A vítima tornada Ré
Campanha de Combate à violência contra as mulheres
Por
ocasião do assassinato da jornalista Sandra Gomide, geralmente
referia-se ao assassino como “o jornalista”, o mesmo não
ocorrendo com a vítima que também o era. Nas entrelinhas
se percebia uma tentativa de desqualificação da vítima,
como se não bastasse ter perdido a vida. Surtiu o efeito contrário:
provocou veementes reações das várias organizações
de mulheres e de defesa dos direitos humanos. O contraponto fez calar
as maledicências.
Quando o estudante de veterinária assassinou cruelmente a namorada
com injeção de curare, houve quem perguntasse sobre “o
que a vítima estava fazendo lá”, lançando
suspeitas sobre a sua moralidade. Não se perguntou sobre os motivos
pelos quais um estudante (portanto, não diplomado) possuía
uma clínica veterinária, exercia a profissão, possuía
curare sem a devida autorização. A tentativa de desqualificar
a vítima foi o expediente usado para justificar o hediondo assassinato.
As várias modalidades de violência de gênero têm
sua permanência ancorada na garantia da impunidade. O próprio
aparato jurídico conserva figuras como a da “mulher honesta”
para justificar a impunidade do agressor enquanto a vítima é
transformada em ré.
No dia 11 de setembro de 1998, jovem de 22 anos, Selma Heloísa
Artigas da Silva foi amarrada a uma camioneta importada e arrastada
durante uma hora, por dois quilômetros e meio. Parte do cérebro
foi encontrado a 1.600 metros de distância do corpo. Um dos braços
foi arrancado pelos impactos do arrasto. O legista ficou chocado: “em
20 anos de profissão, nunca vi um corpo tão desfigurado
quanto esse”.
Ao solicitar subscrição para que o crime não permanecesse
impune, algumas pessoas abordadas hesitavam em assinar perguntando:
“mas ela não era garota de programa?”, como se isso
justificasse o crime. O duplo padrão moral é ainda o estofo
sobre o qual se assentam os comportamentos. Pouco se falou que o assassino,
Pablo Russel, já havia assassinado um vigia e permanecera impune.
Quase não houve referência ao fato de que a vítima
se encontrava grávida.
Recentemente o Estado brasileiro foi condenado pela Comissão
de Direitos Humanos da OEA (dirigida pelo Jurista Hélio Bicudo)
por negligência, omissão e tolerância em relação
à violência contra a mulher, por não ter aplicado
a pena contra seu marido agressor.
Em reação às investidas contra as vítimas
– como se fosse pouco ter perdido a vida – as organizações
de mulheres e de defesa dos direitos humanos reagiram: o expediente
de suscitar dúvidas sobre a idoneidade moral da vítima
para justificar o crime, já não tem espaço numa
sociedade minimamente democrática.
Iolanda
Toshie Ide
Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Lins;
Representante da Pastoral da Mulher Marginalizada no setor de Pastorais
Sociais da CNBB;
Coordenadora do Grupo de Pesquisa e Ação " Educação
e questões de Gênero", da UNESP de Marília
/ SP
novembro/2004
Leia
mais...