Poucos dias atrás, eu estava
num encontro com 160 pessoas, predominantemente jovens. Eram os Observadores
dos Direitos Humanos, projeto de pareceria entre Governo Federal e entidades
da sociedade civil.
Durante aproximadamente sete meses estas pessoas, divididas em sete
grupos locais de trabalho, sediadas no Pará, Pernambuco, Rio
de Janeiro, Bahia, Vitória e São Paulo fizeram um grande
esforço para observar e trocar informações qualitativas
sobre a situação dos Direitos Humanos em 27 comunidades.
Em Dezembro selaram seu empenho com um encontro de quatro dias e o lançamento
oficial do 3° Relatório de Cidadania - Os Jovens e os Direitos
Humanos.
Foi aí que encontrei o Alexandre de Salvador que me contou sua
história de vida: O fio que segura a vida é a imagem da
mãe. Mãe solteira, levava comida que sobrava da casa da
patroa, escondida dentro do sutiã. À noite, Alexandre
via a mãe chegar, abrir o peito, e cozinhar uma sopa para os
quatro filhos.
Com satisfação acolheu a notícia de poder ir para
a escola, imaginando ser o lugar onde a refeição diária
estaria segura. Não havendo lanche todos os dias, pulava o muro
para lavar carros e ganhar umas gorjetas. Aos nove anos, levantava às
4h para lavar a padaria, em troca conseguindo um saco de pão
amanhecido.
Com 12 anos começou a lavar as escadarias dos prédios.
Dizia do esforço físico, da dor no corpo no dia seguinte
e da humilhação pelos moradores, principalmente os mais
brancos.
Finalmente, aos 14 anos conseguiu o "brinquedo" que lhe dava
autoridade e respeito. Era só botar o revolver 38 na cintura
e ele passava a ser alguém. A alegria naquele tempo teria sido
matar um policial, dos quais tantas vezes apanhava.
Não demorou ter acesso às drogas. Conta as histórias
de amigos, seus brothers, batendo fortemente o punho no peito, cada
vez que fala sobre a irmandade dos - brothers.
Pergunto por que hoje, ele é diferente. Por que a morte não
fora seu destino, como fora para seus 17 amigos, cujos nomes apareceram
ao longo da nossa conversa.
"Porque um dia, aos 14 anos, quando estava me drogando, recebi
uma luz divina: 'esta vida não é para você!'. Arrepiei
todinho, mas era uma luz divina que sempre conseguiu me proteger. Um
dia estávamos juntos. Iríamos matar alguém, estava
tudo pronto. A caminho, senti esta luz que me dizia que não era
para fazer aquilo. Consegui me frear, dar um jeito e sair do grupo.
Nunca matei ninguém, por mais que tivesse visto vários
dos meus brothers morrerem. E sempre lembro de minha mãe, que
dava comida para quem tinha fome, embora ela também tivesse.
Então é isso....."
Despedindo-me no final da tarde, da companhia dos brothers, escutei
os jovens comentando em suas gírias: "Esta senhora é
massa!" E um outro respondendo "É, é muita massa!"
Sob forte tempestade tropical, fui embora. Implorei a chuva para, neste
advento, trazer o Justo. Dei-me conta de que, aos quarenta, para a juventude,
virei Senhora. E que esqueci de desejar a estes meninos, que eles possam
ser luz que brilhe na escuridão.
dezembro/2002