Encarar a verdade, tirar lições da crise e construir uma
alternativa para o Povo Brasileiro - Declaração Política
do Movimento Consulta Popular
1.
Grande perplexidade tomou conta da esquerda e da sociedade brasileira
com a revelação de uma seqüência de atos de
corrupção envolvendo partidos políticos, empresários,
parlamentares, publicitários, alguns dirigentes do PT e membros
do governo anterior, de governos estaduais e do atual governo. Nossa
primeira preocupação deve ser encarar a verdade. Há
mais de dez anos multiplicam-se, dentro da política institucional,
práticas de todos partidos inclusive alguns de esquerda, os sinais
da deterioração que agora se tornou pública. Dirigentes
partidários e sindicais acostumaram-se a manejar vultosos recursos
de origem duvidosa. As campanhas eleitorais tornaram-se cada vez mais
caras. Estabeleceram-se relações promíscuas com
empresas, empreiteiras e bancos. O uso de recursos sem os procedimentos
legais deu margem a todo tipo de manipulação de interesses
de grupos, de correntes, de pessoas e chegou até a casos de enriquecimento
pessoal de dirigentes.
2.
A crise que assistimos decorre de um método usado de forma sistemática,
organizada e planejada para todas as campanhas eleitorais. Um método
que é a pratica normal dos partidos de direita, e que infelizmente,
obteve grande êxito também dentro de setores da esquerda,
arregimentou cumplicidades e, por isso, se disseminou. A contratação
de cabos eleitorais, e o uso sistemático do dinheiro substituíram
a atividade partidária militante, e sobretudo a batalha de idéias,
pela força de máquinas eleitorais bem montadas, a serviço
apenas de interesses pessoais.
3.
A crise é resultado também de uma linha política
hegemônica dentro da esquerda que priorizou apenas a chegada ao
governo, e a conciliação de classe como proposta de administrar
os bens públicos. Substituindo a visão de acúmulo
de forças, de disputa de hegemonia política e ideológica
na sociedade e a necessidade de administrar o estado para atender prioritariamente
as necessidades e os direitos sociais. A visão da conciliação
abandona o verdadeiro sentido da política e transformou todos
os meios possíveis para justificar a chegada ao governo.
4.
A Consulta Popular, desde seu surgimento, tem criticado duramente essa
deterioração, que atinge o sentido da política
para os trabalhadores, os valores, a prática e o pensamento.
E identificamos que essa crise, encera um período histórico
de uma forma de fazer política institucional. Poderíamos
chamar o período da hegemonia do partido dos trabalhadores. Há
uma necessidade histórica da refundação da esquerda.
E o aspecto positivo da crise é colocar na ordem do dia essa
necessidade.
5. O governo entrou numa grave crise. A gravidade e
natureza da crise deu margem para que as forças da direita viessem
para ofensiva e tentassem tirar todo proveito possível, contra
o governo, contra as esquerdas e contra os direitos dos trabalhadores.
O governo Lula parece inerte a essa ofensiva. Os movimentos sociais
e forças populares ofereceram uma alternativa. Mas até
o momento o governo preferiu apenas seguir com as velhas práticas
de composição com as forças conservadoras do congresso.
Enquanto esses mesmos conservadores pedem mais concessões na
política econômica. É impossível prever as
conseqüências disso em uma sociedade que já convive
em larga escala com o desemprego, o subemprego e a barbárie,
e experimenta agora a frustração com uma alternativa de
governo tão longamente esperada.
6.
Nossa existência como nação soberana e sociedade
organizada está, cada vez mais, em perigo. Mais do que nunca,
precisamos encontrar os caminhos que levem à formação
de uma articulação de forças políticas capaz
de pôr fim à aventura neoliberal, que já se transformou
em uma insanidade.
7.
Cabe às forças de esquerda, neste momento, recuperar a
firmeza de princípios, e abrir-se ao diálogo com todas
as forças democráticas e populares dispostas a salvar
o Brasil, buscando estabelecer um programa mínimo e iniciativas
comuns. Esse programa deve contemplar a defesa intransigente da soberania
popular e nacional, a adoção de uma política econômica
voltada para a superação das desigualdades de renda e
riqueza, e a justiça, a definição de um conjunto
de medidas emergenciais contra a pobreza, a reforma das instituições
e, principalmente, a valorização do povo como sujeito
das mudanças.
8.
Devemos promover junto a todas forças e espaços um amplo
debate sobre a necessidade de projeto para o país. Um projeto
que esteja centrado no atendimento às necessidades da população
e ao cumprimento dos
direitos sociais fundamentais, como: trabalho, terra, moradia, renda
e cultura. Um projeto que incorpore mudanças radicais nas formas
de representação partidária e política,
garantindo ao povo o direito a democracia direta, e a outras formas
de participar na vida política do país, como a aprovação
do direito do exercício do Plebiscito e da revogação
de mandatos, por iniciativa popular.
9.
A Consulta Popular propõe um diálogo, para que a falência
da atual política e a crise social que vivemos, sejam também
o momento inaugural de um novo projeto e de uma nova esperança.
Para isso, é imprescindível que o povo comece a se mobilizar.
Esperamos, e estimularemos que as forças populares do Brasil
fortaleçam as atividades previstas para próximo Sete de
Setembro (Grito d@s Excluíd@s) levantando a bandeira em Defesa
da Soberania Popular e da Dignidade Nacional. Iniciativas coordenadas,
porém levadas adiante com grande autonomia, devem ocorrer em
todos os ambientes – entidades, igrejas, ruas e praças,
universidades, locais de trabalho, fazendo a denúncia do Brasil
que temos e o anúncio do Brasil que desejamos construir.
10.
Convocamos todas as organizações do povo brasileiro, bem
como personalidades da vida pública e da cultura, a se somar
nesse esforço, que pode ser um marco inicial do diálogo
de que todos necessitamos. Nós temos somente um caminho: articular
todas as forças sociais e populares que querem mudanças
antineoliberais e promover mobilizações de massa!
Coordenação
Nacional do Movimento Consulta Popular
Julho 2005
Iolanda
Toshie Ide
Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Lins;
Representante da Pastoral da Mulher Marginalizada no setor de Pastorais
Sociais da CNBB;
Coordenadora do Grupo de Pesquisa e Ação " Educação
e questões de Gênero", da UNESP de Marília
/ SP
agosto/2005
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