Não
posso desejar-lhe um Feliz Natal, mas não porque não queira;
é o senhor quem torna isso impossível.
Hoje é um dia muito especial para os cristãos: celebramos
o Natal, o anúncio da Boa Nova. É momento de olharmos
para dentro, na vida pessoal, e de meditar sobre os caminhos da Humanidade.
Quando, na oração, invocamos ao Deus da Vida, não
podemos deixar de lado os acontecimentos, a dor e a tragédia
em muitas partes do mundo, tanto por fenômenos naturais, como
aqueles provocados pelo homem, nem de compreender quão longe
estamos de alcançar a Paz, e a necessidade de redobrar os esforços
para atingi-la.
O mundo se tornou muito mais inseguro e turbulento. As desigualdades
se aprofundaram, a fome e a pobreza aumentaram com a concentração
do poder em poucas mãos, e os conflitos se multiplicaram em diferentes
regiões do mundo.
Creio, Sr. Presidente, que necessita olhar sua obra, avaliar o que fez,
a política de devastação e morte gerada até
o momento em várias regiões do mundo.
Senti um sabor amargo, e muita angústia, ao ver como os grandes
meios de comunicação difundiram pelo mundo as imagens
e mensagens dos soldados norte-americanos celebrando o Natal, esse renovado
acontecimento da Vida e da Paz.
Esses são os mesmos soldados que semeiam a morte e a destruição
sobre os povos do Iraque e do Afeganistão; os que torturam e
violam os prisioneiros.
São os responsáveis pelo massacre de mais de 100 mil pessoas
no Iraque, mulheres, crianças, jovens e anciãos; são
os que destruíram e arrasaram Falluja, e pela morte de não
sabemos quantos no massacre do Afeganistão; são dados
ocultados pelos grandes meios de comunicação, que lamentavelmente
acabam sendo os grandes meios da incomunicação.
E, como se fossem a uma grande festa, artistas e funcionários
dos governos, tanto dos Estados Unidos como da Grã Bretanha,
viajam para compartir o Natal com as tropas e dar-lhes ânimo para
continuar sua demolidora tarefa de destruição e morte.
Cabe-nos perguntar: O que foram celebrar? O profundo sentido do Natal
estava ausente; esvaziaram seu conteúdo, e só ficou o
híbrido "hou, hou, hou" da sociedade consumista; ou
talvez tenham festejado quantas bombas e mortos somam a suas consciências.
A imaginação do surrealismo mágico acaba sendo
um pálido reflexo da crueldade que o senhor desatou no Iraque
e no Afeganistão.
Sr. Presidente, segundo consta em suas ordens, distribuídas às
tropas através de documento emitido no Iraque em 19 de maio de
2004 e divulgado pelo FBI, o senhor autoriza o uso de certas técnicas
de interrogatório, como a privação do sono, as
ameaças com cães treinados pelos militares e o uso de
capuzes. Evidência de sua crueldade e do desprezo que sente pelo
ser humano, e de que não vacila em utilizar qualquer meio para
alcançar seus fins, violando sistematicamente os direitos humanos.
Parece que seus métodos peculiares não terão fim
nos próximos quatro anos. Segundo o Washington Post, seu governo
pensa em construir prisões onde manter indefinidamente os acusados
de terrorismo, sem nenhum julgamento, violando a própria Constituição
dos Estados, além de todos os direitos das pessoas. O Departamento
de Defesa mantém 500 prisioneiros na Baía de Guantánamo,
em Cuba, e pensa pedir ao Congresso 25 milhões de dólares,
para construir uma prisão para albergar presos com poucas possibilidades
de comparecer ante um tribunal militar, por falta de provas.
O ataque terrorista às torres gêmeas não justifica,
sob nenhum pretexto, as atrocidades cometidas pelo senhor, um mal não
se resolve com outro mal maior, como lhe expliquei em minha carta anterior,
de 6 de janeiro de 2003.
Gostaria de lhe perguntar, Senhor Presidente: Como celebrou o Natal,
o nascimento do Deus da Vida?
Eu me pergunto a que Deus o senhor dedicará suas preces. Duvido
que seja ao Deus da Vida, da Paz e da Esperança. Creio que Deus,
ao escutar suas preces, tapa os ouvidos para não escutar tantas
mentiras e crueldades.
No dia 20 de janeiro, o senhor assumirá seu segundo mandato como
presidente desse grande país, os Estados Unidos da América
do Norte, já que os cidadãos e cidadãs que votaram
o reelegeram por mais quatro anos. Lamento por esse povo e pelo mundo.
Muitas coisas influíram para conseguir esse resultado, como a
incapacidade de seu oponente, que não conseguiu apresentar outra
alternativa válida para o povo.
Um refrão popular diz que "mais vale um mau conhecido, que
um bom por conhecer". O povo dos EE.UU. está agoniado pelos
medos, pela insegurança, pelo puritanismo de alguns setores que
dizem defender a vida. O individualismo impede-os de compreender o sentido
profundo da solidariedade.
