um mundo diferente do "meu mundo". Participava
da Pastoral da Juventude em minha paróquia, e me envolvia em
atividades voltadas para a justiça, sobretudo me interessava
a realidade do 3º Mundo.
Através de uma SSpS brasileira, de cujo nome não me recordo,
falou sobre o trabalho aqui no Brasil a um grupo do MAS, que são
jovens alemãs que querem fazer uma experiência de missão.
Desde então, eu queria trabalhar aqui, viver com o povo.
Finalmente, em 1983 consegui um estágio na paróquia de
Pedro II, no Piauí. Para mim, o contato com a realidade desse
"outro mundo" foi chocante. O povo sofria o 5º ano consecutivo
de seca. Encontrei pobreza, muita fome, machismo, problemas de terra,
entre outros. Além disso, achava o padre responsável pela
pastoral muito duro, além de não concordar com o método
de trabalho dele, que era de dar as coisas, sem lutar com o povo para
que esse fosse crescendo e se libertando.
Nessa época, aprendi a me colocar. Também, encontrei uma
equipe de pastoral com muita vontade de agir numa linha libertadora.
Criamos, então, o Centro de Formação Mandacaru,
que prossegue ainda hoje seu trabalho numa linha de libertação.
No Centro Mandacaru e me engajei.
Esse tempo no Nordeste foi de muita importância para mim. Também
tive oportunidade de conhecer outros trabalhos, como o de vocês,
em Vila Remo, além de outros, na Bahia.
Tomei, então, a decisão de estudar Teologia. Fiz o estudo
na Alemanha, que me dá o direito de lecionar lá, mas,
em 1986, fiz também o CEHILA - Centro de Estudos da História
da Igreja Latino Americana, aqui no Brasil.
Na Alemanha, trabalho com uma doutora teóloga e meu sonho é
o de trabalhar no universo teológico na Alemanha e de pesquisar
sempre mais a realidade no Brasil, focalizando em "Mulheres e Espiritualidade",
numa área ampla da liturgia. Também trabalho na diocese
de Linburg, onde sou a única mulher numa equipe de 5 pessoas.
Trabalhamos nas escolas, pois na Alemanha quase não se encontram
mais jovens no movimento de comunidade da Igreja oficial. Então,
vamos aonde os jovens estão, isto é, nas escolas.
O universo de minha pesquisa são grupos de mulheres na Alemanha
e no Brasil que celebram sobre a vida. Minha tese é: Como vai
ser o futuro da Igreja? Quase não temos mais vocações
sacerdotais. Em minha diocese, há dois anos não acontece
nenhuma ordenação. Parto do princípio de que o
futuro da Igreja já está presente nesses grupos de mulheres,
pois neles elas fazem celebrações cuja matéria
é a vida, tem uma espiritualidade e podem definir uma nova autoridade.
Não necessitam de um sacerdote ou sacerdotisa, todo mundo tem
os dons e os colocam a serviço. Tais celebrações
ajudam as mulheres a viver bem, dá-lhes força, proporciona-lhes
crescimento.
Parto do princípio de que existe dois tipos de Igreja:
- Comunidades
Religiosas, representada na Bíblia por Pedro;
- Comunidades Pastorais, representadas por Paulo.
O mesmo aconteceu na Idade Média, entre o Papa Inocêncio
e Francisco de Assis. Essa igreja de Paulo e de Francisco de Assis existe
hoje também, nos grupos de mulheres que sabem viver essa pastoral
Gemeinshaft.
Para
mim é importante fazer essa pesquisa aqui no Brasil, numa cultura,
num mundo diferente. Percebo semelhanças e diferenças
com relação à realidade dos grupos na Alemanha.
Em São Paulo, a situação dos grupos é bem
mais parecida com o que vejo na Alemanha. Já no Nordeste, a situação
é bastante diferente. Lá a questão de gênero
não é tão forte como aqui, fica ofuscada por outras
lutas, que exigem muito esforço, como a questão da fome
e da terra. Assim, a questão própria das mulheres fica
em segundo plano.
Também faço parte de um grupo de mulheres que celebram
a vida, tenho necessidade desse grupo. Meu trabalho, portanto, é
sobre algo que me interessa. O resultado da pesquisa, penso, vai animar
os grupos que já existem.