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Congregação Missionária Servas do Espírito Santo - Província Stella Matutina - SP/SP


VIOLÊNCIA AUTORIZADA

Recentemente um crime invisível chamou a atenção do Brasil. Nós do Serviço à Mulher Marginalizada sempre denunciamos crimes para os quais pouca divulgação foi oferecida: os cometidos por homens contra mulheres prostituídas. Nossa sociedade patriarcal foi insensível às centenas e milhares de mulheres agredidas e assassinadas. Quando a vítima está ou esteve envolvida na prostituição até justifica.

Ao ser agredida por cinco rapazes, Sirlei poderia ter morrido não fosse a aproximação de outras pessoas. Seus agressores permaneceriam impunes se um taxista não tivesse anotado a chapa do carro e denunciado. Mulher simples, à espera de transporte num ponto de ônibus, Sirlei, trabalhadora doméstica, foi violentamente agredida, teve seu dinheiro furtado. Seus agressores, afirmaram terem-na confundido com alguma prostituta. Ora, se fosse prostituta estariam autorizados a barbarizar?

A cínica desculpa levanta a suspeita de que costumam agredir mulheres que pareçam ser prostitutas; o delegado instou as prováveis agredidas a comparecerem para denúncia: confirmou-se que os rapazes formam uma quadrilha que sai pelas ruas do Rio de Janeiro furtando e espancando mulheres pobres.
Enquanto Sirlei tem o rosto inflamado, dolorido, o braço engessado e, o pior, o medo e o trauma a dominando seu ser de mulher pobre e trabalhadora doméstica, a desculpa de um dos pais que os chamam “crianças” que estariam sendo injustiçadas perdendo aulas na faculdade, revela bem a educação que deu a seu filho. A ele não importa a dor de Sirlei, preocupa-se apenas em buscar todos os meios de conseguir que seu filho se safe das conseqüências por seus atos. Nenhuma preocupação em reparar Sirlei, em custear um atendimento multiprofissional para que se recupere do trauma, uma indenização por danos morais, nem se quer um pedido de desculpas partiu desses genitores.

No século XXI, quando se pensa que é o século das mulheres, em que a discriminação de gênero já estaria superada, assistimos a essa barbárie consentida. A dor de Sirlei é a dor de milhões de mulheres empobrecidas que trabalham a troco de baixos salários e que, para conseguir uma consulta médica, precisa se postar de madrugada a espera de um ônibus. É a dor de além de tudo, ainda ser roubada e agredida até a morte se transeuntes não se aproximassem no momento da agressão.
Os pais dos agressores têm o comportamento dos senhores de escravos tratando-os não como pessoas de direitos, mas como coisas, objetos, e quando são mulheres ou meninas, são ainda mais espezinhadas e feridas no que lhes é mais caro: a honra. As desculpas desses pais autorizam a violência contra nós, mulheres.

Prostitutas ou não, nós, mulheres temos direito a uma vida sem violência. E esse é um dos temas da II Conferência Estadual de Políticas para Mulheres que se realiza de 11 a 13 próximos na Anhembi com a presença de delegadas de Lins. Afinal, uma vida sem violência é direito nosso.

Iolanda Toshie Ide
julho/2007

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