Sexto Domingo de Páscoa - 03 de junho de 2007
"O Espírito não falará em seu próprio
nome" - João 15, 9-17
Evangelho
Tenho ainda muito que vos dizer, mas não podeis agora suportar.
Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à
verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá
tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas futuras. Ele
me glorificará porque receberá do que é meu e vos
anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vos disse:
ele receberá do que é meu e vos anunciará.
Palavra
da Salvação
Reflexão do Evangelho
Hoje
celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima
Trindade. Durante os primeiros séculos da sua existência,
a Igreja lutou com dificuldade para expressar em palavras o inexprimível
– a natureza do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão
belíssimo do Credo Niceno-Constantinopolitano, infelizmente tão
pouco usado nas celebrações de hoje, onde celebra o Pai
“criador de todas as coisas”, do Filho, “Deus de Deus,
Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado’,
e o Espírito que “dá a vida, e procede do Pai e
do Filho”. Mas mesmo essas expressões tão profundas
não conseguem explicar a Trindade, pois se Deus fosse compreensível
à mente humana, não seria Deus.
O Quarto Evangelho nos traz formulações muito bonitas
referentes à Trindade, especialmente no ultimo Discurso de Jesus.
Nesses capítulos (13-17) ele é representado como o Paráclito,
uma palavra grega que significa, em nossa linguagem, o Advogado da Defesa.
Em diversos textos, João expressa a função do Espírito
dentro da comunidade pós-ressurrecional. No capítulo 16,
donde se tira o texto de hoje, existe um trecho trinitário; vv.
13-15 se referem ao Espírito; vv. 16-22 a Jesus; vv. 23-27 ao
Pai.
Nos texto de hoje, a função de ensinar, do Espírito,
recebe ênfase. Como em Cap. 14, num texto paralelo, esse ensinamento
não trará nada de novo. Jesus já recebeu tudo do
Pai e o Paráclito recebe tudo de Jesus. Mas o ensinamento dele
vai fazer com que os discípulos compreendam melhor o que significava
o ensinamento que receberam de Jesus. Vai fazer com que eles “recordem”
as suas palavras, e assim consigam colocá-las em prática.
O termo “verdade" que se usa neste trecho tem que ter o mesmo
sentido que tem em outros textos do quarto evangelho, isso é,
a fé em Jesus como a revelação de Deus e nele como
quem fala as palavras de Deus ( cf. Jo 3,20.33; 8, 40.47).
Dentro das limitações da linguagem humana tentamos expressar
a mistério da Trindade como “três pessoas numa única
natureza”. Mas mais importante do que encontrar fórmulas
abstratas para expressar o que no fundo é inexprimível,
é descobrir o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para
a nossa vida cristã. Talvez o livro de Gênesis possa nos
ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua
imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher”(Gn
1,28). Se somos criados na imagem e semelhança de Deus, é
dum Deus que é Trindade, que é comunidade perfeita na
diferença. Assim, só podemos ser pessoas realizadas na
medida que vivemos comunitariamente. Quem vive só para si é
destinado à frustração e infelicidade, pois está
negando a sua própria natureza. O egoísmo é a negação
de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, enquanto fomos
criados na imagem dum Deus que é o contrário do individualismo,
pois é Trinitário. No mundo pós-moderno, onde o
individualismo social, econômico e religioso é tido como
critério fundamental da vida, a doutrina da Trindade nos desafia
para que vivamos a nossa vocação comunitária, criando
uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito
do diferente do outro, pois fomos criados na imagem e semelhança
deste Deus que e amor e comunhão. A festa de hoje não
é dum mistério matemático – como pode ter
um em três – mas do mistério do amor de Deus, que
nos criou para que vivêssemos comunitariamente na sua imagem e
semelhança.
Pe
Tomaz Hughes - SVD