PODE
SER DIFERENTE é composto de 6 módulos e mais um artigo.
O módulo 2, que foi escrito pela Irmã Petronella Maria
Boonen - Nelly, SSpS, trata da VIOLÊNCIA NA (DA) CIDADE.
O texto convida o leitor ou leitora a se deslocar para a periferia de
São Paulo, apresentando-a a partir de dentro. Usando uma linguagem
direta, são desenhadas impressões mais gerais sobre a
cidade para, a seguir, fechar o foco sobre a periferia e sua noção
de crime e de criminalidade. Por fim, retrata um movimento da sociedade
civil organizada, que contribui para a superação desse
quadro violento.
O caderno pode ser retirado gratuitamente no Instituto São Paulo
Contra a Violência, que fica na Avenida Paulista, 119 - 5º
andar - São Paulo capital - telefone 11-3179.3704 - email: correio@spcv.org.br
As pessoas mais próximas podem consultar o caderno na biblioteca
do Jupic - Convento Santíssima Trindade e no Centro de Direitos
Humanos e Educação Popular de Campo Limpo - CDHEP.
Violência na (da) cidade de São Paulo
Pode
ser Diferente é um caderno sobre violência e discriminação
que propicia uma visão abrangente e fundamenta propostas mais
conseqüentes, enfrentando a violência representada tanto
pela falta de formação educacional quanto pela discriminação
social, que transformam em vítima grande parte da população
brasileira.
O tema é abordado de forma construtiva, afirmando uma cidadania
capaz de projetos que interfiram no destino de comunidades e indivíduos
marcados por atos violentos. Trata-se, portanto, de fortalecer uma cultura
voltada para a paz.
Leia
um dos trechos encontrado no caderno escrito pela Ir. Nelly Boonen,
SSpS
"Praticamente não se costuma considerar esta face da cidade
quando se fala de sua violência. Mas é importante pensar
a violência vivida em São Paulo sob esta óptica,
pois talvez a sua realidade seja aquela que diversas outras cidades
do Brasil podem vir a sofrer se não interferirmos no processo
de agravamento de alguns males, cuja explicação, embora
não se esgote neles, esta intimamente ligada aos indicadores
sociais".
A partir da década de 80, finalizada a ditadura militar, a violência
não parou de crescer na cidade de São Paulo. Na região
sul, principalmente três setores sentem-se convocados a reagir
de alguma forma. As comunidades eclesiais de base (CEB's), os Movimentos
Sociais e o Centro de Direitos Humanos e Educação Popular
de Campo Limpo (CDHEP).
No
início da década de 90, em parceria com a Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (PUC), o CDHEP realizou
uma pesquisa sobre os assassinatos na Zona Sul. Naquele período,
foram promovidos vários seminários sobre violência
e acesso à justiça, embora a participação
dos moradores ainda fosse tímida. Falar da violência, refletir
sobre suas causas e tentar encontrar soluções eram temas
de pouco interesse, e causadores de forte mal-estar. Todavia, aos poucos,
o movimento foi ganhando visibilidade e consistência.
Em
2 de novembro de 1996, os três setores acima citados, organizaram
conjuntamente a 1ª Caminhada pela Vida e pela Paz. O intuito era
ampliar o sentido da manifestação religiosa - popular,
própria daquele dia, chamar atenção e denunciar
o descaso dos órgãos públicos em relação
à região, quando considerados os indicadores sociais.
A caminhada saía de três pontos centrais e culminava com
uma celebração no cemitério municipal do Jardim
São Luiz, local onde, anualmente, são enterrados centenas
de jovens, vítimas da violência na região sul.
Após
a primeira caminhada, as entidades organizadoras concluíram que
era necessária e possível uma organização
permanente. Foi se constituindo o Fórum em Defesa da Vida contra
a Violência, aberto a todos que quisessem participar da superação
da violência: entidades, igrejas, escolas e pessoas físicas.
A
caminhada foi um sucesso, e desde então se repete a cada ano.
É importante por dar visibilidade ao grupo que leva adiante a
discussão sobre a violência e mostra quanto a questão
é mobilizadora. Aos participantes, muitos deles vítimas
de violência, de alguma forma, a caminhada propicia energia solidária,
no sentido de caminharem juntos. Revela-lhes que os assassinatos não
são fatalidades privadas, mas são questões públicas,
que exigem respostas de políticas públicas. Também
é um ato importante em termos de intervenção urbana:
milhares de pessoas de uma região caminham, cantam e gritam,
demonstrando a vontade de inverter este quadro e chamar o poder público
à responsabilidade.
