Povo
de Deus em marcha
Milhares de pessoas, homens e mulheres,
crianças, jovens, adultos e idosos, todos juntos numa grande
caminhada. Para que? Para dizer ao governo e à sociedade que
a Reforma Agrária é uma necessidade, tem que ser feita,
não se pode mais protelar sua concretização. Para
mostrar a todos e todas que a concentração da terra, através
dos latifúndios, tem que acabar. E que o agronegócio é
predador dos bens naturais, poluidor do meio-ambiente e causador do
êxodo rural, com o conseqüente aumento do desemprego. Por
onde o agronegócio passa, fica um rastro cada vez mais profundo
de violência contra os trabalhadores e de violação
dos direitos humanos.
Enquanto os pés caminham, já
cansados de uma longa jornada, cheia de tropeços, a mente e o
coração vão se abrindo, entendendo as causas que
provocam tanto sofrimento para os pequenos. Assim os olhos começam
a vislumbrar no horizonte uma nova terra de partilha e de fartura, onde
há lugar para todos, onde todos conseguem com alegria o pão
de cada dia, e onde o cansaço se transforma em alegria.
Esta marcha também vai deixar
um rastro bem marcado e profundo na história do povo brasileiro.
É o rastro da dignidade daqueles que, mesmo tendo sido excluídos
do banquete preparado para todos, não se deixam abater e lutam
para conquistar o espaço que é seu e do qual foram alijados.
É o rastro da fé de quem sabe que esta luta vai construindo
uma nova terra.
Esta marcha me faz lembrar daquela outra
grande marcha registrada no livro sagrado, a Bíblia. O Povo de
Deus que conseguiu se libertar da escravidão do Faraó,
no Egito, depois de ter atravessado o mar Vermelho, se põe em
marcha para a conquista da terra Prometida. Foram 40 longos anos de
caminhada pelo deserto, sofrendo sede e fome. Enfrentando desavenças
internas. Sendo tentado a buscar e cultuar outros deuses que lhe prometessem
respostas mais fáceis e lhe oferecessem soluções
sem ter que enfrentar as dificuldades. Mesmo no meio de situações
tão adversas, o povo continuou caminhando. Nesta longa caminhada
é que foi se forjando a identidade e a unidade deste povo que
assim conseguiu juntar energias para ao final conquistar uma terra,
a terra que o Senhor lhes prometera. Uma terra onde corre leite e mel.
A caminhada que esta multidão
faz hoje de Goiânia para Brasília quer conquistar também
a terra. E vai tomar de assalto o poder central que teima em manter
intactas as estruturas arcaicas e injustas sobre as quais se alicerçou
a sociedade brasileira; que mantém os privilégios, muitas
vezes espúrios de uns poucos, em detrimento da grande maioria
do povo; que prefere empregar os recursos do povo para pagar juros de
uma dívida que não se sabe ao certo como se formou, em
vez de direcioná-los para atender as necessidades elementares
dos cidadãos.
Os
marchantes, ao tomarem Brasília, querem acordar o presidente
Lula, que mesmo tendo garantido ser a Reforma Agrária uma das
prioridades de seu governo, não consegue dar passos concretos
e significativos neste rumo. Querem sacudir o Congresso onde se aninham,
não os defensores do povo, mas os negociadores dos grupos poderosos
e das elites, que mantêm e ampliam os privilégios sobre
os quais se assentam até hoje. Querem tentar abrir os olhos do
Judiciário, cuja cegueira é emblemática. Realmente
é cego para ver as justas e legítimas reivindicações
dos pequenos à terra, à alimentação, ao
trabalho, à moradia, à saúde, à educação,
mas enxerga com nitidez o "direito" dos poderosos, sobretudo
o direito à propriedade sem reservas e sem limites. Essa massa
humana vai ocupar o Planalto Central para mostrar a todos que existe,
que está de pé, que não se acovarda diante dos
percalços, e das rasteiras que os grandes lhe prepara.
Como o povo de Deus conquistou a Terra
Prometida, este povo caminhante quer conquistar além da terra
para trabalhar e produzir, a terra da consciência dos brasileiros
e das brasileiras, para que se somem à luta pela conquista do
direito de todos a uma vida digna.
Dom
Tomás Balduíno - Bispo emérito de Goiás.
Presidente da Comissão Pastoral da Terra
www.adital.com.br
maio/2005
Leia
mais...