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Congregação Missionária Servas do Espírito Santo - Província Stella Matutina - SP/SP


Domingo de Pentecostes - 08 de junho de 2003
"Todos ficaram repletos do Espírito Santo" - At 2,1-11 e Jo 20,19-23

Leitura (At 2,1-11)
Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se encontravam.
Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios de Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava.
Moravam em Jerusalém judeus devotos, de todo as nações do mundo. Quando ouviram o barulho, juntou-se a multidão, e todos ficaram confusos, pois cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua.
Cheios de espanto e admiração, diziam: "Esses homens que estão falando não são todos galileus? Como é que nós os escutamos na nossa própria língua? Nós que somos partos, medos e elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judéia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e da parte da Líbia próxima de Cirene, também romanos que aqui residem; judeus e prosélitos, cretenses e árabes, todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!" - Palavra do Senhor.

Evangelho (Jo 20,19-23)
Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: "A paz esteja convosco". Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor.
Novamente, Jesus disse: "A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio". E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: "Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos".- Palavra da Salvação

Reflexão da Leitura (At 2,1-11)
A liturgia de hoje nos apresenta a descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos, em duas tradições – as de Lucas (Atos) e da Comunidade do Discípulo Amado (João 20). Salta aos olhos que uma leitura fundamentalista da bíblia – infelizmente ainda muito comum entre nós – leva a gente a um beco sem saída, pois em João, a Ressurreição, a Ascensão e a descida do Espírito se deram no mesmo dia (Páscoa), enquanto Lucas separa os três eventos, num período de cinqüenta dias. Assim devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos dos diversos autores – os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de Jesus no deserto, para a sua missão. Pois como Jesus ficou "repleto do Espírito Santo" (Lc 4,1) e se lançou na sua missão "com a força do Espírito" (Lc 4, 14), a comunidade cristã se preparou durante o mesmo período, e na festa judaica de Pentecostes também experimentou que "todos ficaram repletos do Espírito Santo"(At 2,4).

Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão dum relato uniforme e coeso – mas isso se deve a habilidade literária do autor. Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições: a primeira está nos vv.1–4, uma tradição mais antiga e apocalíptica; a segunda está nos vv.5-11, mais profética e missionária.

Nos primeiros versículos, estamos no ambiente duma casa, onde os discípulos se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos, os Onze, as mulheres, entre as quais Maria a mãe de Jesus, e os irmãos do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas diferentes, do tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos estavam reunidos com "os mesmos sentimentos, e eram assíduos na oração"(At 1,14). Ou seja, a descida do Espírito não é algo mágico, mas conseqüência da unidade na fé e no seguimento do projeto de Jesus.

O primeiro relato (vv.1-4) usa imagens apocalípticas, símbolos da teofania, ou da manifestação da presença de Deus – o som dum vendaval e as línguas de fogo. A expressão externa da descida do Espírito é o "falar em outras línguas" (não o "falar em línguas"- glossolalia – tão valorizado por muitos grupos de cunho neo-pentecostal).

A segunda tradição, muda o enfoque. O ambiente muda, da casa para um lugar público – provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível da presença do Espírito não é mais o falar em outras línguas, mas o fato que todos os presentes pudessem "ouvir, na sua própria língua, os discípulos falarem"(At 1,6). O termo "ouvir" aqui implica também "compreender". Três vezes o relato destaca o fato dos presentes poderem "ouvir" na sua própria língua (vv.6.8.11). Assim Lucas quer enfatizar que o dom do Espirito Santo tem um objetivo missionarão e profético – de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem, que une todas as raças e culturas - ou seja, a do amor, da solidariedade, do projeto de Jesus, do Reino de Deus.

A lista dos presentes tem um sentido especial – estão mencionadas raças, áreas geográficas, culturas e religiões. E todos ouvem as maravilhas do Senhor. Lucas ensina que a aceitação do evangelho não exige deixar a identidade cultural. Contesta a dominação cultural, ou seja, a identificação do evangelho com uma cultura específica. Durante séculos, este fato foi esquecido nas Igrejas, e identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural européia. Nos últimos anos a Igreja tem insistido muito na necessidade da "inculturação", de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais das diversas raças e etnias. O texto é uma releitura da Torre de Babel, onde a língua única era o instrumento dum projeto de dominação (uma torre até o céu) que foi destruído por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou etnia pode identificar o evangelho com a sua expressão cultural dele.

Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação da Igreja duma seita judaica à uma comunidade universal, missionária mas não proselitista, comprometida com a construção do Reino de Deus "até os confins da terra". Mas Lucas insiste que a experiência de Pentecostes não se limita a um evento – é uma experiência contínua – por isso relata novas descidas do Espírito Santo: numa comunidade em oração numa casa (At 4,31), sobre os samaritanos (At 8,17), e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos, sobre os pagãos na casa do Cornélio (At 10,4). Pois o Espírito Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus. Aprendamos do texto de Atos, e celebremos a nossa vocação missionária, não de falar em línguas, mas de falar a língua única do amor e do compromisso com o Reino, para que a mensagem do evangelho penetre todos os povos, culturas, raças e etnias.

Reflexão do Evangelho (Jo 20,19-23)
No texto anterior ao de hoje, a Maria Madalena trouxe a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz que já tinha prometido na ultimo discurso. Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos – "A paz esteja com vocês". O nosso termo "paz" procura traduzir – embora duma maneira inadequada – o termo hebraico "Shalom!", que é muito mais do que "paz" conforme o nosso mundo a compreende. O "Shalom" é a paz que vem da presença de Deus, da justiça do Reino. Como disse o saudoso Papa Paulo VI "A justiça e o novo nome da paz!". Jesus não promete a paz do comodismo, mas pelo contrário envia os seus discípulos na missão árdua em favor do Reino, prometendo o shalom, pois ele nunca abandonará quem procura viver na fidelidade ao projeto de Deus.

Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo termo) sobre Adão quando infundiu nele o espírito de vida; Jesus os recria com o Espírito Santo.

Normalmente imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos em Pentecostes, mas aquilo era a descida oficial e pública do Espírito para dirigir a missão da Igreja no mundo. Para João, o dom do Espírito, que da sua natureza é invisível, flui da glorificação de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver com o perdão dos pecados.

Que a celebração nos anime para que busquemos a criação dum mundo onde realmente possa reinar o Shalom, não a paz falsa da opressão e injustiça, mas do Reino de Deus, fruto de justiça, solidariedade e fraternidade. Jesus nos deu o Espírito Santo – agora depende de nós usarmos essa força que temos, na construção do mundo que Deus quer.

Pe Tomaz Hughes - SVD

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