Metade do Céu
Por
ocasião da IV Conferência Mundial de Mulheres em Beijing
(1995), assim se referiram às mulheres as autoridades chinesas.
Essa metade esquecida e invibilizada pelos 47 projetos do governo estadual
se levantou representada pelas delegadas que emergiram das conferências
municipais e regionais. Nesta II Conferência Estadual de Políticas
Públicas para Mulheres, enfatizou-se “a urgência
da criação e implementação da Secretaria
Estadual de Políticas Públicas para Mulheres, com orçamento
próprio, com participação dos espaços de
poder e de decisão do governo”.
Dos 217 Programas e Ações do Plano Plurianual (PPA, 2004
a 2007), não se fez nenhuma referência à população
feminina do Estado ou às relações de gênero.
Após 12 anos da IV Conferência Mundial, esta é a
resposta que o Estado de S. Paulo deu à Plataforma de Beijing,
aprovada pelas mulheres de 189 países.
Há três anos, na I Conferência Nacional de Mulheres,
elaboramos e a aprovamos o Plano Nacional de Políticas pra Mulheres
que o governo paulista não assinou. Com a realização
da II Conferência Estadual, esperamos que os esforços das
mulheres presentes nos dias 11 a 13 de julho p.p. em São Paulo,
sensibilize o executivo paulista para que e implante e implemente as
políticas públicas por nós propostas.
Segundo a Fundação Seade (sistema Estadual de Análise
de Dados), as mulheres são a maioria entre os desempregados da
Região Metropolitana de São Paulo, passando de 54% em
2005 para 54,9% em 2006: a pior taxa desde 1985. Na população
com experiência anterior de trabalho, o tempo médio de
desemprego é de 22 meses para as mulheres e 13 meses para os
homens.
Para que as mulheres possam ser autônomas, é necessário
que esse quadro seja superado. Desemprego significa penúria principalmente
para mulheres de famílias monoparentais com filhos pequenos que,
ma Região Metropolitana de São Paulo, são 27%.
Em 2006, o rendimento anual médio da PEA (População
Economicamente Ativa) foi de 869 reais para as mulheres e 1.291 para
os homens.
Se considerarmos que a maior parte dos rendimentos das mulheres são
dirigidos à família, mais especificamente a filhos e filhas,
é de se entender o quanto essa assimetria salarial produz impactos
negativos na sociedade como um todo. Dado ao alto percentual de famílias
monoparentais de chefia feminina, as creches e pré-escolas são
imprescindíveis, daí porque nós, mulheres, nos
mobilizamos com garra para que fossem incluídas no Fundeb, chegando
a fazer uma grande manifestação com carrinhos de bebê
diante do Palácio do Planalto.
Nessa II Conferência Estadual de Mulheres, a necessidade de creches
voltou ao debate resultando numa reivindicação aprovada
por unanimidade.
O desemprego, os baixos salários e o encolhimento das políticas
públicas sociais se, na população como um todo
têm um impacto negativo, para as mulheres é uma tragédia
porque são elas geralmente que preenchem as lacunas provocadas
pela ausência de políticas públicas sociais: o cuidado
das crianças, de idosos e idosas, de enfermos e enfermas, de
pessoas com deficiência. Enquanto a maioria da população
ou é atirada ao desemprego, ou tem seus salários encolhidos,
enquanto os recursos para saúde, escolas e cultura vão
minguando, os 130 mil milionários brasileiros abocanham mais
da metade do PIB nacional. Enquanto 17 milhões têm 80%
da renda nacional, 155 milhões de brasileiros/as detém
apenas 20%. Esse modelo político-econômico se é
perverso, o é muito mais para as mulheres. É esse sistema
como um todo que nós, mulheres, condenamos. Não há
democracia de verdade se a metade do céu não pode ter
uma vida digna.
Iolanda
Toshie Ide
agosto/2007
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