O “evangelho de Judas”
1.
A “descoberta”
Poucos dias antes da Semana Santa, todos os meios de comunicação
anunciaram uma notícia bombástica: foi descoberto o “evangelho
de Judas”. Muitas pessoas se apavoraram, entraram em crise de
fé, alguns até começaram a dizer que agora teremos
cinco Evangelhos na Bíblia. Na verdade, estão fazendo
muito barulho por pouca coisa.
É verdade que um “evangelho de Judas” foi escrito,
em grego, entre 150 e 180 depois de Cristo e ninguém sabe quem
é o seu autor. Mas, com toda certeza, não foi escrito
por Judas Iscariotes, o traidor de Jesus. É provável que
foi escrito por membros de uma seita dos cainitas, de origem gnóstica,
que não era aceita pela Igreja. Em 180 dC, Irineu, que era bispo
de Lião, escreveu um texto contra as heresias e condenou, entre
outros escritos, este “evangelho de Judas”. Portanto, desde
o século II se sabia da existência deste escrito que fazia
parte de tantos outros textos apócrifos.
Em torno do ano 300 dC, no Egito, foi escrita na língua copta,
uma cópia deste “evangelho de Judas”. Este é
o texto que foi encontrado em 1978. Depois passou por diversas mãos.
Em setembro de 2000 foi adquirido pela Casa de Antiquários Tchacos
da Suíça, que cedeu à Fundação Maecenas
para conservá-lo, e em janeiro deste ano, vendeu-o por cerca
de um milhão de dólares à National Geographic,
e que iniciou a sua tradução para as línguas modernas.
Portanto, somente agora, perto da Páscoa, quando se fala muito
de Judas, é que foi julgado oportuno anunciar a “descoberta”
ao público.
2. Os Apócrifos do Novo Testamento
Jesus viveu, anunciou o Reino, foi morto e, no terceiro dia, Deus o
ressuscitou, depois subiu aos céus. Mas Jesus não deixou
nada por escrito. No início, seus seguidores e seguidoras proclamavam
os ditos e feitos de Jesus. Depois de algum tempo, sobretudo depois
da morte de alguns Apóstolos, iniciou-se o processo de escrita
dos Evangelhos. O Evangelista Lucas no início do seu Evangelho
informa: “Visto que muitos já tentaram compor uma narração
dos fatos que se cumpriram entre nós...” (Lc 1,1). Portanto,
surgiram muitos textos sobre a vida de Jesus, sobre os Apóstolos
e sobre as primeiras comunidades cristãs. Nem todos foram aceitos,
pois nem todos eram completos e fiéis à mensagem anunciada
por Jesus.
Os Livros que a Igreja julgou que eram inspirados pelo Espírito
Santo passaram a fazer parte do Cânon do Novo Testamento, por
isso, foram considerados “Canônicos”, da mesma forma
como os Livros do Antigo Testamento. A lista dos livros do Cânon
do NT foi fruto de decisões dos Sínodos e Concílios
da Igreja. Basicamente eram necessários três critérios
para um livro fazer parte do cânon:
- Apostolicidade: que fosse reconhecido e de acordo com os Doze Apóstolos;
- Leitura pública e oficial pela maioria das igrejas (sobretudo
nas Sedes de Apostólicas);
- Que não tivesse nenhum erro de fé e doutrina (que não
estivesse em contradição com a Regula Fidei, transmitida
na catequese batismal).
Foram aceitos como Livros inspirados: os quatro Evangelhos (Marcos,
Mateus, Lucas e João), os Atos dos Apóstolos, as Cartas
de Paulo e Hebreus, a Carta de Tiago, a Carta de Judas, as duas Cartas
de Pedro, as três Cartas de João e o Apocalipse.
Os demais livros que ficaram de fora, foram considerados Apócrifos,
isto é, não inspirados, embora continham muitas informações
históricas importantes sobre a vida de Jesus e da Igreja .
Porém, já no início da Igreja surgiu a seita dos
gnósticos. Estes pregavam se só chegamos a Deus pelo conhecimento.
