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Congregação Missionária Servas do Espírito Santo - Província Stella Matutina - SP/SP


Missionária Dorothy - A Morte da Floresta É o fim da nossa Vida

Ninguém morre no dia seguinte, diz o ditado, mas nem sempre. Ela fora para uma reunião mas, devido a algumas conveniências, não retornara para casa e os assassinos contratados não a encontraram. No dia seguinte, numa estrada de lama, abordada, ergueu a Bíblia, mas o pagamento pelo assassinato calou mais fundo: abateram-na com seis tiros.
Conheci Irmã Mae Dorothy no Maranhão. Cheia de vida, seu ser porejava a alegria de viver servindo às pessoas que a procuravam. O rosto afável revelava força e decisão se preciso fosse. Tive notícias de que ela se encontrava em terras públicas do Pará, às voltas com a defesa dos direitos de posseiros, indígenas, pequenos agricultores e da sustentabilidade ambiental. Temia por sua segurança, mas tinha certeza de que ela não capitularia diante de qualquer ameaça.
Há muito tempo marcada para morrer, denunciara não só as ameaças a sua pessoa mas principalmente às pessoas que coordenavam a permanência nas terras públicas ameaçadas por madeireiros e latifundiários. Pouco antes do assassinato, durante uma semana, percorrera os corredores do poder em Brasília tentando convencer sobre a urgência de medidas imediatas para conter o terror. Em vão.
Com 73 anos de idade, pacífica, sem proteção, sem armas, sem jagunços, uma voz no deserto do Congresso Nacional, do judiciário, dos executivos federal e estaduais, fora ameaçada pelo próprio executivo municipal. Sua voz não teve espaço na imprensa que acusou posseiros, indígenas e pequenos lavradores como invasores, mas se calou diante da invasão, por madeireiros e latifundiários, das mesmas terras públicas onde há décadas vivem esses habitantes empobrecidos esquecidos por todos, menos por Irmã Dorothy.
Estadunidense da Congregação de Notre Dame, seu assassinato se adiciona aos de 1379 lavradores (772 no Pará) já ocorridos desde 1985 até 2004. Os números são subestimados por não incluir os mortos cujos corpos não foram escondidos. É de se indagar pelos motivos pelos quais apenas 75 casos foram julgados com condenação de 5 mandantes e 64 executores. É de se perguntar pelos demais, pelo silêncio de Boris Casoy que não aprece nas telas de TV para dizer que o agroterrorismo do Brasil “é uma vergonha”. Mais de 40 pessoas, no Pará, estão ameaçadas de morte.
A reiterada ceifa de vidas pelo poder privado parece não sensibilizar os que ocupam cargos de decisão. O prefeito de Anapu, já ameaçara afirmando que, se ela não deixasse os madeireiros em paz, encontraria a morte. Dois dias após a morte de Irmã Dorothy, outro lavrador do Pará e um ambientalista do Rio de Janeiro foram assassinados.
A petulância dos assassinos chegou ao ponto de Irmã Dorothy ter sido abatida quando a Ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, se encontrava no Pará. Foi um recado dos que contam com a garantia da impunidade. No próximo dia 12, terça feira, completa dois meses. O silêncio já caiu sobre a grande imprensa. Não me esqueci nem me esquecerei. Dói muito lembrar seu rosto afável com os dizeres "A MORTE DA FLORESTA É O FIM DA NOSSA VIDA" em sua blusa.

Iolanda Toshie Ide
Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Lins;
Representante da Pastoral da Mulher Marginalizada no setor de Pastorais Sociais da CNBB;
Coordenadora do Grupo de Pesquisa e Ação " Educação e questões de Gênero", da UNESP de Marília / SP

novembro/2004

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