Hoje podemos
ter certeza de que dentro de mais duas ou três décadas
a Terra entrará em gravíssima crise ecológica,
a menos que haja uma drástica mudança na estrutura produtiva
global. O aquecimento do planeta e as alterações climáticas
já são perceptíveis a olho nu. Outros pontos críticos
que se anunciam num prazo um pouco maior são a poluição
das águas e do ar, a perda da biodiversidade, a exaustão
do petróleo, a acumulação do lixo na terra e no
mar, a desertificação das florestas e a perda da capacidade
de auto-regeneração da vida.
Recente
documento de sir Nicholas Stern (ex-economista-chefe do Banco Mundial)
para o governo inglês argumenta em favor da drástica redução
da emissão dos gases de carbono, porque seu custo hoje seria
de US$350 bilhões por ano, mas dentro de dez anos serão
US$7 trilhões. O documento sugere que quem poluir pagará
um imposto específico que aumentará seus custos (por exemplo,
rosas que hoje são transportadas por avião a baixo custo
e grande desgaste ecológico, ficarão muito caras). Com
isso, venderá menos, produzirá menos e poluirá
menos. Quem, ao contrário, usar fontes limpas ou pouco poluidoras,
pagará pouco imposto, poderá vender barato e assim aumentar
sua produção. E quem quiser limpar a poluição
absorvendo o carbono (é o caso de populações pobres)
ganhará créditos financeiros. Esta proposta corresponde
ao paradigma da economia de mercado, que precisa traduzir custo ecológico
em valor monetário para mobilizar seus agentes: um bem ou serviço
precisa ter valor monetário, para que os agentes do mercado sejam
motivados a agir.
Se
essa solução for globalmente aceita, os impostos serão
repassados a uma agência internacional encarregada de combater
o aquecimento, beneficiando os países pobres. Mas no segundo
momento, os países ricos e suas corporações, que
detém as tecnologias de ponta, aumentarão à vontade
os preços de seus produtos e serviços, para compensar
os altos impostos. Disso resultaria uma nova divisão mundial
do trabalho: num pólo o pequeno mundo dos ricos poluidores e
no outro, o mundo dos que viverão da reciclagem do lixo, como
hoje sobrevivem os sucateiros nas grandes cidades.
Mais
provável, contudo, é que essa sugestão seja rejeitada,
porque prejudicaria a lucratividade das empresas, o desenvolvimento
de países como China, Índia, Rússia e Brasil, e
derrubaria a hegemonia econômica dos EUA. A produção
continuando como é hoje, "antes do fim deste século
bilhões de nós morreremos e os poucos casais férteis
que sobreviverão estarão no Ártico, onde o clima
continuará tolerável", alerta James Lovelock, o cientista
que em 1979 criou a teoria de Gaia. Para esse autor, medidas de contenção,
como as propostas no tratado do Kyoto, são como parar de fumar
quando o câncer já está instalado nos pulmões.
Ele busca a solução no avanço científico
e tecnológico para encontrar fontes viáveis de energia,
para que sobreviva a civilização fundada no mercado.
Deve-se
perguntar se o problema não reside na própria lógica
do mercado, incapaz de medir os custos não econômicos da
produção de bens e serviços. Uma nova lógica
de produção precisa ser descoberta, dentro de um paradigma
que considere em primeiro lugar a vida planetária, a justiça
e a paz entre os povos . O tempo para isso é cada vez mais curto
(uma ou duas gerações, no máximo), no entanto os
planos de desenvolvimento nacional ou regional continuam desconsiderando
os limites físicos da Terra. Neste contexto, foi infeliz o Presidente
Lula quando disse serem o meio-ambiente e as terras indígenas
entraves ao desenvolvimento, esquecendo a usura praticada pelo sistema
financeiro.
Conjuntura
internacional: EUA: derrota de Bush
As
eleições na metade do mandato medem a popularidade do
presidente em exercício, e os Republicanos perderam o controle
do Congresso (Câmara e Senado) que, salvo breve interrupção,
detinham desde 1994. Bush sofreu um duro revés. O apoio à
guerra se esvazia continuamente. A situação no Iraque
se degradou a tal ponto que até mesmo o novo indicado para o
Pentágono disse que "os EUA não estão vencendo
a guerra". Kofi Annan, secretário da ONU, disse que a situação
ficou pior para o iraquiano comum do que no tempo de Saddam Hussein,
pois sem segurança não se pode nem restabelecer a ordem
nem reconstruir o país. A situação do Oriente Médio
agrava-se devido aos conflitos no Líbano e às tensões
com o Irã, que têm suas raízes na repressão
do Estado de Israel contra o povo palestino.