Mas o mais trágico que se pode ver no povo dos Estados Unidos,
excetuando alguns setores com consciência crítica e própria,
é que os que votaram no senhor, Sr. Presidente, são aqueles
que por medo já renunciaram à liberdade e a seus direitos
como cidadãos. São aqueles que estão submetidos
à suspensão das consciências, a mecanismos de ação
psicológica que condicionam os comportamentos coletivos. Métodos
que foram utilizados por regimes totalitários como o nazismo,
o fascismo, as ditaduras militares impostas na América Latina,
que geraram instrumentos para manipular e submeter os povos através
do medo e do terror.
O poder é a pior das drogas, obscurece o olhar e o pensamento
e, muito pior, endurece o coração e os sentimentos. O
pensamento sem sentimento é a grande tragédia da humanidade.
Os mais poderosos impérios caíram, e os Estados Unidos
não são exceção. Deve saber que o monopólio
da força não garante a segurança.
Nenhum terrorismo, seja de quem for, justifica o terrorismo de Estado
que o senhor aplica sobre a população civil, invadindo
países como o Iraque e o Afeganistão, ou o bloqueio a
Cuba, que já tem mais de 45 anos, e a intervenção
militar no Haiti, violando todos os tratados internacionais e a soberania
dos povos, ignorando as Nações Unidas, transformadas numa
carapaça sem conteúdo.
Até quando, Sr. Presidente, seguirá sua loucura de destruição
e morte? Quantos crimes mais o senhor pretende carregar sobre sua consciência?
Não deve esquecer que quem semeia, colhe.
Segundo informes, até o momento, mais de mil soldados norte-americanos
morreram na frente de batalha no Iraque. Ignoramos quantos mais no Afeganistão.
O que diz a seus familiares, o senhor vai lhes entregar uma medalha,
uma pensão e uma bandeira bem dobrada, para lembrar-lhes que
aquele ser querido já não está?
Continuará mentindo e falando de liberdade aos que morreram em
defesa da democracia e da Pátria, para justificar seus crimes?
Ocultará deles a verdadeira razão de sua decisão
de provocar as guerras, já que estas convinham a seus interesses
de se apoderar do petróleo do Iraque e do controle do Oriente
Médio?
Senhor Presidente, há dias me lembrei de um veterano de guerra
do Vietnam que sofreu uma profunda conversão frente às
atrocidades cometidas pelas tropas norte-americanas naquele país
e que arriscou sua vida para salvar vidas, perdendo suas duas pernas.
Refiro-me a Brian Wilson.
Em plena guerra, ele acreditava estar lutando pela liberdade e pela
democracia, essa forma de "ser americano", até que
descobriu a verdade e compreendeu as atrocidades cometidas pelas forças
norte-americanas, quando viu uma aldeia vietnamita a que o enviaram
com uma patrulha para inspecionar os efeitos das "bombas racimo"
(as mesmas que estão utilizando no Afeganistão e no Iraque):
mulheres, crianças, animais, vegetação, tudo partido
em dois; nada nem ninguém ficou a salvo.
Muitas vezes recordo a Brian. Encontramo-nos durante a agressão
da CIA à Nicarágua. Acompanhei-o em um jejum nas escadarias
do Capitólio, pelo fim da agressão dos Estados Unidos
à Nicarágua e a El Salvador, junto com outros veteranos
de guerra do Vietnam.
Foi uma ação ativa de não-violência, em defesa
da vida e do direito dos povos à autodeterminação.
À noite dormíamos na Igreja Luterana, e ali Brian e os
outros companheiros veteranos de guerra contavam suas experiências
no Vietnam. Os horrores que ainda podem ver e sentir, que os marcaram
para toda a vida. São as testemunhas da tragédia humana.
Senhor Presidente, escute o clamor dos povos que dizem: BASTA À
GUERRA!!
Recorde as palavras de Abraham Lincoln, há mais de cem anos:
"Se os Estados Unidos não tiverem capacidade para gerar
relações com outros povos, serão vítima
de sua própria autodestruição". Leia o discurso
de Kennedy, que usa as palavras de Lincoln, nas Nações
Unidas, em 1960. É bom que se lembre delas.
Em 20 de janeiro o senhor assumirá por mais quatro anos o governo
dos Estados Unidos, situação que pode desembocar em fatos
imprevisíveis, se continua no rumo traçado até
o momento. Não esqueça que os povos podem mudar o curso
da história.
Só me resta dizer-lhe que outras culturas, outras religiões,
outros povos têm os mesmos direitos à vida e à dignidade.
Para o Deus da Vida, são nossos irmãos e irmãs
e, portanto, lhe exigimos: BASTA DE MASSACRES, senhor Presidente. O
mundo não pode estar à mercê de sua vontade.
A Justiça, mesmo tarde, chegará, e o senhor não
será uma exceção, já que é responsável
por crimes de lesa-humanidade.
Saúdo-o com Paz e Bem, esperando que toque sua mente e seu coração.
25 de dezembro de 2004
6 de janeiro de 2005
Adolfo
Pérez Esquivel
Prêmio Nobel da Paz
fevereiro/2005
foto: CMI
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