A força da Ressurreição
O
dia de páscoa celebra a ressurreição de Cristo.
Nisto está toda sua força, e toda sua importância.
Sem a ressurreição de Cristo, não teria havido
história de Cristo, nem teria existido história do cristianismo.
Se tudo tivesse terminado na cruz, a morte de Cristo teria sido esquecida.
Teria se perdido no turbilhão de tantas outras, anônimas,
inúteis e igualmente injustas.
Mas tudo mudou com sua ressurreição. A partir dela, inclusive,
passou a tomar sentido novo tudo o que a precedeu, e passam a receber
significado diferente todas as mortes, mesmo que continuem parecendo
anônimas e injustas.
A ressurreição de Cristo é o fato fundante da fé
cristã. Fato tão verdadeiro, que sem ele não se
explica a grande transformação ocorrida nos apóstolos,
e o surpreendente processo desencadeado na história.
Nunca é demais enfatizar o impacto causado pela constatação
objetiva do túmulo vazio, na madrugada daquele "primeiro
dia da semana", com os subseqüentes desdobramentos vivenciados
pelos apóstolos ao longo daquele mesmo dia.
Aquele "primeiro dia da semana", se tornou, na realidade,
em símbolo da própria missão da Igreja, em símbolo
também da história humana, que muda de sentido a partir
da ressurreição de Cristo.
O que os Evangelhos narram daquele dia, tudo é muito verdadeiro,
mas também tudo é muito simbólico. Pois a verdade
testemunhada é maior do que a realidade onde ela se reflete.
Ela ultrapassa os acontecimentos onde se revela. Por isto, os fatos
são verdadeiros. Mas não se limitam àquele dia.
Projetam seu significado para toda a história humana.
Foi um dia intenso, da madrugada até a noite. Impressiona constatar
como os Evangelhos carregam o dia com episódios, que costurados
cobrem por inteiro, tanto a madrugada, como a manhã, a tarde
e a noite do dia da Páscoa.
Nada mais escapa à luz da ressurreição.
Começa pelo símbolo da madrugada. Jesus morreu no entardecer.
Mas ressurgiu de madrugada. Pela frente estava a longa jornada, a ser
preenchida com intensa atividade.
A partir de Cristo a história toma novo alento. Não é
que ela termina com Cristo. Ela recomeça. Há muito que
fazer. Existe uma grande empreitada a assumir. 0s que madrugam, como
as mulheres naquele dia, descobrem o segredo da história, e são
alentados pela certeza esperança.
Depois da madrugada, vem a manhã. Para usar a palavra em voga
hoje na pastoral, a manhã foi toda ela dedicada ao "anúncio".
Assim como a paciente caminhada dos discípulos de Emaús,
naquela tarde, pode ser identificada com o desafio da "formação",
do amadurecimento na fé, da busca de consistência e de
maturidade. E as aparições de Jesus à naquela noite
simbolizam a "celebração", onde Cristo é
reconhecido na partilha do pão.
Todas etapas indispensáveis, a serem percorridas por aqueles
que guardam a memória do Cristo ressuscitado. Foi assim que ele
se mostrou naquele primeiro dia.
Portanto, cada momento deste dia simboliza uma dimensão da Igreja,
simboliza igualmente um aspecto da história humana.
Em meio a tantas ameaças de morte, a Páscoa nos diz que
podemos confiar na força da vida.
Em meio a tantas incertezas, que hoje levam as pessoas a se sentirem
inseguras e perdidas, o episódio de Emaús nos adverte
a necessidade de buscar as razões de nossa esperança.
A refeição do Ressuscitado com seus discípulos,
a quem transmite a paz e renova a missão, nos mostra a urgência
de refazer o ambiente de segurança e de confiança no íntimo
de nossos corações e no seio de nossas instituições
iluminadas pela fé cristã.
O dia de Páscoa é paradigma de todos os dias. "Páscoa
não é só hoje, Páscoa é todo dia!"
D.
Demétrio Valentini - Bispo
da Diocese de Jales
Abril /2006
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