Quem Sabe
Expressões
de susto são cada vez mais freqüentes: o tempo corre, voa.
Tempos há que precisam ser eternizados.
Pela manhã, a magia da aurora empurra a gastar o tempo. Em seu
vôo despretencioso um pardal brinca de galho em galho. Por que?
Para que?
Porque sim, dizem as crianças. Para que vendo, se possa gastar
o tempo se encantando. Recém saído do ninho, vôos
curtos, pousa no chão, põe-se a espiar. Torce o pescoço
graciosamente, olhos carregados de infância, busca sementes para
colher. Na falta delas, se alimenta dos minúsculos botões
de pequenas flores silvestres.
Quem não se decide a perder tempo não corre o risco de
se surpreender com tão encantadora cena. Desprestigiado pássaro,
brinda-nos com elegantes vôos, junta-se a outros para uma infantil
sinfonia de piados varrendo os fantasmas da vida urbana.
Uma leve aragem ergue sua macia penugem exibindo tons ainda mais suaves.
Ora para um lado, ora para outro, continua inclinando graciosamente
a pequenina cabeça. De repente, frusta-nos alçando vôo
para o invisível. Tem-se o desejo de eternizar o encantamento
numa fita de video.
Não importa se alguém o contemple, cada manhã está
de volta, cada tarde de bico aberto pedindo água, à tardinha
com seus últimos vôos buscando descanso. E cada vez é
um momento único pleno de gratuidade, insubstituível,
mas efêmero. Amanhã poderá não retornar.
Nessa manhã, pedi-lhe que visitasse a Casa Branca e encantasse
seu morador tão carente de graça, de amizade, de encantamento.
Acho que ele nunca viu um pardal. Se ele visse, quem sabe ...
Iolanda
Toshie Ide
Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Lins;
Representante da Pastoral da Mulher Marginalizada no setor de Pastorais
Sociais da CNBB;
Coordenadora do Grupo de Pesquisa e Ação " Educação
e questões de Gênero", da UNESP de Marília
/ SP
fevereiro/2005
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