Sexto Domingo de Páscoa - 25 de maio de 2003
"Amem-se uns aos outros" - João 15,
9-17
Evangelho
Naquele
tempo, disse Jesus a seus discípulos: "Como meu Pai me amou,
assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor.
Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim
como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu
amor. Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós
e a vossa alegria seja plena.
Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como
eu vos amei. Ninguém tem amor maior do que aquele que dá
sua vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que
eu vos mando. Já não vos chamo servos, pois o servo não
sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer
tudo o que ouvi de meu Pai.
Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos
escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso
fruto permaneça. O que então pedirdes ao Pai em meu nome,
ele vo-lo concederá. Isto é o que vos ordeno: amai-vos
uns aos outros". - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Poucos trechos do Evangelho de João são tão conhecidos
como o de hoje, pelo menos pelas diversas frases lapidares tecidas dentro
dele. Sobressai o tema básico do "amor" - como a característica
que deve distinguir os discípulos(as) de Jesus.
O
amor é um dos temas preferidos da sociedade atual, como mostram
os nosso cantos, poemas e novelas - mesmo que seja mais na fala do que
na prática. Por isso torna-se necessário recuperar o sentido
profundo do amor nos Evangelhos. Até uma estudo rápido
mostra que o termo tem outro sentido do que aquele que a nossa sociedade
liberal e burguês lhe atribui. Na sociedade atual, o amor não
passa dum sentimento agradável, uma emoção, quando
não dum egoísmo disfarçado. Tendo como base a emoção,
torna-se temporário, volúvel, sem consistência.
Passado o sentimento, termina o amor! Uma das conseqüências
dessa visão pós-moderna é a alta índice
de divórcios, de separações, de desistências
de tudo que é compromisso, pois a base é como areia movediça,
não sustenta o peso do dia-a-dia durante anos.
O
amor a qual Jesus nos conclama tem outro sentido - é o amor "como
eu os amei". E como foi que ele nos amou? Dando a sua vida por
nós. O amor torna-se uma atitude de vida, e não um sentimento.
A comunidade dos discípulos- a Igreja - deve ser uma comunidade
de pessoas comprometidas como projeto de Jesus, que veio "para
que todos tivessem a vida e a vida plenamente (cf. Jo, 10,10). A comunidade
cristã deve ser muito mais do que um grupo de amigos e companheiros
(oxalá que fosse isso também, pois freqüentemente
nem isso é!) - deve ser uma comunidade enraizada no amor de Jesus,
que é a encarnação do Deus da vida, animada pelo
seu Espírito e dedicada a criar o mundo que Deus quer.
A
pedra-de-toque duma comunidade cristã então não
será o sentimento e a emoção, mas os frutos que
ela dá, frutos que devem permanecer (v.16) e que não devem
evaporar com a instabilidade dos sentimentos. Tal comunidade vai ser
comunidade de vida e partilha, da justiça e solidariedade, da
verdadeira paz e dedicação. Saberá ultrapassar
os limites da mera simpatia e atração, para assumir a
vida de cada irmão e irmã como expressão do amor
do Pai.
É
interessante que, embora o trecho situe-se no contexto da véspera
da paixão, Jesus fala da alegria e da alegria completa. É
impressionante como, num mundo que propõe a satisfação
imediata pessoal e a felicidade já como metas, garantidas pelo
consumo e pelas posses, há tanta gente desanimada, triste, insatisfeita
e deprimida. Quantos jovens, mesmo - ou talvez especialmente - nas classes
mais abastadas, irrequietos e perdidos na vida. Pois a alegria não
vem somente das posses e dos bens materiais, e uma vida baseada sobre
eles vai necessariamente elevar à frustração. Mas
também há muita gente, muitas vezes com uma vida sofrida
e difícil, que irradia a verdadeira alegria e profunda paz, pois
as suas vidas são alicerçadas sobre a rocha - uma vida
de amor verdadeira, na doação de si, na busca duma vida
digna para todos. A sociedade do consumo nos aponta uma caminho para
a felicidade - sempre ter mais, numa busca individualista de felicidade,
que só pode nos levar à alegria falsa dos shows de Faustão
ou Sílvio Santos. Jesus nos aponta o caminho para a verdadeira
alegria - uma vida de amor-doação, de busca da justiça
e solidariedade, que tem a alegria não como meta, mas que a traz
como conseqüência.
Não
há nenhum mandamento "simpatizai-vos uns com os outros"
mas há o mandamento do amor! Para isso precisamos duma vida fortemente
fundamentada no Evangelho e no seguimento de Jesus, pois se não,
será impossível sustentá-la. Jesus nos quer como
"amigos" e não servos, ou seja, pessoas que livremente
assumem o seu projeto. Assim assinala que a religião não
deve ser o comprimento duma série de leis e regulamentos, mas
o seguimento dum projeto de vida, continuador da sua missão no
mundo atual. Um projeto além das nossas forças humanas,
pelo qual precisamos do dom sempre renovado do Espírito Santo,
um dom que nos é garantido, pois, como diz o texto "o Pai
dará a vocês qualquer coisa que vocês pedirem em
meu nome"(v.16). É um projeto que nos coloca na contramão
da sociedade atual, mas que nos garante uma vida realizada e plena,
que os falsos ídolos do consumismo são incapazes de nos
dar. "O que mando é isso - amem-se uns aos outros".
(v.17)
Pe
Tomaz Hughes - SVD