Afirmavam que o mundo é mau, o bem existia apenas na dimensão
transcendental. Misturavam misticismo com filosofia. Surgiram várias
correntes heréticas: alguns que diziam Jesus não era Deus;
outros que Jesus só assumiu sua divindade na cruz (adocionismo);
outros que Jesus era Deus, mas era homem só na aparência
(docetismo), etc. Os gnósticos muitos outros Evangelhos e livros
que nunca foram aceitos pela Igreja.
Portanto temos mais de 60 escritos que são considerados apócrifos,.
Por exemplo: os evangelhos de Pedro, de Tomé, de Filipe, de Matias,
de Barnabé, aos Hebreus, de Maria Madalena, etc. Na verdade,
não foram estas pessoas que escreveram estes livros. A maioria
foram escritos pelos gnósticos e para dar mais credito, colocaram
como autor uma figura importante da época de Jesus.
O Bispo Gelásio (falecido em 496) escreveu um texto, conhecido
como Decreto Gelasiano, onde faz a relação de pelo menos
60 livros considerados apócrifos . Este “evangelho de Judas”,
portanto, é mais um destes textos apócrifos, mas deveria
ser tão pouco conhecido que nem sequer foi mencionado na lista
do Bispo Gelásio.
3. O que diz o “evangelho de Judas”
Ainda não conhecemos todo o conteúdo do “evangelho
de Judas”. Ele inicia com as seguintes palavras: “Aqui se
narra o segredo da revelação que Jesus fez falando com
Judas Iscariotes...”
O “evangelho de Judas” conta que Judas Iscariotes era o
mais iluminado de todos os Apóstolos, isto é, era o favorito
entre os Doze. Jesus teria escolhido Judas para ser o único a
conhecer a verdadeira natureza de sua missão. Cristo teria conversado
em separado com Judas durante uma semana e pedido que ele o entregasse
aos romanos.
Os demais Apóstolos são acusados, pois estão em
conflito com Judas. Este tem uma visão onde diz: “Eu vi
a mim mesmo enquanto os Doze discípulos me apedrejavam e me perseguiam”.
O texto diz ainda que Jesus lhe disse: “serás maldito por
gerações, mas reinarás sobre eles”. Na visão
Jesus teria feito uma promessa a Judas: “Veja, eu te disse tudo.
Abra os olhos, olha a nuvem e a luz que dela emana e as estrelas que
a circundam. A estrela que indica o caminho é a tua estrela”.
O texto continua dizendo que: “Judas levantou os olhos e viu a
nuvem luminosa e nela entrou”.
Está escrito ainda que Jesus teria dito a Judas: “Tu superarás
todos eles. Porque tu farás com que venha sacrificado o homem
dentro do qual eu estou”. Assim, entregando Jesus, Judas estaria
ajudando-o a se libertar do corpo humano, e ainda ajudaria Jesus a liberar
a sua entidade espiritual e a sua essência divina. Assim, Judas
seria um personagem benéfico na história de Jesus.
No “evangelho” Jesus ri dos demais Apóstolos que
ainda acreditam no “deus menor” do AT, aquele que criou
o mundo. Jesus exorta os outros Apóstolos a olhá-lo e
a compreender quem ele é de verdade, mas estes não entendem.
No papiro que foi descoberto falta a parte final. O “evangelho
de Judas” se interrompe improvisamente assim: “Esses (aqueles
que vieram prender Jesus) aproximaram-se de Judas e lhe disseram: ‘o
que fazes aqui? És um discípulo de Jesus?’ Judas
deu a eles a resposta que queriam, recebeu deles dinheiro e o entregou”.
Não diz nada sobre a crucifixão, morte e ressurreição
de Jesus.
Portanto, segundo o “evangelho” este era o destino de Judas:
entregar Jesus para que ele fosse morto e assim seria libertado do corpo
humano. Só então Jesus poderia manifestar a divindade
que possuía dentro de si. Assim, Judas não seria um traidor,
mas somente cumpria a missão que Jesus lhe havia pedido; seria
o meio através do qual Jesus de Nazaré iria atingir o
seu objetivo.
4. O que diz a Bíblia sobre Judas?
Até agora vimos a versão de um texto escrito mais de cem
anos depois da morte de Judas, cujo autor pertencia a uma seita que
era combatida pela Igreja porque continha muitas heresias.
