Quarto
Domingo de Páscoa - 07 de maio de 2006
"O bom pastor se despoja da própria vida por suas ovelhas"
- João 10, 11-18
Evangelho
Naquele
tempo, disse Jesus: "Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá
a vida por suas ovelhas. O mercenário, que não é
pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar,
abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa. Pois ele é
apenas um mercenário e não se importa com as ovelhas.
Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem,
assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha
vida pelas ovelhas.
Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também
a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá
um só rebanho e um só pastor. É por isso que o
Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente.
Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder
de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; essa
é a ordem que recebi do meu Pai". - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Conforme
a tradição, hoje é o dia Mundial de Oração
pelas Vocações, ou “Domingo do Bom Pastor”.
O texto de hoje nos demonstra a compreensão que a Comunidade
do Discípulo Amado tinha da paixão, morte e ressurreição
de Jesus.
A imagem escolhida é a do “pastor”- uma imagem por
demais conhecida nos escritos do Antigo Testamento (cf. Sl 40,11; Ez
34,15; 37,24; Eclo 18,13; Zc 11,17; etc.). As vezes é aplicada
ao próprio Deus (Sl 23,1; Is 40,11; Jr 31,9), as vezes ao futuro
rei messiânico (Sl 78, 70-72; Ez 37,24), as vezes aos líderes
político-religiosos de Israel (Jr 2,8; 10,21; 23,1-8; Ez 34).
Também os Evangelistas Sinóticos a usaram muito (Mc 6,34;
14,27; Mt 9,36; 18,12-13; 25,32; 26,31; Lc 15,3-7). Jesus é realmente
pastor, pois ele, o Filho do Homem, participa da condição
humana, inclusive da morte, para conduzir à vida eterna. A palavra
grega aqui usada para “bom”, “kalos” significa
“ideal” ou “nobre” e não somente eficiência
na sua função. Assim é Jesus, pois livremente despoja-se
da sua própria vida para salvar a vida do seu rebanho.
O texto contraste a ação de Jesus com a atuação
dos pastores mercenários, que não defendem o rebanho,
para cuidar dos seus próprios interesses. Aqui, o texto está
bem na tradição profética de Ezequiel (Ez 34) que
condenava os “maus pastores” do povo de Deus – os
líderes religiosos e políticos do seu tempo, que somente
exploravam o povo para o seu próprio proveito, abandonando-o
na horas de maior necessidade. Quanta coisa do tempo de Ezequiel e de
Jesus podem ser aplicadas quase que diretamente a muitos líderes
políticos (e as vezes religiosos) dos nosso tempos!
O trecho destaca o verbo “conhecer”- Jesus conhece as suas
ovelhas como conhece o Pai e é conhecido pelo Pai. “Conhecer”,
na linguagem bíblica, não significa um saber intelectual,
mas implica um relacionamento íntimo de amor e solidariedade.
O conhecimento que Jesus tem dos seus discípulos nasce e se plenifica
no amor que existe entre o Pai e o Filho. Não é um amor
só de emoções, mas um amor exigente, de assumir
o outro até o ponto de doar a vida. Assim a morte na Cruz –
assumida livremente por Jesus – é a expressão suprema
desse amor.
Mas o amor não pode se restringir aos irmãos e irmãs
da comunidade. A utopia proposta por Jesus é da união
entre todos “os seus”- todos os povos do mundo. Aqui talvez
haja uma referência às outras comunidades não-joaninas
do tempo do escrito, mas também podemos aplicar o texto de hoje
à missão universal da Igreja – a de colaborar na
realização do Reino de Deus, pois todos os povos do mundo,
sem distinção de raça, cor, cultura ou religião,
são misteriosamente ligados a Jesus, morto e ressuscitado. Não
devemos imaginar esse sonho como um crescimento da Igreja visível
até que toda a humanidade faça parte dela, mas muito mais
como realização do pedido do Pai-nosso – “seja
feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu”. Onde
se procura o bem, a justiça e a fraternidade, mesmo fora da Igreja
visível, lá se realiza o Reino de Deus.
Como seguidores do Bom Pastor também somos convidados à
vivência desse mesmo amor exigente, que exige o despojo da própria
vida. Isso não implica necessariamente a morte física,
mas a morte ao egoísmo, e a todos os “ismos” que
nos dividem e separam, seja por causa do gênero, raça,
cor, classe ou cultura. Onde há luta em defesa da vida, lá
existe a missão do Bom Pastor, ele que veio “para que todos
tenham a vida e a tenham plenamente!”( Jo 10,10)
Pe
Tomaz Hughes - SVD