O
unilateralismo da administração Bush paralisa em boa parte
os esforços da ONU para a construção da paz. Em
conseqüência da derrota eleitoral, o embaixador dos EUA na
ONU, John Bolton, teve que renunciar. É a segunda baixa importante
após o secretário de defesa, Donald Rumsfeld, ambos tidos
como falcões.
Nova
onda anti-neoliberal na América Latina
As
últimas eleições confirmam o momento singular da
AL: a reeleição de Lula, a volta de Daniel Ortega na Nicarágua,
a vitória de Rafael Correa no Equador e a ampla vitória
de Chávez fortalecem o novo contexto político da região.
No México, só a fraude impediu a eleição
do candidato Manuel Obrador. Elas expressam a força social de
quem quer mudanças não só no campo socioeconômico,
mas também no plano político. À concentração
da riqueza e do poder, contrapõe-se a mobilização
de diversos setores da sociedade que lutam por mais justiça na
redistribuição das riquezas e maior participação
nas decisões que definem o seu futuro. Cresce e se consolida
a resistência à invasão geral do mercado. Uma onda
de tipo social-democrata e reformista atravessa a região. As
lutas pelas transformações podem seguir caminhos distintos
e revestir formas práticas diversas, mas são convergentes
na procura de maior autonomia e soberania em relação à
dominação dos EUA. Em todas essas eleições
assistimos a uma polarização da sociedade entre o projeto
neoliberal do mercado como única instituição capaz
de revitalizar a sociedade, e a sua rejeição - que ainda
não se expressa num projeto, mas impõe certos controles
ao mercado.
Nesse
contexto, cabe observar o que está ocorrendo no Estado de Oaxaca,
no sul do México, onde eclodiu há seis meses uma revolta
com características inovadoras. O apoio popular a uma greve de
professores duramente reprimida deu uma dimensão política
ao movimento, resultando na criação da Assembléia
Popular dos Povos de Oaxaca. No estado mais pobre e de maior população
indígena do México, depois de Chiapas (onde houve a revolta
zapatista de 1994), indígenas, estudantes, desempregados, sindicalistas
e grupos de esquerda ocuparam todos os prédios públicos
da capital, estações de rádio e levantaram barricadas
exigindo a saída do governador. A situação ainda
é de impasse, pois as forças militares federais evitam
fazer um ataque frontal para não aumentar o número de
mortos (mais de dez). A novidade é que, para evitar a paralisação
total das atividades, as decisões são tomadas por assembléias
populares, de maneira autogestionada.
Enfim,
constata-se um sopro de identidade de povos originários, latinos,
negros e mestiços que buscam uma nova forma de integração
continental, autônoma e a partir das bases populares, deixando
isolados México, Peru e Colômbia que, junto com outros
países de menor peso político, se movem como satélites
na órbita dos EUA . No entanto, os imperativos econômicos
exigem o entendimento continental. Tanto os presidentes eleitos como
a Casa Branca se declararam dispostos a buscar novas perspectivas de
cooperação comercial. Até Raul Castro fez um tímido
apelo ao diálogo para normalizar as relações. A
crescente liderança de Hugo Chávez nesta onda renovadora
incomoda Bush, que pressiona o Brasil de Lula para assumir um papel
moderador nesse processo.
A
política externa no segundo mandato de Lula
A
mídia tem publicado artigos dizendo que, para haver maior crescimento
econômico é preciso mudar a política externa, buscando
maior aproximação com os EUA e a União Européia,
flexibilizando as negociações da ALCA e reorientando as
exportações e importações. Ou seja, em lugar
de privilegiar as relações Sul-Sul, retornar ao antigo
eixo Norte-Sul, conforme a lógica da dependência dos países
periféricos no sistema econômico mundial.
