Evangelho
Naquele
tempo, Pilatos chamou Jesus e perguntou-lhe: "Tu és o rei
dos judeus?"
Jesus respondeu: "Estás dizendo isto por ti mesmo ou outros
te disseram isto de mim?" Pilatos falou: "Por acaso, sou judeu?
O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?"
Jesus respondeu: "O meu reino não é deste mundo.
Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que
eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não
é daqui".
Pilatos disse a Jesus: "Então tu és rei?"
Jesus respondeu: "Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo
para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é
da verdade escuta a minha voz". - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Como é de costume na Igreja Católica, hoje, o último
domingo do Ano Litúrgico, celebra-se a festa de Nosso Senhor
Jesus Cristo, Rei do Universo. A festa foi estabelecida na época
dos governos totalitários nazistas, fascistas e comunistas, nos
anos antes da Segunda Guerra, para enfatizar que o único poder
absoluto é de Deus. Nos dias de hoje, em que milhões padecem
as conseqüências dum novo tipo de totalitarismo disfarçado,
o do poder econômico inescrupuloso, torna-se atual a inspiração
original da festa – que Deus é o único Absoluto.
Num mundo que não ateu, mas idolátrico, pois presta culto
ao lucro, a festa de hoje nos desafia para que revejamos as nossas atitudes
e ações concretas – para descobrir o que é
para nós, na verdade, o valor absoluto das nossas vida.
O
texto é tirado da paixão segundo João – o
diálogo entre Jesus e Pilatos sobre a verdadeira identidade de
Jesus. Com a ironia que lhe é típico, João faz
com que Pilatos – o representante do poder absoluto da época,
o Império Romano - apresenta Jesus como Rei, o que ele é
na verdade, mas não da maneira que Pilatos possa entender. O
Reino de Jesus é o oposto do Reino do Império Romano –
não é opressor, nem injusto, nem idolátrico, mas
o Reino da justiça, fraternidade, solidariedade e partilha ,
o Reino do Deus da Vida.
E
é exatamente por ter semeado este Reino que Jesus deve morrer
– aliás não morrer, mas ser matado, o que é
diferente. Pilatos – como acontece nos outros evangelhos também
– demonstra isso quando ele diz quem entregou Jesus, pedindo a
sua morte. Não foi o povo, mas os sumos sacerdotes que o entregaram
(v. 35). É importante entender o que isso significa, pois se
Jesus foi matado, houve algum motivo, e houve alguém que o matasse.
Os sumos sacerdotes eram, no tempo de Jesus, todos nomeados pelos romanos,
dentro do partido dos saduceus, o partido da elite jerosalemita, donos
de terras e do comércio, e chefes do Templo. E o Templo funcionava
como Banco Central, centro de arrecadação de impostos,
e lugar de câmbio monetário, uma vez que não se
aceitava nele a moeda corrente. Jesus, portanto, foi assassinado pelo
poder político, econômico e religioso, coniventes com o
poder imperialista, representado por Pilatos. Pois o Reino de Deus se
opõe frontalmente com qualquer reino opressor, como era o de
Roma.
A
realidade vivida por Jesus continua hoje. O seguimento de Jesus, na
construção dum Reino de justiça e paz, do shalom
de Deus, necessariamente vai entrar em conflito com os reinos que dependem
da exploração e da injustiça. Normalmente, esses
poderes primeiro vão tentar cooptar a igreja, para que, em lugar
de ser voz profética diante das injustiças, torne-se porta-voz
dos valores desses reinos. E não faltarão incentivos,
monetários e outros, para que as igrejas caiem nesta cilada.
Por isso, como nos advertiram os textos nos últimos domingos,
é mister ficarmos sempre vigilantes, para verifiquemos se a nossa
vida prática está mais de acordo com o Reino de Deus ou
o reino de Pilatos.
Para
João, Jesus traz a grande crise da história. Diante da
verdade, que é Ele, todos têm que se posicionar. Ele, como
todo profeta, não causa a divisão, mas desmascara a divisão
que existe dentro da sociedade, a divisão entre o bem e o mal,
entre um projeto da morte e um projeto da vida, uma divisão que
permeia todos os elementos da sociedade. Diante dele, não há
lugar para meio-termo - todos têm que optar. Por isso, a nossa
festa de hoje, longe de ser algo triunfalista, nos desafia para que
façamos um exame de consciência – tanto individual
como eclesial e comunitário - para verificar se o nosso Rei é
realmente Jesus, ou se, mesmo duma maneira disfarçada, continua
sendo Pilatos!
Pe
Tomaz Hughes - SVD