Festa da Nossa Senhora Aparecida - 12 de outubro de 2006
"Façam tudo o que ele lhes disser" -
João 2,1-12
Evangelho
Naquele tempo, houve um casamento em Caná da Galiléia.
A mãe de Jesus estava presente. Também Jesus e seus discípulos
tinham sido convidados para o casamento.
Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: "Eles
não têm mais vinho". Jesus respondeu-lhe: "Mulher,
por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou".
Sua mãe disse aos que estavam servindo: "Fazei o que ele
vos disser".
Estavam seis talhas de pedra colocadas aí para a purificação
que os judeus costumam fazer. Em cada uma delas cabiam mais ou menos
cem litros. Jesus disse aos que estavam servindo: "Enchei as talhas
de água". Encheram-nas até a boca. Jesus disse: "Agora
tirai e levai ao mestre-sala". E eles levaram. O mestre-sala experimentou
a água, que se tinha transformado em vinho. Ele não sabia
de onde vinha, mas os que estavam servindo sabiam, pois eram eles que
tinham tirado a água.
O mestre-sala chamou então o noivo e lhe disse: "Todo o
mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já
estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste
o vinho melhor até agora!"
Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná
da Galiléia e manifestou a sua glória, e seus discípulos
creram nele. - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
A primeiro parte do Quarto Evangelho é comumente chamada “O
Livro dos Sinais”, pois o evangelista relata uma série
de sete sinais que, passo por passo, revelam quem é Jesus, e
qual é a sua missão. (Embora algumas bíblias traduzem
o termo grego por “milagre”, a tradução mais
acertada é : “Sinal”). O primeiro desses sinais aconteceu
no contexto das bodas de Caná, o nosso texto de hoje. Como quase
todo o evangelho de João, o relato esta carregado de simbolismo,
onde pessoas, números e eventos funcionam simbolicamente, para
nos levar além da superfície das coisas, numa caminhada
de descoberta sobre a pessoa de Jesus.
Um dos temas centrais do quarto evangelho é o da “hora”
de Jesus. A "hora” não se refere à cronometria,
mas a hora de glorificação de Jesus, por sua morte e ressurreição.
Em resposta ao pedido feito por Maria (note que João nunca se
refere a ela pelo nome, mas pelo título “mulher”),
usando duma maneira um tanto estranha este termo para a sua mãe,
João quer indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana
de ação para Maria, para reservar para ela um papel muito
mais rico, ou seja, o da mãe dos seus discípulos. Maria
somente vai aparecer mais uma vez neste evangelho – a pé
da cruz, onde ela e o Discípulo Amado assumem um relacionamento
de Filho e Mãe. Devemos lembrar que o Discípulo Amado
simboliza a comunidade dos discípulos do Senhor.
Não devemos reduzir a ação da Maria no texto à
duma incomparável intercessora. Embora seja comum esta interpretação
na devoção popular, não se sustenta do ponto de
vista exegética. É melhor ver Maria aqui como discípula
exemplar, pois embora a resposta de Jesus indique um distanciamento
entre a sua expectativa e a visão dele, ela continua com confiança
nele e leva outros a acreditar nele.
O simbolismo da água tornada vinho é também importante.
Não era qualquer água - era a água da purificação
dos judeus. Com esta história, João quer mostrar que doravante
os ritos judaicos de purificação estão superados,
pois a verdadeira purificação vem através de Jesus.
Podemos entender isso como a mudança duma prática religiosa
baseada no medo do pecado, uma prática que excluía muita
gente, para uma nova relação entre Deus e a humanidade,
a partir de Jesus. Assim, em Caná Jesus começa a substituir
as práticas do judaísmo do Templo, o que vai continuar
ao longo do Evangelho de João.
A quantia do vinho chama a atenção – 600 litros!
O vinho em abundância era símbolo dos tempos messiânicos,
e na tradição rabínica, a chegada do Messias seria
marcada por uma colheita abundante de uvas. Assim João quer dizer
que a expectativa messiânica se realiza em Jesus. E as talhas
transbordantes simbolizam a graças abundante que Jesus traz.
A figura do mestre-sala é também simbólica, bem
como a dos serventes. Aquele, que devia saber a origem do vinho da festa,
não sabia, enquanto estes sim. Assim, o mestre-sala represente
os chefes do Templo que não sabiam a origem de Jesus enquanto
os servos representam os discípulos que acreditaram nele.
Fazendo comparação entre o vinho antigo e o novo, João
quer reconhecer que o Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou.
Os ritos e práticas judaicos, ligados à purificação
e ao sacrifício, não têm mais sentido, pois uma
nova era de relacionamento entre a humanidade e Deus começou
em Jesus.
O ponto culminante do relato está em v,11: “Foi em Caná
que Jesus começou os seus sinais, e os seus discípulo
acreditaram nele”. E a fé deles não é intelectual
ou teórica, mas o seguimento concreto do Mestre, na formação
de novos relacionamentos de amor. Passo por passo, o autor vai revelando
Jesus através de sinais para que nós, os leitores possamos
"acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para
que, acreditando, tenhamos a vida em seu nome”(Jo 20,31).
Pe
Tomaz Hughes - SVD