Tal
mudança, bem a gosto dos setores importadores de produtos de
luxo produzidos nos países mais avançados, interromperia
uma política externa de grande alcance antes que seus frutos
pudessem ser colhidos. A prioridade atribuída às exportações
como determinantes da política externa (aliás, é
este seu ponto mais discutível) levou o Ministro Celso Amorim
a semear com perseverança e determinação boas relações
internacionais com novos parceiros, dando prioridade à integração
latino-americana pelo Mercosul, ao qual podem vir a se juntar a Bolívia,
o Equador e até mesmo o Chile. Sua política externa fortaleceu
laços com os países emergentes (Índia, China e
África do Sul em particular), e reforçou o papel do Brasil
como um dos líderes do "Sul" nas negociações
da OMC, por meio do G 20, para redesenhar o mapa do comércio
mundial. Os mercados da Ásia oferecem grandes possibilidades
de aumentar exportações e importações. As
parcerias com os países africanos e árabes também
continuarão prioritárias.
Ao
priorizar essas novas relações, porém, o Brasil
não pode descartar a aproximação comercial com
os EUA, a UE e o Japão, principais mercados mundiais, tendo em
vista o fortalecimento das exportações. Como todos os
principais atores políticos e econômicos no mercado mundial,
o Brasil segue uma política de "geometria variável",
ou seja, uma política flexível e pragmática, que
se adapta em função dos seus interesses específicos
e de suas capacidades. Tudo indica que Lula saberá resistir às
pressões e manter a mesma política externa, que, apesar
das inevitáveis concessões aos interesses dos EUA, foi
um dos pontos mais positivos de seu primeiro governo.
O
Brasil depois das eleições
As
últimas eleições trouxeram alguns fatos novos,
que merecem reflexão. Foram aqui selecionados três grandes
tópicos: a influência política da mídia,
o aprendizado político popular, e a blindagem da economia. Esses
pontos ajudam a contextualizar a análise da 4ª Semana Social
Brasileira.
O
papel político da mídia
A
mídia voltou a posicionar-se durante a campanha eleitoral como
fazia antes de 2002 - quando manteve certa isenção diante
das candidaturas em nível presidencial. Com exceção
da Carta Capital na imprensa de grande circulação nacional,
os demais veículos mostram a realidade pela ótica dos
seus donos, isto é, de quem detém o capital. Assim, o
noticiário sobre a campanha eleitoral teve como foco a denúncia
de corrupção na compra do dossiê contra Serra. As
diferenças de propostas políticas entre Lula e Alckmin
praticamente não foram realçadas. Ao contrário,
quando os movimentos sociais conseguiram colocar em pauta o tema das
privatizações, foi Alckmin quem apareceu em destaque como
defensor das empresas estatais, embora continuasse a defender o enxugamento
da máquina do Estado. A novidade, contudo, é que a grande
mídia não conseguiu mudar a visão do eleitorado,
principalmente o de baixa renda, o qual, mesmo não entendendo
os meandros das investigações sobre a corrupção,
ao votar não se deixou levar pelas acusações amplamente
veiculada na mídia.
Neste
momento de mudanças políticas na América Latina,
o posicionamento da mídia representa uma séria dificuldade
para quem quer acompanhar os acontecimentos, pois o noticiário
já traz embutida uma interpretação desfavorável
às forças populares emergentes. A eleição
de Correa, no Equador, foi surpreendente para quem desconhecia a força
real dos movimentos sociais e indígenas, sempre tratados com
desprezo e apresentados como grupos baderneiros, senão ligados
ao narcotráfico. É preciso recorrer a meios alternativos,
principalmente na internet, para se saber o que de fato acontece, por
exemplo, em Oaxaca, na Bolívia de Evo Morales, na Venezuela de
Chávez e na bloqueada realidade cubana.
O
aprendizado político popular
É
consenso que o eleitorado de baixa renda votou maciçamente em
Lula, por ser o candidato com o qual se identificava ou que lhe prometia
melhores condições econômicas. Mas não há
concordância entre analistas quando a questão é
o amadurecimento político do eleitorado. O primeiro governo Lula
deu relevância aos pobres no cenário social e político,
pois foram mais bem atendidos nas suas necessidades básicas.
