Maré que tudo Traga
O
recente gigantesco maremoto que causou mais de 150 mil mortes, convida
a aprendizagens várias.
Seres urbanizados, não mais damos importância aos sinais
da natureza. Mesmo os habitantes de beira mar não prestaram atenção
às ondas que recuavam em demasia (sinal de provável maremoto)
e poderiam retornar como gigantes atemorizadores. É preciso lembrar,
porém, que era muito cedo, poucas pessoas estavam nas praias.
Não se soube ler o aviso na inusitada agitação
dos animais, as fugas desesperadas para locais de maior altitude, as
correrias acompanhadas de latidos, uivos, enfim, gritos de alerta.
Não culpemos a natureza nem a incompetência em perceber
seus sinais. Há uma lição a aprender sobre a leseira
causada pela burocracia, tão bem descrita por José Saramago
(Todos os Nomes) e Lima Barreto (Triste fim de Policarpo Quaresma).
Havia um intervalo de duas horas e meia entre o sinal do abalo sísmico
e o maremoto propriamente dito, tempo suficiente para evitar a morte
de muitas pessoas. Não há avanço tecnológico
que supere a leseira da burocracia. Não foi por falta de conhecimentos
suficientes fornecidos por sofisticados aparelhos, mas pela inércia
e – por que não dizer – pela irresponsabilidade na
comunicação.
Reflexões amargas à parte, constante apenas no dicionário
brasileiro de Houais – tsunami – é uma incorporação
da terminologia do Japão, país atormentado por constantes
tufões e maremotos. Somente agora percebi o motivo da freqüência
do fenômeno na iconografia japonesa, não muito valorizada
no próprio país.
Yakumo Koizumi (nome japonês de Lafcadio Hearn) resgatou as pinturas
e as divulgou no ocidente. De origem greco-irlandesa, não desfrutou
da convivência nem do pai nem da mãe. Sustentado temporariamente
por uma tia-avó, conheceu a miséria pernoitando na rua.
Personalidade rara, chegou a ser repórter nos Estados Unidos
mas, foi despedido por ousar desafiar o preconceito racial vivendo com
uma mulher negra. Depois de viagens a vários países, fixou-se
no Japão em 1890, casou-se com uma jovem japonesa e assumindo
a nacionalidade japonesa chamando-se Yakumo Koizumi. Viveu no Japão
até a morte em setembro de 1904.
Desde o período Nara (646-794) havia o costume de se fazer ilustrações
em papel de arroz, entre as quais referentes a maremotos. Com esse tema,
a mais famosa porém é de Katsushika Hokusai (1760-1849):
Maré que tudo traga. Ao fundo o Monte Fuji em tamanho diminuto
e, no primeiro plano, uma gigantesca onda que parece tudo arrebatar.
Aficionado pela arte japonesa, Yakumo Koizumi soube valorizar pinturas
pouco reconhecidas o próprio Japão, divulgando-as no ocidente.
Assim foi possível conhecer e apreciar a delicada e, ao mesmo
tempo arrebatadora pintura de Hokusai. Koizumi fez conhecer também
antigas histórias fantásticas do Japão cujas traduções
em português foram editadas em 1996 sob o título Histórias
Misteriosas que recebemos de presente da Professora Yumiko Inoue a quem
agradecemos.
Iolanda
Toshie Ide
Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Lins;
Representante da Pastoral da Mulher Marginalizada no setor de Pastorais
Sociais da CNBB;
Coordenadora do Grupo de Pesquisa e Ação " Educação
e questões de Gênero", da UNESP de Marília
/ SP
fevereiro/2005
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