Onda
de Solidariedade
Aos
15 anos de idade, o jovem nascido em Bocaiúva (MG) recebe um
diagnóstico que, na época (1951), era como uma sentença
à segregação: tuberculose. Até os 18 anos
de idade, viveu isolado, confinado a um quarto no fundo da casa a espera
da morte. Hemofílico, sobreviveu a uma hemorragia gástrica.
Inquieto, estudou economia, militou na Ação Católica
e na Ação Popular, foi obrigado a entrar para a clandestinidade
com a quebra da democracia iniciada em 1964. Nesse período teve
um filho do qual viveu separado, exilado no Canadá até
1979. De volta ao Brasil, tem um novo casamento e o filho Henrique.
Quando sente que pode sobreviver à hemofilia, em 1986, descobre
ter adquirido o vírus do HIV numa das inúmeras transfusões
a que fora obrigado a se submeter.
Muito sintonizado com o avanço da tecnologia da informação,
na década de 90, fundou a Alternex, primeiro provedor de rede
mundial de computadores voltado para a sociedade civil.
Fundador do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e
Econômicas) que produz a revista Democracia viva, apesar da relevância,
não foi por ele que se tornou mais conhecido.
A face de 32 milhões de famintos no Brasil saltou à vista
no Mapa da Fome de um país que se orgulhava de ser um dos maiores
produtores de alimentos. Logo após tomar posse como presidente,
Collor de Mello dissolveu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar
(Consea). Durante o governo de Itamar Franco, o Consea presidido por
Dom Mauro Morelli, exigia uma solução. É amargo
e maldito o pão que se come sozinho, dizia Dom Mauro a quem Betinho
chamava meu bispo.
A resposta foi a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria
e pela Vida que tornou Herbert de Souza uma das mais conhecidas personalidades
do país.
A figura raquítica de Betinho percorreu o Brasil provocando a
adesão de muitos e de quem nem se esperava. Meu diretor espiritual,
chamava-o Dom Mauro Morelli. Ao lançar o primeiro Natal sem Fome,
milhares de pessoas se mobilizaram na organização de pequenos
grupos despertando uma onda de solidariedade até então
em muitos adormecida.
Houve quem o acusasse: assistencialismo, paternalismo. Poucos atentaram
para a proposta da Ação da Cidadania que previa uma segunda
etapa que consistia na geração de empregos. Era a parte
mais difícil. As lições dos anos 80, chamados década
perdida, não foram aprendidas: a nova “revolução
industrial”, ancorada por um perverso sistema político-econômico,
aprofundou a fratura social. O lucro a qualquer preço foi elevado
ao altar dos deuses.
Há dez anos, no dia 9 de agosto, Betinho sucumbiu ao HIV não
sem antes desencadear uma grande campanha pelos direitos dos pacientes
de HIV/AIDS. Que diria ele hoje diante do risco de a ânsia por
exportar agrocombustíveis encarecer os alimentos podendo até
faltar na mesa de muitos brasileiros? Os privilegiados de sempre não
se cansaram de acumular vertiginosamente mais riqueza às custas
do empobrecimento da maioria da população. Estão
cansados de tentar impedir a mobilização popular por alguns
poucos direitos fundamentais, inclusive a soberania alimentar.
Iolanda
Toshie Ide
agosto/2007