Os excluídos do mercado foram introduzidos na agenda da política
social pelo programa Bolsa-Família. Mais importante: a elevação
real do salário-mínimo e a conseqüente elevação
do piso dos benefícios do INSS, representaram uma real redistribuição
de renda . Por isso, a votação em Lula pode ter sido tão
pragmática quanto foi a de FHC em 1998, para manter os preços
sem inflação. Se alguns fatos indicam amadurecimento político,
como a eleição de Lula, a rejeição de Roseana
Sarney no Maranhão e o desmanche do "carlismo" na Bahia,
outros fatos apontam na direção contrária, principalmente
nas eleições para o Legislativo.
Ocorreu
uma mudança nos movimentos sociais, que tinham se afastado do
governo Lula por causa de sua submissão ao capital financeiro,
mas voltaram a apoiar sua campanha no segundo turno. Caso tenha ocorrido
um real amadurecimento político do eleitorado, os movimentos
sociais poderão haurir nele novas forças para reorientar
o governo Lula, ou pelo menos evitar que ele se apóie unicamente
nos partidos com votos no Congresso.
A
blindagem da economia
A
política macroeconômica não foi objeto de debates
na campanha eleitoral, seguindo o preceito neoliberal que a define como
questão técnica e não política. Embora os
setores mais combativos quisessem levantar a discussão, não
encontraram eco junto aos candidatos à presidência. Nem
mesmo a candidata do PSOL correspondeu à altura, preferindo bater
na tecla da corrupção. Os porta-vozes do capital financeiro
exibiam sua tranqüilidade diante de dois candidatos cuja eleição
era para eles indiferente, já que ambos seguem sua orientação.
De
fato, iniciando-se o período de formação do novo
governo, o debate entre os "monetaristas" e os "desenvolvimentistas"
tem preservado o Banco Central e sua política de juros altos.
O Brasil continuará sendo um paraíso financeiro, oferecendo
os juros mais altos e seguros do mundo a quem especular com os títulos
de uma dívida pública cuja legitimidade nunca foi aferida
por uma auditoria. O debate é sobre a possibilidade do PIB brasileiro
crescer 5% ao ano, sem provocar inflação. Para os "monetaristas",
o equilíbrio fiscal não pode ser comprometido; assim,
o crescimento só será possível com a diminuição
dos gastos públicos (corte nos programas sociais, reforma da
Previdência e enxugamento das despesas com pessoal são
as medidas mais ventiladas para obter o déficit nominal zero).
Para os "desenvolvimentistas", os investimentos devem vir
do setor privado e o governo colaborará baixando os juros, facilitando
financiamentos do BNDES e, é claro, fazendo as reformas da previdência,
trabalhista e tributária. Existem evidentes diferenças
entre as propostas, mas dificilmente a política macroeconômica
será mudada. Ou seja, continuaremos fazendo de tudo para aumentar
as exportações (isso significa ampliar áreas de
risco ecológico como o agronegócio, a mineração
e a siderurgia). Se a economia mundial continuar crescendo como cresceu
nos três últimos anos, os "desenvolvimentistas"
terão alguma possibilidade de êxito. Se não crescer,
os "monetaristas" terão a última palavra.
Vale
a pena registrar a apreciação que Delfim Netto faz desta
mesma conjuntura, em seu artigo na carta capital de 6/12/2006: "Corremos
o risco de acompanhar a tragédia que se abate sobre boa parte
da América Latina. O PT, o PMDB, o PSDB, o PFL e os tutti quanti
pretensos socialistas que se cuidem! Se, quando no governo, não
cooperarem com paciência e, quando na oposição,
com educação e inteligência, para a execução
de um programa de crescimento robusto, temperado com maior igualdade
social, vão enfrentar (e perder) em 2010 para a irracionalidade
montante, tão bem representada na proposta recentemente apresentada
como progressista em reunião semi-religiosa realizada em Brasília".
A
4ª Semana Social Brasileira
O
seminário de encerramento da 4ªSSB, realizado nos dias 17
a 19 de novembro, concluiu um período de três anos de diálogo
entre Igreja e Sociedade sobre a realidade sóciopolítica,
que levou à organização de um "mutirão
por um novo Brasil".
