Projeto Soberano da Nação
Acaba
de se realizar em Brasília a Conferência Nacional TERRA
e ÁGUA, do dia 22 a 25 de novembro. Promovida por mais de quarenta
entidades e movimentos sociais que compõem o Fórum Nacional
de Reforma Agrária, a Conferência reuniu dez mil participantes
destes movimentos, vindos de todos os Estados da Federação.
Mesmo com caráter claramente
popular, e de iniciativa de movimentos sociais, a Conferência
contou com a presença de diversos ministros do atual governo.
O próprio Presidente Lula, sem ter sido oficialmente convidado,
acenou que iria ao encontro, mas acabou não indo, frustrando
as expectativas dos participantes.
Os debates tiveram a participação
sempre muito intensa e organizada dos representantes dos movimentos.
O encontro se concluiu com uma passeata em frente ao Palácio
do Planalto, e com uma demonstração junto ao Banco Central,
endereço certo da crítica contundente à política
econômica, que tem no setor financeiro o seu alvo mais insistente.
Pela envergadura do evento, ele se assemelha
à “marcha dos sem terra”, realizada em abril de 1997.
Ele sinaliza, com muita clareza, o ponto de saturação
das expectativas dos movimentos sociais diante do atual governo.
O grau de tensão manifestado
pelos movimentos assinala não só o seu descontentamento,
mas a urgência do país encontrar o caminho da superação
do impasse que o mantém praticamente atolado na estagnação
econômica desde a década de oitenta. De lá para
cá, são poucos os índices positivos de desenvolvimento,
ao passo que os índices negativos vão se agravando sempre
mais, com o aumento do desemprego, do empobrecimento, das desigualdades
e da violência.
Cresce a consciência de que vivemos
um momento decisivo para os rumos do país. Acentua-se o temor
de que o país pode perder o trem da história, e frustrar
as esperanças de sua afirmação positiva no contexto
das nações.
Neste sentido, ficou evidente a necessidade
do Brasil recuperar a capacidade de formular um projeto soberano de
desenvolvimento nacional. Este é o desafio, e esta é a
interrogação: até que ponto esta capacidade foi
comprometida, sobretudo pela privatização de setores estratégicos
do desenvolvimento nacional e pela aguda dependência financeira
em que o país mergulhou como conseqüência do seu grande
endividamento.
Alguns pontos são estratégicos
na definição de um projeto soberano de desenvolvimento.
O primeiro deles passa pelo fortalecimento da cidadania. Só uma
sociedade consciente e organizada pode se tornar sujeito do seu próprio
destino. Diante do desencanto dos movimentos, é urgente sua articulação,
que os faça convergir para consensos fundamentais que podem ser
propostos e sustentados.
Outro ponto estratégico é
o fortalecimento do Estado. Ao contrário da proposta do “Estado
Mínimo” do neo liberalismo, a situação atual
requer uma eficaz e firme atuação do Estado para garantir
os objetivos públicos dos diversos setores econômicos.
É
também urgente um enfrentamento mais claro e corajoso do endividamento.
Para isto, permanece válida a proposta da Constituição,
de se fazer uma auditoria da dívida, tanto externa como interna.
Como o mercado exigiu do governo brasileiro um “choque de credibilidade”,
pelo pagamento pontual e rigoroso dos compromissos assumidos, o governo
brasileiro bem que poderia exigir um “choque de responsabilidade”
por parte do capital financeiro, para que seus recursos não visem
somente seus lucros mas colaborem para o desenvolvimento do país.
No contexto da Conferência da
Terra e Água esteve muito presente outro ponto crucial, referente
à soberania alimentar. Nela se inclui o complexo problema dos
transgênicos, cujo risco maior é se tornarem monopólio
de algumas empresas, privando os países de decisões autônomas
sobre sua agricultura, que por natureza se destina prioritariamente,
não ao comércio internacional, mas ao atendimento das
necessidades alimentares de cada país.
A
hora é importante. O futuro do Brasil precisa ser assumido, de
maneira muito mais decidida, por seu próprio povo, consciente
e organizado. A Conferência sobre Terra e Água mostrou
que os Movimentos Sociais estão a fim de levar adiante o seu
protagonismo. Que eles inspirem toda a sociedade brasileira a fazer
o mesmo.
D.
Demétrio Valentini - Bispo
da Diocese de Jales
dezembro/2004
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