Tensões na América Latina
Vinte de novembro é o dia da consciência negra. Lembra
Zumbi dos Palmares, o herói da resistência negra, mártir
da dignidade dos afro-descendentes no Brasil. Eles carregaram o peso
de uma das maiores perversidades produzidas pela civilização
ocidental, que foi a espoliação do continente africano,
pelo nefasto processo de colonização dos seus países,
e sobretudo pela subjugação das populações
africanas ao trabalho escravo, seja na própria África
como em outros países pela exportação da mão
de obra escrava.
Sabemos
que o Brasil foi o último país do mundo a abolir oficialmente
a escravidão. Não é de estranhar que suas conseqüências
ainda se façam sentir, pelo peso dos preconceitos contra a população
negra, por discriminações que ainda permanecem, e por
situações de inferioridade social que se introduziram
na estrutura da sociedade brasileira, e que só irão desaparecer
a custo de um longo processo de superação que precisa
ser levado adiante.
Daí
a importância do esforço de conscientização,
que simbolicamente tomou forma em torno da figura emblemática
de Zumbi dos Palmares. Ele simboliza o despertar da consciência,
em primeiro lugar das populações negras, mas também
de todos os brasileiros. Há um esforço de conscientização,
que é indispensável para todos os brasileiros.
Temos
uma dívida social e cultural muito grande com os afro-descendentes.
Eles trouxeram para o Brasil, com sua presença, um grande contributo,
representado não só por seu trabalho, mas sobretudo pelo
valor de sua cultura, e simplesmente por sua presença, merecedora
de nossa estima, de nosso carinho e de nossa solidariedade.
O
Brasil, o último país a abolir a escravidão, precisa
despertar para a missão especial que ele tem no mundo: dar testemunho
da convivência pacífica e harmoniosa entre povos e culturas
diferentes. Solidários com a população negra em
nosso país, expressamos nossa gratidão por sua inestimável
colaboração com nossa história e nossa missão.
No
dia dezenove o calendário coloca a memória dos padres
jesuítas Roque Gonzáles, Afonso Rodrigues e João
Del Castilho, mortos em defesa dos índios guaranis, nas famosas
"reduções dos jesuítas". No sul do Brasil
eles são chamados de "mártires riograndenses",
pois na verdade foram mortos onde hoje é a "região
das missões", no Rio Grande do Sul, e que naquele tempo
pertencia ao Paraguai. Eles foram canonizados em Assunção,
por ocasião da visita do Papa João Paulo Segundo ao Paraguai,
na década de oitenta.
Junto
com eles, à semelhança de Zumbi para os negros, lembramos
o herói guarani chamado Sepé Tiaraju. Ele morreu enfrentando
os exércitos de Espanha e Portugal, que tinham se unido para
impor a repartição dos territórios sul americanos
de acordo com os interesses das metrópoles, atropelando a vontade
e a organização das populações indígenas.
A
lembrança de Sepé Tiaraju, o herói dos guaranis
sediados nos territórios a leste do Rio Uruguai, foi guardada
com respeito pela população. Tanto que recebeu uma espécie
de canonização popular, sendo lembrado como "São
Sepé", nome dado a um dos municípios do Rio Grande.
Os
heróis são portadores de bandeiras, cuja validade ainda
permanece. A melhor maneira de honrar sua memória é levar
adiante as causas pelas quais deram sua vida.
D.
Demétrio Valentini - Bispo
da Diocese de Jales
novembro/2005
Leia
mais...