"O melhor lugar do mundo é onde Deus me quer".
São José Freinademetz
Irmã
Matilde - "Completando
20 anos de minha trajetória missionária na África,
o Senhor me visitou com outra missão muito especial: em janeiro
deste ano, mesmo com malária, estava trabalhando pela manhã,
quando senti, de repente, uma dor forte na perna direita."
Por
motivo de força maior, tive que deixar minha missão em
Angola e retornar ao Brasil. Tudo aconteceu muito de repente, mas, agora
já vou me recuperando, graças a Deus. A todos e a todas
que me acompanharam com orações, visitas, cartas, mensagens
e tanto estímulo e encorajamento, com amizade e carinho, sou
muito grata.
Sinto-me agora bem melhor e, atendendo a pedido, aproveito esta “folga”
para repassar um pouco sobre minha vida e missão.
Como sabem, sou mineira, natural de Araçaí um distrito
pertencente a Sete Lagoas. Lá tive contato, desde menina, com
famílias descendentes de escravos africanos. Os fatos que narravam
sobre suas vidas de muito sofrimento me entristeciam e, penso que, por
aí foi nascendo no meu coração o desejo de fazer
alguma coisa para diminuir o sofrimento deles.
Em 1968, conheci as missionárias SSpS na fazenda Nossa Senhora
do Carmo. Irmã Nazarina me cativou pela sua simplicidade e humildade
e foi com ela que falei, pela primeira vez, sobre minha vocação.
Fiz na fazenda uma experiência comunitária, por alguns
meses e, de lá, as Irmãs me encaminharam para o Colégio
Sagrado Coração de Jesus, de Belo Horizonte, onde pude
continuar meus estudos e conhecer mais de perto a vida religiosa e missionária.
Em 1972, entrei como postulante no Convento Santíssima Trindade.
O noviciado, eu o fiz em Ponta Grossa, na Província do Sul.
Após minha 1ª Profissão, no Convento Santíssima
Trindade, fiz o curso de auxiliar de enfermagem e trabalhei em alguns
hospitais, na Província.
O destino para África, meu primeiro amor missionário,
recebi-o em 1985. Como enfermeira, atuei em várias localidades
africanas. Tendo conhecido a triste realidade da doença do sono,
solicitei ao Conselho Geral a oportunidade de fazer um estágio
de 2 anos num hospital especializado, em Camarões. Aprofundei
lá meus conhecimentos sobre a T.H.A. (Tripanossomíases
Humana Africana), doença muito freqüente em Angola.
Em Luanda, fui convidada a integrar a equipe Nacional de Coordenação
da Angotrjp, destinada a apoiar, treinar e preparar agentes de saúde
na área da T.H.A, tratar dos doentes e combater a mosca Tsé-Tsé.
Minha missão nessa área fixou-se em Kindege, pequena aldeia
perdida no interior de Angola, a quase 400 km de Luanda. Kindege é
uma Comuna com 22 aldeias e mais outras, isoladas de tudo, sem a menor
assistência à saúde da população.
Para lá foi também enviado Irmão Hugo, SVD. Ali
passamos a assumir tudo, desde um simples curativo até partos
complicados, com a ajuda de Deus, que nos protegia e encorajava. Tudo
era muito pobre e simples, casas de adobe queimado, cobertas de capim,
esteiras servindo de cama; colchões ou cobertores... nem pensar!
Para os medicamentos conseguimos ajuda das ONGs,de Luanda e mais um
pouco aqui e ali...
Irmã Ágada nos animou a construir um pequeno centro de
saúde, Kimdetrip, com ajuda de benfeitores italianos e mão
de obra de voluntários angolanos.
Conseguimos curar e salvar muita gente, em meio a uma grave situação
política, com o país em guerra, o que ocasionava mais
sofrimentos ao povo: destruição, morte, fuga para a mata,
minas espalhadas por toda parte, muita gente com membros destroçados.
Em 2000, Irmã Júlia Alves foi reforçar a nossa
comunidade, por 3 anos e, a ela, sou muito grata.
Em meados de 2004, tive a alegria de receber a Irmã Edviges,
que também fez parte da nossa comunidade. A ela meu muito obrigada.
Completando 20 anos de minha trajetória missionária na
África, o Senhor me visitou com outra missão muito especial:
em janeiro deste ano, mesmo com malária, estava trabalhando pela
manhã, quando senti, de repente, uma dor forte na perna direita.
Tendo piorando o sintoma, à tarde me levaram para Luanda, numa
penosa viagem de 13 horas, de jipe, por uma estrada de terra. Lá
me encaminharam para uma clínica onde fui para a U.T.I., onde
permaneci por 15 dias em intenso tratamento. Irmãs, médic@s,
e enfermeir@s lançaram mãos de tudo para me recuperar,
mas não houve resposta positiva de meu organismo.
No dia 5 de fevereiro, Irmã Neusa acompanhou-me no vôo
para o Brasil. Do aeroporto de Guarulhos, as Irmãs me levaram
direto, de ambulância, para o Hospital São Paulo. Foram
quase 2 meses de uma luta incansável da equipe médica,
para salvar minha perna, o que não foi possível.
Confiante na vontade de Deus, aceitei com coragem, fé e esperança
o sacrifício da amputação de minha perna direita.
A partir daí, meu estado geral foi pouco a pouco melhorando.
Agora estou no Sant’Ana, casa das Irmãs idosas do Convento,
para dar continuidade ao meu tratamento. Faço fisioterapia numa
clínica especializada, próxima daqui e também no
Santana. Sinto-me cada dia mais fortalecida, com boa capacidade de movimentos
e força para ir sustentando o meu corpo.
Vou, assim, preparando-me, se Deus quiser, para receber uma prótese,
na esperança ainda de poder assumir uma nova missão, retornando
ao “primeiro amor”, Angola. Esse é o meu desejo.
Sou muitíssimo agradecida por tudo o que fizeram e fazem por
mim, e peço ao Espírito Santo que retribua, com seus dons
e graças, a todos e todas que me acompanharam nessa fase de minha
vida.
Através do nosso portal envio um agradecimento muito especial
a tod@s que se comunicaram mais diretamente comigo, como a Direção
Geral, Steyl, as comunidades SSpS e SVD de Angola, nossas Irmãs
SSpS, os padres e Irmãos SVD do Brasil e de outros países,
amigos, amigas e meus queridos familiares.
Que Deus a tod@s conceda saúde, alegria, paz e bênçãos,
sem esquecer meu querido povo do Kindege.
Irmã Matilde Eremita de Souza, SSpS - pertence
a Província Brasil Norte
agosto/2005
<outras
Experiências Missionárias>