O
exercício de diálogo, articulação e geração
de iniciativas da 4ª Semana Social Brasileira, tem muito a ver
com a mudança de visão e de prática política
dos movimentos e pastorais sociais em relação ao segundo
mandato do governo Lula. Se em nenhum momento foi aceita a atitude de
esperar passivamente pela iniciativa dos eleitos, agora é preciso
mais do que manifestar-se, criticar, reivindicar e participar em espaços
governamentais. Os movimentos aprenderam com a prática que só
a pressão política criará oportunidade real de
o governo assumir prioridades voltadas para um desenvolvimento social
favorável à maioria da população. É
isso que esteve presente, por exemplo, na retomada das iniciativas dos
Sem-Terra por reforma agrária e na manifestação
unitária das centrais sindicais e outros movimentos, em Brasília,
em favor da recuperação do valor do salário mínimo
e da atualização da tabela do imposto de renda.
Os
temas prioritários em relação ao "Brasil que
queremos construir" foram colocados pelos diferentes movimentos
para integrar suas ações: trabalho e emprego, distribuição
de renda (reforma agrária, salário mínimo, luta
pela redução da energia elétrica), educação
(universalização de todos os níveis) e soberania
nacional (luta contra as transnacionais, pela re-estatização
da Vale, contra os TLC, contra os transgênicos).
No
horizonte do calendário unificado de vários movimentos,
prevê-se que alguns temas da conjuntura podem gerar mobilização
de massa: luta contra a política econômica, pela reforma
política democrática e pela desmoralização
da grande mídia.
O
grande desafio, para as forças sociais, é manter-se em
diálogo, gerando práticas unitárias, superando
a tradição das divisões e evitando as tentações
de cooptação. Este é o campo de militância
e de testemunho para todas as pastorais e movimentos que assumiram e
realizaram a 4a SSB. E um dos espaços a serem cultivados com
cuidado especial é, certamente, a Assembléia Popular -
Mutirão por um Novo Brasil. Ela tornou-se gérmen de um
processo de construção coletiva de um projeto efetivamente
democrático de nação, aberto a novas maneiras de
compreender e implementar o desenvolvimento social. Só uma visão
que articule diversidade com unidade será capaz de promover processos
participativos de convivência com as características, potencialidades
e limites de cada região do país.
Notícias
do Congresso Nacional
Ebulição
no Congresso no final do mandato
Após
as eleições, novas perspectivas despontam no Congresso.
Também algumas pendências importantes estão aguardando
resposta. Vejamos as mais relevantes:
Gerenciar
a crise política, especialmente a CPI dos Sanguessugas, para
evitar que contamine o ambiente político após a vitória
eloqüente do executivo federal. Até agora há muitas
incertezas sobre esta CPI. No senado, a absolvição dos
seus três senadores denunciados criou perplexidade. O Correio
Braziliense anuncia: "Pizzaria da Câmara reabre dia 06",
data do início da votação no Conselho de Ética
da Câmara. A previsão realizou-se e não há
sinais de moralização. A CPI dos Sanguessugas acusou 69
deputados, dos quais dois deles renunciaram. Dos 67 que restaram apenas
cinco conseguiram se reeleger em outubro. Mas, até o final do
mandato quantos dos denunciados serão alcançados em julgamento?
Os restantes irão para o arquivo, o que beneficiará os
processados porque manterão os direitos políticos e a
possibilidade de disputar eleições em 2008 e 2010.
Muita
negociação na montagem da coalizão no Legislativo
para a eleição dos Presidentes das casas, que terão
de enfrentar as reformas tão anunciadas. Uma prévia, a
eleição para o TCU, resultou em derrota para o governo.
A agenda inclui as Reformas política, tributária e fiscal,
e sindical.
Enfim,
é preciso concluir a agenda legislativa remanescente, que inclui
a lei de Diretrizes Orçamentárias e o Orçamento
da União para 2007.
Passos
preliminares para a Reforma Política
Apesar da prioridade retórica e do consenso em fazê-la,
ainda estamos longe de ter clareza quanto ao seu conteúdo e extensão.
O
Fórum da Cidadania para a Reforma Política, que reúne
entidades e Fóruns dos Movimentos Sociais, já tem uma
proposta elaborada, com sinal verde para a OAB apresentá-la oficialmente.
