Quinto Domingo de Páscoa - 18 de maio de 2003
"Sem mim, vocês não podem fazer nada"
- João 15, 1-8
Evangelho
Naquele
tempo, Jesus disse a seus discípulos: "Eu sou a videira
verdadeira e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que em mim não
dá fruto, ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o
limpa, para que dê mais fruto ainda. Vós já estais
limpos por causa da palavra que eu vos falei.
Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como o ramo não
pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim
também vós não podereis dar fruto, se não
permanecerdes em mim.
Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim,
e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.
Quem não permanecer em mim será lançado fora como
um ramo e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados
no fogo e queimados.
Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós,
pedi o que quiserdes e vos será dado. Nisto meu Pai é
glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos".
- Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
O texto de hoje inicia a seção do quarto evangelho que
tem os trechos que mais se aproximam aos discursos da vida pública
de Jesus nos Sinóticos. Aqui temos um exemplo raro duma parábola
em João - a da vinha e dos ramos, uma metáfora que expressa
o amor íntimo entre Jesus e os seus discípulos. Em contraste,
o seguinte segmento (15,18-16,4) vai tratar do ódio do mundo
para com os seus seguidores.
No
Antigo Testamento, freqüentemente se retrata Israel como a vinha
(ou videira) escolhida de Deus, que ele tem cuidado com muito amor,
mas que deu frutas amargas. Na primeira parte de João, vimos
como Jesus substitui as instituições e festas judaicas;
agora ele se manifesta como a vinha do Novo Israel. Se ficarem unidos
a ele, os cristãos darão somente frutos que agradarão
ao vinhateiro - o Pai. No Antigo Testamento, Deus muitas vezes ameaçava
podar ou até desenraizar a vinha improdutiva. Embora a vinha
do Novo Israel não falhará, sempre haverá ramos
secos a serem tirados e queimados.
A
Bíblia sempre insiste que o fruto que Deus quer é a prática
da justiça e solidariedade. Este tema perpassa a Bíblia
toda, tanto no Antigo como no Novo Testamentos. Mas os cristãos
somente poderão dar este fruto agradável se ficarem unidos
a Jesus, pois "sem mim, nada poderão fazer". Mais uma
vez volta-se à idéia que é pelos frutos que se
conhece a árvore. Assim nos leva a refletir sobre os frutos que
500 anos de evangelização têm dado no Brasil. Com
uma das piores distribuições de renda no mundo, com uma
das maiores concentrações de terras nas mãos de
poucos, com índios e sem-terra marginalizados, com tanta gente
sofrida, talvez muita coisa tenha que ser podado pelo Pai, para que
realmente sejamos a verdadeira videira na vinha do Senhor. Sem dúvida,
há muita coisa realmente boa acontecendo nas comunidades cristãs
do Brasil, bem como uma nova esperança na vida pública,
mas o teste mesmo é a construção duma sociedade
baseada na princípios de justiça, fraternidade e solidariedade
e não no lucro, competitividade e a lei da selva.
Até
há pouco tempo, um dos sentimentos mais comuns em todas as camadas
da sociedade era a da impotência. Parecia que éramos sem
forças diante do rolo opressor do sistema hegemônico, do
neo-liberalismo, da globalização, das forças do
mercado. A arrogância estadunidense, confiante na força
das suas armas e no poderio econômico, podia ter reforçado
este sentimento. Seria fácil cairmos na tentação
de desistir da luta para melhorar a sociedade, pois os resultados parecem
ínfimos. Por isso urge cada vez mais ficarmos unidos a Jesus,
na oração e no compromisso, a ele que parecia também
um derrotado, mas que teve a vitória final na Ressurreição.
Se sem ele, nada podemos fazer, o contrário é também
verdade - com ele tudo podemos! Talvez não de maneira que gostaríamos,
mas sem dúvida como co-construtores com ele do Reino de Deus.
As
dificuldades enfrentados pelos movimentos populares em favor do excluídos
e pelos setores mais comprometidos das Igrejas, os sofrimentos dos mártires
da caminhada e das suas famílias, são podas - mas podas
que darão mais fruto ainda. Como as forças opressoras
do Império Romano aliadas às elites do judaísmo
não conseguiram matar o projeto de Jesus, nem as forças
opressoras de hoje conseguirão matar o crescimento do Reino entre
nós - uma vez que fiquemos unidos a Ele, e entre nós,
pois "sem mim, nada poderão fazer"!
Pe
Tomaz Hughes - SVD