Na Bíblia Judas Iscariotes é citado como sendo um dos
Doze Apóstolos. É sempre o último nas listas dos
Evangelhos Sinóticos e se diz “que foi aquele que o entregou”
(Mt 10,1-4; Mc 3,14-19; Lc 6,13-16). O Evangelho de João também
diz que Judas era um dos Doze e que queria trair o Mestre (Jo 6,71).
João informa ainda que Judas era um diabolos (diabo) no sentido
de “adversário” ou “informador” (Jo 6,70;
13,2). Ele se opôs que uma mulher de Betânia ungisse Jesus,
dizendo que era melhor dar o dinheiro aos pobres, mas isso não
quer dizer que fosse caridoso, e sim que queria ficar com o dinheiro
“pois era ladrão” (Jo 12,4-6). Foi ele quem foi aos
Sumos Sacerdotes oferecendo-se para entregar Jesus em troca de 30 moedas
(Mt 26,14-15; Mc 14,10; Lc 22,3-6). Foi ele quem trouxe a tropa que
veio prender Jesus no Monte das Oliveiras (cf. Mt 26,47; Mc 14,43; Lc
22,47), traindo-o com um beijo (Lc 22,47-48). Mas João relativiza
a traição de Judas, pois Jesus se identifica e entrega
por conta própria (Jo 18,2-8).
É interessante notar que na Última Ceia Judas recebeu
de Jesus o “pão molhado” (Jo 13,26). Este gesto era
um sinal de muito amor. Jesus amou Judas, com certeza, na tentativa
de fazê-lo desistir do seu projeto mau. Mas Judas não foi
o discípulo mais amado ou o preferido de Jesus, pois em todo
o Evangelho de João encontramos várias vezes a figura
do “discípulo amado” (13,23-26.35; 18,15; 19,26-27;
20,2-10; 21,7.20.24) e que não é Judas.
A Bíblia nos conta de duas formas qual foi o final da vida de
Judas Iscariotes. Segundo o Evangelho de Mateus, Judas retirou-se e
foi enforcar-se (Mt 27,5). Mas os Atos dos Apóstolos contam que
ele comprou um terreno com o dinheiro sujo e jogou-se precipício
abaixo, arrebentando-se todo (cf. At 1,18-20). Ambos os textos querem
nos dizer qual é o destino de quem traiu Jesus e não se
arrependeu: a morte!. Porém, esta não era a única
saída. Pedro negou Jesus e nem por isso foi se enforcar. Ao contrário
chorou amargamente e foi reunir-se com a comunidade. Outro exemplo,
Tomé quando está sozinho, fora da comunidade não
acreditou, quando Jesus lhe aparece em comunidade acredita sem ver (cf.
Jo 20,24-29). Judas nunca se mostrou arrependido, não procurou
a comunidade e foi sozinho para a morte. Ele poderia ter-se arrependido
e, por maior que fosse seu pecado, seria perdoado se o seu arrependimento
fosse sincero, uma vez que Jesus ensinou a amar e perdoar os inimigos
(cf. Mt 5,44; 6,12).
Outro dado interessante é que os Atos dos Apóstolos nos
informam que Judas foi substituído (At 1,15-26). Os Onze reunidos,
sob a ação do Espírito Santo, escolheram Matias
para re-compor o grupo dos Doze. Mas, atenção: Judas não
foi substituído porque morreu, mas porque traiu! Em At 12,2 encontramos
que Tiago, outro do Grupo dos Doze, sofreu o martírio, mas não
foi substituído. No grupo dos Doze não pode permanecer
um traidor!
5. Algumas conclusões
a) O texto encontrado é um documento importante. Tem um valor
histórico muito grande. Ajudará a entender como pensavam
os gnósticos e outros grupos hereges dos primeiros séculos.
b) Notícias exageradas dão conta que finalmente “se
descobriu a verdade sobre Judas”. Ora, é apenas uma visão
de Judas e que não foi levada a sério, tanto que se perdeu
no tempo. Não é a primeira vez na história que
alguém tenta reabilitar Judas Iscariotes. Já se afirmou
que ele entregou Jesus para apressar a manifestação de
Deus. Quando crucificassem Jesus, Deus Pai iria intervir e acabar com
a dominação romana e libertar Israel, restaurando o Reino.
