Reconhecimento do trabalho Invisível
Segundo
a Organização das Nações Unidas (ONU) as
mulheres representam 70% da população que vive em estado
de miséria. É a "feminização da pobreza".
Da PEA (população economicamente ativa) do mundo, 34%
é representada por mulheres, que respondem por 72% do volume
de trabalho global. No entanto, os salários são 40% menores
do que os dos homens por trabalho semelhante. Se levarmos em consideração
que um terço das famílias, no mundo, são chefiadas
por mulheres, pode-se logo perceber quem sofre mais agudamente a pobreza.
O histórico pouco acesso das
mulheres à escolarização explica a assimétrica
proporção: dois terços da população
não-analfabetizada do mundo são mulheres. A discriminação
fez com que somente em 1932 as mulheres conquistassem o direito ao voto.
Não podendo ser votadas, foram pouco contempladas nas políticas
públicas.
Ignorado foi o papel do trabalho doméstico
na reprodução humana. Na maioria das sociedades, o trabalho
doméstico diário de cozinhar, lavar, limpar, atender as
crianças, enfermo/as e idosos/as recai sobre as mulheres, as
chamadas donas de casa. Grande parcela delas também se responsabiliza
pela produção dos alimentos. No Brasil, não percebendo
qualquer remuneração, não poderiam contribuir com
o INSS nem mesmo como autônoma.
Trabalho pouco prestigiado, sem férias
anuais, sem descanso semanal, sem remuneração, foi alvo
privilegiado da atenção da Deputada Luci Choinacki, autora
do projeto de emenda constitucional nº 385 em tramitação
desde 2001 que trata do reconhecimento do trabalho doméstico
e da aposentadoria de quem o exerce: a Dona de Casa.
Muitas pessoas se empenharam em várias
campanhas pela aprovação. Atuamos nos calçadões,
nas feiras livres, nas escolas, nos bairros. Usamos a tribuna livre
da Câmara Municipal, as rádios, os jornais. Entramos em
contato com deputados, com a Comissão de Constituição
e Justiça e redação. Após muitas gestões,
finalmente chegamos à vitória: é lei a aposentadoria
da Dona de Casa. Trata-se do reconhecimento do invisível e desprestigiado
(mas importante) trabalho doméstico.
Grande parcela das contribuintes autônomas
(sobre um salário mínimo) são faxineiras, lavadeiras,
passadeiras, babás. O percentual de 20% não estava a seu
alcance. Propomos a redução para 8%. Não conseguimos,
mas acaba de ser aprovada a redução para 11%. Embora insuficiente,
diminui o impacto sobre o pequeno ganho dessas mulheres. De agora em
diante, pois, passam a contribuir mensalmente com 33 reais em vez de
60 reais.
Resta lembrar que essas vitórias
foram fruto de árduas campanhas desempenhadas por mulheres empobrecidas,
com minúsculos recursos financeiros. É preciso esperar
contra todos os ventos contrários.
Iolanda
Toshie Ide
Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Lins;
Representante da Pastoral da Mulher Marginalizada no setor de Pastorais
Sociais da CNBB;
Coordenadora do Grupo de Pesquisa e Ação " Educação
e questões de Gênero", da UNESP de Marília
/ SP
julho/2005
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