Festa Do Nascimento do Senhor - 25 de dezembro de 2006
"O Verbo se fez carne e armou sua tenda no meio de nós"
- João 1,1-18
Evangelho
Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Embora sejamos muito mais familiarizados com as leituras de Lucas, referente
ao nascimento do Salvador em Belém, na realidade o Evangelho
da Missa do Dia, tirado do prólogo de João, nos traz o
sentido profundo dos eventos do primeiro Natal.
O texto gira ao redor do “Verbo” ou “Palavra”
– “Logos” em grego. Enquanto Marcos somente começa
o seu relato do Evangelho de Jesus com o seu batismo e Lucas e Mateus
remontam até a sua concepção, o Quarto Evangelho
liga Jesus à sua preexistência, desde o começo:
“No princípio já existia a Palavra
e a Palavra estava com Deus
e a Palavra era Deus......
a Palavra se fez homem
e acampou entre nós”( 1, 1.14)
Mesmo que se expresse sobre Jesus em termos não tão familiares
para nós (Verbo, ou Palavra), João se coloca bem na tradição
do Antigo Testamento. Embora use a palavra grega “Logos”,
para expressar a identidade de Jesus como o Verbo, na sua mente não
está uma discussão abstrata sobre o Logos dos filósofos
gregos, mas muito mais o sentido teológico do termo hebraico
“Dabar”, que indica a Palavra criadora, congregadora e libertadora
de Deus, expressão do Deus de amor de libertação.
O projeto de Deus acontece quando essa palavra se fez homem, armou a
sua tenda (ou acampou) entre nós. O verbo grego usado “eskênôsen”
deriva-se do termo “skêne, que significa uma tenda de campanha.
Na visão do Quarto Evangelho, A Palavra, o Verbo Divino, “armou
sua tenda” no meio da humanidade, não “ergueu o seu
Templo!” Templo é fixo, tenda é móvel, ou
seja, aonde anda o povo, lá estará a Palavra Viva de Deus,
encarnada na pessoa e projeto de Jesus de Nazaré. Nele e por
ele a Palavra Criadora age, operando a salvação aqui na
terra. Podemos afirmar que o mistério da Palavra tem agora como
centro a Pessoa de Jesus Cristo, inseparável da sua missão
e projeto.
Mas essa encarnação tornou-se o divisor das águas
para a humanidade. Pois “Veio aos seus e os seus não a
acolheram”. Assim o texto desafia qualquer acomodação
que porventura possa existir entre os cristãos, pois "acolher”
a Palavra encarnada não é em primeiro lugar uma crença
intelectual, mas o assumir dum projeto de vida, o seguimento de Jesus
de Nazaré. É uma adesão radical à pessoa
e missão de Jesus, continuados em nós hoje. Como diz o
Evangelho de Mateus, “nem todo aquele que me disser “Senhor,
senhor!” entrará no reino de Deus, mas aquele que cumprir
a vontade de meu Pai do céu”(Mt 7,21).
O nosso texto nos anima para que não esfriemos no seguimento
de Jesus, e nos diz “Aos que a receberam, os tornou capazes de
ser filhos de Deus, os que creram nele, os que não nasceram do
sangue, nem do desejo da carne, nem do desejo do homem, mas de Deus”(Jo
1,12s).
Que a celebração da grande festa de hoje nos confirme
na nossa fé nesse Deus que se encarnou entre nós, “tomando
a condição de escravo, fazendo-se semelhante aos homens”(Fil
2, 7) e como resultado dessa renovação espiritual nos
encoraje para continuarmos na luta para criar o mundo que Deus quer
– de justiça, solidariedade e fraternidade, no caminho
do Reino, onde “todos tenham a vida e a tenham em abundância”(Jo
10,10). Como nos diz Hebreus: "Corramos com perseverança
na corrida, mantendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumidor da
fé...Para que vocês não se cansem e não percam
o ânimo, pensem atentamente em Jesus”(Hb 12, 1-3)