Outros já afirmaram que o objetivo de Judas era entregar Jesus
(o líder) e desencadear uma revolta popular contra os romanos...
c) Do ponto de vista bíblico nada muda. Este texto jamais vai
entrar na Bíblia, nunca será considerado inspirado. Haverá
sempre e somente quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João).
d) A visão da Igreja sobre Judas continuará se baseando
naquilo que diz a Bíblia, no testemunho das primeiras comunidades,
naquilo que ensinaram os Padres da Igreja e nos séculos de ensinamento
da tradição cristã.
e) Nem por isso a Igreja afirma que Judas é um demônio
ou que ele está no inferno. O julgamento cabe somente a Deus.
f) É certo que Judas nunca será um modelo para um cristão.
Ele é um traidor. Era livre e, portanto, pôde escolher
o caminho. Mesmo traindo, poderia ter voltado, pedido perdão
e se reintegrar na comunidade. Os demais Apóstolos também
erraram, tiveram dificuldade para compreender a proposta de Jesus, mas
souberam crescer na fé, fazer caminho, mudar de idéia
quando foi preciso.
g) A visão da Igreja, e da Bíblia também, é
que ninguém vem ao mundo para trair ou para a perdição.
Viemos ao mundo para realizar a nossa missão como pessoas humanas
amadas por Deus.
h) Continuamos afirmando que em Jesus de Nazaré se manifestou
a humanidade e divindade do Filho de Deus. Jesus é o Verbo Divino
que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). Ele que estava
junto de Deus e assumiu a nossa condição humana, tornando-se
obediente até a morte de cruz e por isso Deus Pai o exaltou e
retornou ao trono de Deus (cf. Fl 2,6-11). A morte de Jesus é
uma conseqüência daquilo que Jesus viveu e anunciou. Ele
enfrentou a cruz porque foi fiel ao Pai (e não necessariamente
porque este era o seu destino).
i) Os Evangelhos que foram considerados inspirados têm autores
muito bem credenciados e foram escritos levando em conta as comunidades
onde foram anunciados, portanto, muito diferente deste que foi “uma
visão” particular... Além do mais, valorizando um
traidor, nega-se a Colegialidade dos Doze, tão cara à
Igreja e ao NT!
j) É melhor e mais bonito ficarmos sempre com o Jesus dos Evangelhos
da Bíblia: Jesus humano e divino, solidário com os corpos
pobres e sofridos do seu povo. Desprezar o corpo de Jesus, é
também desprezar o corpo das pessoas, imagens e semelhança
de Deus, templos do Espírito Santo!
j) Neste artigo utilizamos a expressão “evangelho de Judas”
(entre aspas) porque Evangelho quer dizer “Boa Nova; Boa Notícia”.
Segundo a Bíblia, esta Boa Notícia vem de Deus por meio
de Jesus Cristo. A Boa Notícia de Deus é que o Pai nos
ama e isso foi mostrado por meio do anúncio do Reino e da ação
de Jesus Cristo. Portanto, este “evangelho de Judas” não
pode ser uma Boa Notícia, pois é a negação
de tudo aquilo que a Palavra de Deus e a Igreja sempre nos ensinaram!
ATENÇÃO: Na verdade foram descobertas 66 páginas.
Destas, somente 26 páginas se referem ao “evangelho de
Judas” que agora foi divulgado. Com certeza quando tiveram sido
vendidos muitos livros e surgirem alguns filmes, serão tornadas
públicas as demais páginas. Já se sabe que elas
contém um Primeiro Apocalipse de Tiago, uma Carta de Pedro a
Filipe e um texto que os historiadores estão chamando “Livro
dos Alógenos”. Portanto, ainda vamos ouvir muitas vezes
falar desta tal “descoberta”!
Frei
Ildo Perondi
Biblista, Professor da PUC (Londrina-PR) - ildo.perondi@pucpr.br
PS.
Este é um texto provisório, co
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