QUINTO DOMINGO DA PÁSCOA - 09 de maio de 2004
"Amem-se uns aos outros" - João 13,
31-33a. 34-35
Evangelho
Depois
que Judas saiu do cenáculo, disse Jesus: “Agora foi glorificado
o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado
nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará
logo.
Filhinhos, por pouco tempo estou ainda convosco. Eu vos dou um novo
mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também
vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão
que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros”.
- Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Este texto situa-se no contexto do Último Discurso de Jesus,
na Ceia Pascal. Começa logo após a saída de Judas
para trair Jesus, depois que Jesus lhe disse "o que você
pretende fazer, faça-o logo"(Jo 13,27). Com a licença
oficial dada ao agente de Satanás para iniciar o processo que
iria matá-lo, Jesus começa o processo da sua glorificação.
A sua fidelidade ao projeto do Pai vai levá-lo à Cruz,
no Quarto Evangelho, não sinal de derrota, mas da vitória
última e permanente de Deus. Por isso, a morte de Jesus, aparente
vitória do mal, será a glorificação de Jesus,
e nele, do Pai.
O anúncio da sua partida, para os judeus uma ameaça (v.33),
é para a comunidade dos seus discípulos um momento de
emoção e carinho. A sua última dádiva a
eles é um novo mandamento: "eu dou a vocês um novo
mandamento: amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês,
vocês devem se amar uns aos outros."(v.34).
O que há de novo neste mandamento? O que diferencia a proposta
de amor de Jesus e dos seus seguidores de outras propostas já
conhecidas? O mundo do tempo de Jesus, tanto na sociedade pagã
como judaica, conhecia propostas de amor mútuo. O mandamento
de Jesus é novo, primeiro porque ele se impõe como exigência
essencial para entrar na comunidade escatalógica. Essa é
a comunidade que já experimenta a presença do Reino de
Deus, mesmo que ainda espere a sua plena realização, ou
seja, uma comunidade que já experimenta a salvação
já realizada em Jesus, enquanto ainda experimenta a sua situação
permanente de fraqueza. Também é novo, porque não
se fundamenta nas leis sobre o amor, da tradição judaica
(p. ex. Lv 19,18, ou os documentos do Qumrã), mas na entrega
de si, de Jesus. O modelo deste amor é o exemplo do próprio
Jesus "assim como eu vos amei!". E como ele nos amou? Entregando-se
até a morte, para que todos pudessem "ter a vida e a vida
plenamente"(Jo 10,10). Este amor não é sinônimo
de simpatia ou sentimento de atração. Exige humildade
e a disposição para o serviço que leva a morrer
pelos outros. E este "morrer" normalmente não se expressa
através duma morte literal, mas morrendo diariamente ao egoísmo
e à busca do poder dominador, para que sejamos servidores, especialmente
dos mais humildes, ao exemplo do Mestre que "não veio para
ser servido, mas para servir".(cf. Mc 10,45)
Este amor e tão fundamental para a comunidade dos discípulos
de Jesus que deve ser tornar o seu sinal característica: "assim
todos reconhecerão que vocês são meus discípulos"
(v.35). Mais do que uma lista de doutrinas, mais do que práticas
litúrgicas ou rituais, embora essas tenham o seu lugar, é
o amor mútuo e concreto que deve distinguir os discípulos
de Jesus. Os Atos dos Apóstolos nos lembram que "foi em
Antioquia que os discípulos receberam, pela primeira vez, o nome
de "cristãos" (At 11,26). Receberam uma nova designação,
da parte dos outros, porque a sua maneira de viver era marcadamente
diferente das outras comunidades religiosas da cidade - era marcada
pelo amor mútuo. O evangelho de hoje nos convida para que honestamente
nos examinemos a nós mesmos, para verificarmos se este amor-serviço
ainda é a marca característica de nós, discípulos
de Jesus, na nossa vida individual e comunitária!
Pe
Tomaz Hughes - SVD