Nesta
mesma região, nos últimos três anos, é realizada
também a Caminhada pela Paz, em 1° de novembro. As entidades
que trabalham com crianças e adolescentes, creches, centros de
juventude e escolas, se juntam para uma sensibilização
que visa a educação para a vida. É emblemático
o fato de se dirigirem rumo ao parque público da região,
último recinto resistente à invasão do concreto.
Com bandeirinhas, cantos, banda escolar e apresentações
artísticas, tentam cultivar o valor de que a vida tem que ser
defendida.
O
Fórum é uma rede de organizações que se
unem de forma espontânea, por afinidade com as prioridades que
aos poucos foram sendo estabelecidas: Segurança Pública,
luta pelo acesso à Justiça, educação para
a cidadania, ampliação da assistência social e cultura,
esporte e lazer.
Foram
organizados vários encontros com representantes de diversos poderes
públicos. A questão da Segurança Pública
sempre foi contemplada com atenção, aspirando a uma maior
aproximação entre polícia e população
e à diminuição dos crimes. A partir de pressões
do Fórum, a Secretaria de Segurança instalou duas Bases
Comunitárias. Os moradores as consideram como melhorias para
o bairro, embora os crimes na região não diminuíram.
Quanto
à questão do acesso à Justiça, o Fórum,
realizou um Tribunal Popular. Objetivava chamar as instâncias
públicas à responsabilidade. Estas responderam com um
pedido de negociação. Contudo, se não houver acordos,
o Fórum apresentará ações civis públicas,
levando em consideração questões referentes à
educação, saúde, segurança, esporte e cultura.
No
campo da educação, o Fórum organizou um grande
seminário "Educar para a Vida", com a participação
de diretores e professores, tanto da rede municipal quanto da estadual.
Além de constituir um espaço de troca de experiências,
o seminário favoreceu a abertura de diversas escolas para utilizar
seus espaços recreativos nos fins de semana. Sem tirar o mérito
desta abertura, fica para ser pensado um espaço para as jovens,
uma vez que as quadras de esporte servem quase que exclusivamente os
jovens.
Com
uma maior diversificação das entidades participantes,
a pauta das reuniões mensais do Fórum foi se estendendo
cada vez mais. Devido à importância de muitas questões
foram criados os Fóruns da Educação e da Assistência
Social.
O
Fórum pretende ser interlocutor do poder público ampliando
sua representatividade junto aos centros de decisão. Necessita
melhorar sua comunicação com a região e com a cidade.
Exige captação de recursos humanos e financeiros. Pretende
atender a convites para ajudar na articulação, incentivo
e criação de outros fóruns na região da
Grande São Paulo. São alguns dos desafios desta movimentação
para a superação da violência.
Resta
lembrar que o Fórum não é uma entidade jurídica.
Algumas entidades ou pessoas constituem um núcleo de coordenação.
Garantem sua representação na cidade, a organização
das atividades, os contatos com instituições, entidades
e meios de comunicação.
Os
participantes, na sua maioria funcionários das entidades que
representam, assumem os serviços do Fórum de forma voluntária.
É a incrível força do Fórum. Ao mesmo tempo
abriga parte de sua limitação. Os recursos são
difíceis e escassos; cada pessoa tem múltiplas atribuições.
Através das iniciativas do Fórum atribui-se tarefas adicionais
para as mesmas pessoas, muitas vezes fora de seu alcance habitual. Torna-se
urgente a parceria com especialistas para assumir determinadas tarefas
e ajudar o Fórum a fazer frutificar seu potencial com conquistas
substanciais, tanto em qualidade quanto em quantidade.
A
proposta do Fórum é supra-partidária, ecumênica
e democrática. Enquanto rede de entidades, configura o difícil
e constante desafio de estabelecer um espaço onde todos tenham
voz, podendo, discutir, propor e escolher livremente, segundo sua própria
razão e sensibilidade. Talvez o Fórum deixe a desejar
em cada um destas atribuições, mas sem dúvida,
representa um espaço popular de aprendizagem para ações
em conjunto. Visa a superação da violência através
da realização de direitos garantidos na lei, também
para a população da periferia.