Poderia ter sido...
Sou
partidária do entendimento de que é preciso exercer a
solidariedade entre vivos. As demonstrações de apreço,
de carinho, as homenagens, quando póstumas, perdem muito da força
porque não chegam à própria pessoa. Quando muito,
poderá servir para nos edificarmos.
Assim mesmo, costumo visitar o túmulo de meus familiares e, desde
agosto, meus sentimentos se dirigem a sete pessoas cujas mortes ainda
não foram esclarecidas. Os sete assassinados, nas ruas de São
Paulo, com técnica requintada e competente.
Poderia ter sido uma amiga que esporadicamente pernoitas nas ruas em
solidariedade às pessoas desrespeitadas por não terem
onde morar.
Poderia ter sido Alfredo Kunz, padre suíço que participou
da Pastoral da Mulher Marginalizada, autor de A burrinha de Balaão,
A ovelha de Urias, dentre outros livros, e que, nos últimos anos,
pernoitou nas ruas de São Paulo.
Poderia ter sido minha aluna que inconformada com a sociedade perdulária
e egoísta, inaceita pela família, vive nas ruas.
Poderia ter sido ... Policarpo Quaresma inconformado com a burocracia
e o que se fez com os povos indígenas e a população
negra do Brasil.
Poderia ser, como foi, com catorze pessoas comuns - sete delas vieram
a falecer – com uma pancada certeira, altamente técnica,
sem margem de erro.
Um dia foram crianças e sonharam com Papai Noel trazendo presentes
que nunca chegaram. Um dia acharam que poderiam ter um diploma, tirar
a mãe da miséria proporcionando uma velhice digna com
o merecido descanso.
Rezaram para a cura de um familiar, acenderam velas para o santo ou
santa de sua devoção, repartiram o parco almoço
com quem nada tinha.
Arrastaram o corpo mutilado pelo trabalho desumano, pelas jornadas excessivas,
pela falta de respeito a quem trabalha.
Choraram às escondidas pela vergonha do salário minguado
que não permitia comprar o material escolar ou pagar um aluguel.
Depois, enfrentaram infinitas filas por um emprego que nunca conquistaram,
foram presos e espancados por não terem “carteira assinada”.
Enfim, o fim foi a rua com o fim aplaudido pelos que querem o fim de
quem incomoda, enfeia o visual da megalópole. Também constrange,
constrange eticamente a quem ainda tem um resquício de ética.
Antecipei a visita – hakamairi - ao túmulo de meu pai cujo
30º aniversário de morte será no fim do mês
quando estarei no Fórum Social Mundial. Antecipei principalmente
porque é o aniversário – quinto mês –
dos violentos assassinatos de quem dormia nas ruas. Em dezembro, foi
lá, na Casa de Oração deles, que fui à missa,
no quarto mês de seus assassinatos e vigésimo ano da morte
de Nenuca, fundadora da Pastoral do Povo da Rua. Foi lá também
que, quatro dias depois, Lula celebrou o Natal.
Agora, à tardinha, sentada no túmulo de minha família
reflito sobre a certeza de que ninguém escolhe a família
onde nasce, ninguém merece esta ou aquela família. As
flores da murta exalam seu perfume, no cipreste canta a curruíra.
Enquanto arrumo as flores e acendo o incenso, a meus pais digo baixinho:
a pancada técnica e certeira poderia ter sido em mim.
Iolanda
Toshie Ide
Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Lins;
Representante da Pastoral da Mulher Marginalizada no setor de Pastorais
Sociais da CNBB;
Coordenadora do Grupo de Pesquisa e Ação " Educação
e questões de Gênero", da UNESP de Marília
/ SP
fevereiro/2005
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