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Congregação Missionária Servas do Espírito Santo - Província Stella Matutina - SP/SP


3º Domingo da Quaresma - 27 de fevereiro de 2005
"Aquele que beber desta água que eu vou dar, esse nunca mais terá sede" - Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42

Evangelho
Naquele tempo, Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. Era aí que ficava o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta do meio-dia. Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: “Dá-me de beber”.
Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. A mulher samaritana disse então a Jesus: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?” De fato, os judeus não se dão com os samaritanos.
Respondeu-lhe Jesus: “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva”.
A mulher disse a Jesus: “Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar a água viva? Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?”
Respondeu Jesus: “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna”.
A mulher disse a Jesus: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la”. “Senhor, vejo que és um profeta!” Os nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar”.
Disse-lhe Jesus: “Acredita-me, mulher: está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade”.
A mulher disse a Jesus: “Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas”.
Disse-lhe Jesus: “Sou eu, que estou falando contigo”.
Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus. Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias. E muitos outros creram por causa da sua palavra. E disseram à mulher: “Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo”. - Palavra da Salvação.

Reflexão do Evangelho
O texto de hoje, quase um capítulo inteiro, é tirado do Quarto Evangelho, e portanto tem que ser interpretado levando em conta as características do Evangelho de João – entre eles, o uso de símbolos (pessoas, eventos, coisas e números) e de “mal-entendidos” para dar oportunidade para uma explicação mais profunda sobre a pessoa e missão de Jesus. O capítulo é tão denso, quer seria impossível fazer jus ao seu conteúdo numa curta reflexão.
O relato vem da Comunidade do Discípulo Amado, onde certamente havia muitos samaritanos, vistos como impuros pelo judaísmo oficial. Embora os Sinóticos desconheçam qualquer ministério de Jesus entre os samaritanos, a Samaria foi palco dum dos primeiros trabalhos missionários da Igreja primitiva (cf. At 1,8; 8,1-25). Os samaritanos eram descendentes da mistura entre os Israelitas do Reino do Norte e os migrantes pagãos, que foram levados à Samaria pelos Assírios, depois da queda do Reino de Israel em 721 a.C. O segundo livro dos Reis conta que os Assírios deportaram uma grande parte da população de Israel e levaram para lá gente de cinco nações pagãos (cf 2Rs 17,1-6. 24-41). Estas pessoas trouxeram a sua religião original, mas também adotaram o javismo como culto “ao Deus da terra”, formando assim uma religião com fortes traços de sincretismo. Os samaritanos aceitaram somente os cinco livros da Lei, rejeitando os profetas e toda a ênfase sobre o Templo de Jerusalém. Isso causou muito conflito com os Judeus, e no século antes de Jesus, o Sumo Sacerdote de Jerusalém destruiu duas vezes o seu Templo no Monte Gazirim. Esse contexto histórico é essencial para entender o diálogo de Jesus com a mulher sobre os seus “cinco maridos”. Eles simbolizam os cinco Deuses dos povos que colonizaram Samaria e “aquele que você tem agora que não é seu marido” é o javismo sincretista dos samaritanos, pois “marido” é um símbolo profético para indicar Javé na sua relação com a sua esposa, o povo de Israel.
O dialogo segue a técnica típica joanina do “mal-entendido” (cf. o diálogo com Nicodemos também). Falando da água, a mulher entende somente água natural, mas Jesus se refere à sua revelação divina e ao Espírito Santo, água viva que será dada a quem aceita Jesus. Pode-se entendê-lo também como símbolo da água do batismo, que confere o Espírito Santo, e que é “uma fonte de água que jorra para a vida eterna”(v.14).
No debate sobre o local de adoração de Deus, Jesus demonstra que no Novo Israel (a Igreja) a localidade não importa, porque o culto nascerá do Espirito de Verdade. Diante dessa nova revelação, outros debates casuísticos perdem o seu sentido! Uma lição para hoje, quando perdemos tempo discutindo inutilmente se deve cultuar Deus na sábado ou no domingo, deste ou daquele jeito! Como disse o Papa em Assis, freqüentemente partimos do que nos divide, muitas vezes coisas absolutamente secundárias, em lugar de olhar ao que nos une.
A mulher samaritana, diante do encontro com Jesus, torna-se missionária do seu próprio povo. A evangelizada torna-se evangelizadora. Não é possível encontrar-nos com a Vida Nova em Jesus sem que nos tornemos missionários(as) – não proselitistas, angariando adeptos para a nossa confissão religiosa, mas missionários(as), alastrando a mensagem do Reino de Deus entre nós, na construção dum mundo onde todos “tenham a vida e a vida plenamente”(Jo 10,10).
É importante não reduzir este texto à uma leitura moralizante – como se a mulher fosse da má fama, e agora se converteu para uma vida regular! É muito mais profundo. Quem faz a experiência de intimidade com Jesus, a encarnação do Deus da vida, necessariamente entra num processo de conversão, no seguimento do Mestre, e torna-se missionário(a) da Boa Nova. Nunca cansemos nessa busca da água viva, pois só ela pode nos satisfazer. Peçamos com a mulher “Senhor, dá-nos essa água para que não tenha mais sede”.
O texto mostra bem como a proposta de Jesus para os seus seguidores é inclusiva – a mulher representa os que são excluídos, por motivo de pobreza, gênero, raça ou religião. Jesus não aceita a exclusão de quem quer que seja. Até os discípulos se chocaram quando encontraram Jesus dialogando com a mulher, pois as suas cabeças ainda trabalharam com os conceitos de “puro e impuro”, de “eles e nós”. Jesus veio para acabar com essas divisões, muitas vezes criadas em nome da religião e de Deus, com conseqüências desastrosas. O contato com a fonte de água viva, nos impulsiona para a criação de comunidades alternativas, baseadas na vivência de solidariedade, paz e justiça, na dinâmica do Reino de Deus.

Pe. Tomaz Hughes - SVD

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