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Congregação Missionária Servas do Espírito Santo - Província Stella Matutina - SP/SP

A sustentabilidade da Terra e a herança de Francisco

A memória de São Francisco de Assis, celebrada cada ano no dia 04 de outubro, recorda a cristãos e não cristãos a prioridade do cuidado espiritual com a Terra, as águas e todo ser vivo. Há mais de 700 anos, Francisco, jovem rico de Assis, descobriu um apelo divino em sua vida. Deixou a sociedade fútil da época e consagrou-se a ser pobre no meio dos mais pobres, servindo-os e testemunhando a todos o amor divino. À medida que se aproximou intimamente de Deus, desenvolveu a dimensão mais humana do seu ser. Ao tornar-se, o mais possível, parecido com Jesus Cristo, passou a olhar todo ser vivo como seu irmão e irmã. Em meio a um cristianismo guerreiro que organizava cruzadas contra os infiéis e, cujo dogmatismo, o fazia considerar-se superior às outras religiões, Francisco trabalhou pela paz e pelo diálogo com os muçulmanos e com todos os seres humanos. Tantos séculos depois, o nosso planeta passa por uma crise ecológica que, conforme os cientistas, pode acarretar um desastre ecológico tão grave que ameaçaria a vida sobre a Terra. Isso já ocorreu algumas vezes, em épocas muito antigas. Uma vez, caiu um cometa sobre a superfície terrestre e provocou mudanças radicais no planeta. De outra vez, um desvio de rota do globo terrestre em se movimento de rotação provocou uma era do gelo. Desta vez, o desastre anunciado não será provocado por nenhum fenômeno natural ou inevitável e sim pela própria humanidade que, à busca do lucro e conforto imediato não leva em conta as condições da vida e o respeito aos semelhantes, quanto mais aos outros seres vivos.

A cada dia, este risco aumenta e a única solução para determos a tragédia é deslocar o eixo do desenvolvimento para o da sustentabilidade.

Sobre isso sabemos que existem alguns caminhos enganosos e falsos. O cuidado com o meio ambiente é ostentado em publicidades caríssimas até por empresas que são as que mais exploram e poluem. Este tipo de desenvolvimento sustentável visa mais a redução de impostos e a rentabilidade do produto apregoado do que o verdadeiro equilíbrio ecológico. Como escreve Leonardo Boff: "Uma sociedade é sustentável quando se organiza e se comporta de tal forma que, através das gerações, ela consegue garantir a vida dos cidadãos e dos ecossistemas na qual está inserida. Quanto mais uma sociedade se funda sobre recursos renováveis e recicláveis, mais sustentabilidade ostenta. Isso não significa que não possa usar de recursos não renováveis. Mas, ao fazê-lo, deve praticar grande racionalidade, especialmente por amor à única Terra que temos e em solidariedade para com gerações futuras" (A Gazeta, 18/09/2006, p. 03).

Todos estão de acordo que este objetivo nunca será alcançado enquanto a organização social e econômica do mundo continuar achando natural que dois terços da humanidade continuem vítimas da injustiça social, da miséria e da fome, assim como mais de um quinto dos seres humanos não têm acesso à água potável limpa e sadia. Sem justiça social nunca teremos justiça ecológica.
O Brasil que acaba de eleger seus governantes para um novo quadriênio sabe que, apesar de que, em nosso país, estão 12% de todas as águas doces do planeta, milhões de brasileiros continuam bebendo água imprópria e a maioria de nossos rios continua recebendo todo tipo de esgoto e poluição. Apesar de todos os heróicos esforços da ministra Marina e de seus companheiros do Ministério do Meio Ambiente, o Brasil continua sendo uma das sociedades mais desequilibradas do mundo, no que diz respeito à igualdade social e, portanto, ao cuidado com a sustentabilidade do planeta.

Neste mês em que, na maior parte do território nacional, voltam as chuvas benfazejas, cada pessoa é convidada a integrar grupos de base e comissões de voluntários para cuidar dos rios, plantar árvores e zelar pela natureza que nos cerca. A memória de São Francisco de Assis e o clima de preparação para o Natal que, dentro de um mês, nos envolverá poderão nos iluminar neste caminho humano e espiritual.

Marcelo Barros
Outubro/2006

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