Ela abrange três núcleos de questões:
1.
A efetivação da soberania popular. Dá especial
atenção à regulamentação do artigo
14 da Constituição em matéria de plebiscitos, referendos
e iniciativas populares, através dos Projetos de Lei em tramitação
no Congresso. Insiste numa emenda constitucional para permitir que os
projetos de lei de iniciativa popular possam ser apresentados por 0,5
% do eleitorado nacional, seja através da confederação
sindical ou entidade de classe de âmbito nacional.
2.
Reforma partidária e do sistema eleitoral. Estão aí
as sugestões já veiculadas pela imprensa. Entre as mais
importantes: fidelidade partidária; financiamento de campanhas
eleitorais; revogação popular de mandatos eletivos (recall);
coligações partidárias; prestação
de contas de campanha eleitoral; reeleição...
3.
Organização e Funcionamento dos Poderes Públicos.
Aqui são propostas ousadas, como a Instituição
do Poder de Planejamento, como órgão independente dos
demais Poderes Públicos (composto por uma Superintendência
Nacional de Planejamento e por um Conselho Nacional de Planejamento).
Este Poder terá como competência elaborar o Plano Nacional
de Desenvolvimento e velar que ele seja levado à prática.
Outra proposta é de reorganização do Poder Executivo
na União Federal para atender às novas exigências.
Também
o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social apresentou, no
dia 05.12., seu projeto para a Reforma Política, com propostas
sugestivas no campo político-eleitoral.
Recriação
da SUDENE, da SUDAM e da SUDECO
A
Câmara dos Deputados aprovou os projetos de lei que recriam a
Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), a da
Amazônia (SUDAM) e a do Centro-Oeste (SUDECO). São autarquias
vinculadas ao Ministério da Integração Nacional
que tinham sido extintas no governo de Fernando Henrique Cardoso, em
meio a denúncias de corrupção. O objetivo dos novos
órgãos é reduzir as desigualdades regionais, com
base em critérios das particularidades de cada região.
A nova SUDENE atuará nos estados da Região Nordeste e
em municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo. Os
recursos sairão do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste. Investirá
prioritariamente no segmento de infra-estrutura e em programas que estimulem
as potencialidades locais. A nova SUDAM será autônoma tanto
do ponto de vista administrativo quanto financeiro. As verbas sairão
do orçamento da União e do Fundo de Desenvolvimento da
Amazônia (FDA). A autarquia, com sede em Belém (PA), vai
gerir nove estados: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia,
Roraima, Tocantins, Pará e Maranhão. A SUDECO vai abranger
os estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito
Federal. Os textos aprovados contêm dispositivos para evitar irregularidades
no trato dos recursos. A SUDENE e a SUDAM vão para a sanção
do Presidente. A SUDECO precisa ainda passar pelo crivo dos senadores.
Projeto
de preservação da Mata Atlântica
A
Câmara aprovou o Projeto de Lei, já acatada no Senado,
que define e regulamenta critérios para o uso da Mata Atlântica.
A proposta prevê a proteção dos 7,3 % que ainda
restam de vegetação nativa, além do desenvolvimento
sustentável do bioma. Para entrar em vigor, a matéria
precisa somente da sanção do presidente Lula. A proposta
tramita há quatorze anos no Congresso e é um marco do
ponto de vista dos ambientalistas. Além da exploração
sustentável da região, ela prevê também incentivos
financeiros para restauração dos ecossistemas, estimula
doações de iniciativa privada para conservação
das florestas, regulamenta o artigo da Constituição que
define a Mata Atlântica como Patrimônio Nacional, proíbe
o desmatamento de florestas primárias e cria regras para exploração
econômica. A nova lei prevê o fim do desmatamento nas zonas
onde exista Mata Atlântica nativa primária ou secundária,
em estágio médio e avançado de regeneração.
A idéia é viabilizar a exploração sustentável
da região sem impedir o desenvolvimento dos empreendimentos da
região. Nesse ponto, o projeto é ousado porque 70% da
população vive na região da Mata Atlântica.
