Vigésimo Primeiro Domingo Comum - 24 de agosto de 2003
"Tu tens palavras de vida eterna" - João
6, 60-69
Evangelho
Naquele
tempo, muitos dos discípulos de Jesus que o escutaram, disseram:
"Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?"
Sabendo que seus discípulos estavam murmurando por causa disso
mesmo, Jesus perguntou: "Isto vos escandaliza? E quando virdes
o Filho do Homem subindo para onde estava antes? O Espírito é
que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que
vos falei são espírito e vida. Mas entre vós há
alguns que não crêem".
Jesus sabia, desde o início, quem eram os que não tinham
fé e quem havia de entregá-lo. E acrescentou: "É
por isso que vos disse: ninguém pode vir a mim a não ser
que lhe seja concedido pelo Pai". A partir daquele momento, muitos
discípulos voltaram atrás e não andavam mais com
ele.
Então, Jesus disse aos doze: "Vós também vos
quereis ir embora?" Simão Pedro respondeu: "A quem
iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente
e reconhecemos que tu és o Santo de Deus". - Palavra da
Salvação
Reflexão do Evangelho
O texto de hoje forma a conclusão do grande discurso sobre "O
Pão da Vida". Mais uma vez, a bíblia deixa claro
que diante de Jesus e das suas palavras, o ouvinte tem que tomar uma
decisão radical. E os versículos do nosso texto não
escondem o fato que nem todos conseguem optar por Jesus.
As
primeiras palavras de hoje "depois de ter ouvido isso" demonstra
que a divisão nasceu a partir de algum ensinamento de Jesus,
sem explicitar o motivo exato da discussão. As preocupações
comunitárias dos versículos anteriores, a afirmação
de Jesus de que ele dá o seu corpo como pão da vida e
o fato que o texto se dirige aos discípulos, indicam que provavelmente
foi o discurso eucarístico a fonte de divisão. Porém,
a afirmação de Jesus de que ele "dá a vida"-
o que causou já uma divisão em 5,19-47, e a identificação
da sua palavra reveladora com "o pão vindo do céu"
na primeira parte do discurso, talvez tenham criado a controvérsia.
De qualquer maneira é importante notar que a divisão não
se dá entre "os judeus", mas entre os próprios
discípulos, muitos dos quais abandonam Jesus neste momento. Sem
dúvida, essa história reflete a experiência da comunidade
do Discípulo Amado, pelo ano 90, quando estava sentindo na pele
as dores de divisão, pois muitos dos seus membros estavam abandonando-a
(essa divisão é o pano do fundo das três Cartas
Joaninas)
É
muito interessante a reação de Jesus diante do abandono
da maioria dos seus discípulos. Ele não arreda pé,
mas com toda calma até convida os Doze para saírem, se
não podem aceitar a sua palavra. Jesus não se
preocupa com números – mas com a fidelidade ao Pai.
Talvez até fique sozinho, mas não vai diluir em nada as
exigências do seguimento da vontade do Pai. Um exemplo
importante para nós, pois muitas vezes caímos na tentação
de julgar o êxito pelos números! Igrejas cheias indicam
sucesso! Mas nem sempre é assim – é mais importante
ser coerente com o Evangelho, custe o que custar, do que "fazer
média" com a sociedade, as vezes através duma pregação
tão insossa, que reduz a religião a mero sentimentalismo,
sem conseqüências sociais.
Mas
devemos cuidar de não interpretar erradamente as palavras de
Jesus em v. 63 quando diz que "É o Espírito que vivifica,
a carne para nada serve". As vezes usa-se essa frase (e outras
de João) para justificar uma religião dualista, onde tudo
que é "espírito" é bom e tudo que é
material é do mal! Aqui João não distingue duas
partes do ser humano, mas duas maneiras de viver! A carne é a
pessoa humana entregue a si mesma, incapaz de entender o sentido profundo
das palavras e dos sinais de Jesus; o espírito é a força
que ilumina as pessoas e abre os seus olhos para que possam entender
a Palavra de Deus que se pronuncia em Jesus.
Diante
do desafio de Jesus, Pedro resume a visão dos que percebem em
Jesus algo mais do que um mero pregador. A quem iriam? Pois só
Jesus tem as palavras de vida eterna! Declaração atual,
pois é moda na nossa sociedade – até entre muitos
católicos praticantes – de correr atrás de tudo
que é novidades: supostas aparições, esoterismo,
religiões orientais, gnosticismo e tantas outras propostas, as
vezes até esdrúxulas, enquanto se ignora a Palavra de
Deus nas Escrituras. O texto de hoje nos convida a nos examinarmos,
a verificarmos se estamos realmente buscando a verdade onde ela se encontra,
ou se a deixamos de lado, achando – como as multidão no
texto – que o seguimento de Jesus "é duro demais"!
No meio de tantas propostas de vida, estamos convidados a reencontrarmos
a fonte da verdadeira felicidade e da verdadeira vida, fazendo a experiência
de Pedro, que descobriu que Jesus "tem palavras de vida eterna".
Pe
Tomaz Hughes - SVD