CPI
do Tráfico de Armas aprova relatório final
A
CPI do Tráfico de Armas aprovou, por unanimidade, o relatório
final. A proposta foi intensamente combatida pela chamada "bancada
da bala", que sustentou que a PF não tem estrutura nem efetivo
para fiscalizar o comércio de armas no país. O relatório
sugere 18 projetos de lei para coibir o tráfico de armas. Entre
os principais, está o que tipifica o crime organizado como pena
de seis a 12 anos de prisão. Outra proposta acrescenta responsabilidade
aos advogados e proíbe que eles recebam pagamentos com recursos
do crime organizado. O texto sugere ainda o indiciamento de 16 pessoas;
entre eles, o chefe do PCC, Marcos Camacho (Marcola).
Projeto
contra a discriminação sexual
O
Plenário da Câmara aprovou no dia 23/11 o projeto que altera
a lei que trata dos crimes relacionados ao preconceito de raça,
cor, etnia, religião e procedência nacional. O novo projeto
de lei inclui novas situações tipificadas como crime resultante
da discriminação ou preconceito, estendendo a aplicação
da lei ao preconceito de gênero, sexo, orientação
sexual e identidade de gênero.
Segundo
o texto aprovado, o empregador ou seu preposto que demitir, direta ou
indiretamente, em razão da discriminação, poderá
cumprir pena de reclusão de 2 a 5 anos.
São
especificados pelo projeto outros crimes relativos ao ingresso em instituições
educacionais, à hospedagem em hotéis ou à entrada
em locais públicos ou abertos ao público. Passa a constituir
crime proibir a pessoa de ingressar ou permanecer em qualquer ambiente
ou estabelecimento. Quanto ao ingresso em estabelecimento de ensino,
o projeto inclui os casos de recrutamento e de promoção
funcional ou profissional. Além das situações de
recusa, torna-se crime preterir, prejudicar, retardar ou excluir pessoas.
O projeto foi para o Senado e está causando muitas discussões.
Convém vermos mais claramente o seu conteúdo.
.FUNDEB
é finalmente aprovado
A
Câmara dos Deputados aprovou a Proposta de Emenda à Constituição
(PEC), que cria o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento
da Educação Básica e de Valorização
dos Profissionais da Educação (FUNDEB). A aprovação
da PEC promete melhorar sensivelmente a educação básica
do Brasil nos próximos anos. Entre as principais medidas, aumentará
os recursos destinados à educação, ampliará
o financiamento público para outros níveis de ensino e
estabelecerá o piso salarial nacional para os professores. A
previsão para implantação completa do FUNDEB é
de três anos, e deverá funcionar durante 14 anos. O FUNDEB
contempla a educação infantil (para alunos de até
seis anos) e o ensino médio. Os Estados e municípios continuarão
entrando com a maior parte dos recursos do fundo, mas a participação
federal no financiamento da educação básica crescerá
significativamente. O MEC estima que o FUNDEB terá um orçamento
superior a R$ 50 bilhões já no seu terceiro ano de existência.
Súmula
vinculante deverá ser sancionada
Após
ser aprovado na Câmara, o projeto da súmula vinculante
depende agora da sanção presidencial. A súmula
vinculante tem o objetivo de acelerar os processos judiciais, pois determina
que os juízes de instâncias inferiores e os órgãos
federais devem tomar por base as decisões aplicadas anteriormente
pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no caso de assuntos que já
foram julgados várias vezes pela Corte Suprema. Ao estudar os
casos, o STF já faz uma súmula das decisões. A
idéia agora é obrigar as demais instâncias, além
de órgãos como INSS e Receita Federal, a seguirem os julgamentos
feitos anteriormente, sem que para isso seja preciso travar uma batalha
judicial que se arraste durante anos e tenha vários pedidos de
recursos até chegar à última instância. Caso
receba a sanção presidencial e a proposta seja aprovada,
cada súmula vinculante precisará do aval de oito dos 11
ministros do STF para ser validada.
*
Contribuíram para esta análise Pe. Ernanne Pinheiro, Pe.
Thierry Linard, Bernard Lestienne SJ e Ir. Delci Franzen.
Pedro
A. Ribeiro de Oliveira.
Membro da Equipe de ISER-Assessoria
* Professor da Universidade Católica de Brasília e Membro
da Equipe de ISER-Assessoria
Adital
- (Não é documento oficial da CNBB)Sinal de Alerta no
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