Página Principal
Contracapa
Congregação
Fundadores
Santos
Centenário
Past.Vocacional
Missão
Espiritualidade
Exp.Missionárias
Ref.Evangelho
JUPIC/Artigos
Notícias
Convento
Links
Contato

Congregação Missionária Servas do Espírito Santo - Província Stella Matutina - SP/SP


Natal - Missa da Vigília - 24 de dezembro de 2006
"E a Palavra se fez carne e habitou entre nós
" - Lucas 2,1-14

Evangelho
No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus.
No princípio estava ela com Deus. Tudo foi feito por ela, e sem ela nada se fez de tudo que foi feito.
Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la. Surgiu um homem enviado por Deus; seu nome era João. Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz: daquele que era a luz de verdade, que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano.
A Palavra estava no mundo — e o mundo foi feito por meio dela — mas o mundo não quis conhecê-la. Veio para o que era seu, e os seus não a acolheram.
Mas, a todos que a receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam em seu nome, pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do varão, mas de Deus mesmo.
E a Palavra se fez carne e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua glória, glória que recebe do Pai como Filho unigênito, cheio de graça e de verdade. - Palavra da Salvação

Reflexão do Evangelho
Apesar da sua mensagem ser quase abafada pela euforia do consumismo e materialismo que transforma a grande festa cristã do Natal do Senhor numa verdadeira orgia pagã de esbanjamento e exclusão, a história do nascimento do Senhor, contada nas palavras singelas de Lucas, perduram ainda com a sua mensagem profunda de paz, união, solidariedade e amor, que o paganismo pós-moderno da nossa sociedade é incapaz de ofuscar.

As Missas da vigília e da aurora usam dois textos contínuos da Lucas, que realmente formam um mosaico teológico de grande beleza, através da sua habilidade literária. Lucas pega as tradições que põe a origem de Maria e José em Nazaré e junto-as às que colocam o nascimento de Jesus em Belém, e as insere na história humana e universal, através das suas referências à grandes figuras históricas da época, César Augusto, Herodes o Grande e o governador da Síria, Quirino. Nesse contexto ele tece uma rede que contem oito dos seus temas preferidos – alimento, graça, alegria, pequenez, paz, salvação, “hoje”, e universalismo, para trazer à humanidade de todos os tempos “uma boa notícia, uma alegria para todo o povo”(2, 10).

Embora haja uma confusão sobre as referências cronológicos na Lucas, pois Quirino não foi governador no tempo de Herodes e não se tem informações extra-bíblicas sobre um recenseamento feito por Augusto, a finalidade de Lucas é situar o nascimento do Salvador bem dentro da história humana – e especialmente a história humana dos pobres e excluídos. Jesus nasce filho de viajantes, forcados a sair da sua casa pela força opressora do império, pois a finalidade dum recenseamento era alistar todos para cobrança de impostos. Assim o Messias nasce em condições subumanas e indignas – como nascem e se criam milhões de crianças todos os anos na nossa sociedade atual. Como não teve lugar para eles na “hospedaria”(um tipo de albergue para viajantes, onde os animais ficavam no pátio, no primeiro andar tinha cozinha comunitária e no segundo andar dormitórios, algo ainda comum em certos regiões do Oriente hoje), Maria dá à luz numa gruta ou estrebaria e deita Jesus numa manjedoura. O termo “manjedoura” vai aparecer três vezes no relato, levando diversos autores a interpretar essa ênfase como uma indicação que Jesus é o verdadeiro alimento para o mundo, enviado por Deus.

Logo Lucas introduz mais personagens tirados dos excluídos da religião e sociedade de então – os pastores. No tempo de Jesus eram considerados como delinqüentes, dispostos sempre ao roubo e à pilhagem, por isso não mereciam confiança alguma e nem podiam testemunhar em juízo. É importante notar que em Lucas são pessoas pertencentes a duas categorias proibidas de dar testemunho em juízo (pastores e mulheres) que Deus escolhe para testemunhar os dois eventos mais importantes da história – o nascimento e a ressurreição do Salvador. Natal se torna festa de inclusão dos que a religião oficial e a sociedade dominante excluía – enquanto a maioria da classe abastada da nossa sociedade atual celebra o Natal exatamente nos templos de consumo de hoje – os Shoppings, onde pessoas pobres são excluídas do banquete de poucos. Que contradição!!!

É importante também por em relevo a mensagem dos anjos: "Glória a Deus no alto, e na terra paz aos homens que ele ama” (v 14). Aqui Lucas cria um binômio – dois elementos conjugados, ou seja, uma maneira de dar glória a Deus no alto é a criação da paz entre as pessoas aqui na terra. Atrás do termo “paz” há um cabedal de reflexão teológica, vindo do Antigo Testamento. O nosso termo “paz” capta somente uma parte do que significava a palavra hebraica “Shalôm", que não se limita à uma mera ausência de violência física, mas inclui a realização de tudo que Deus deseja para os seus filhos e filhas. Portanto o texto natalino nos convida e desafia para que demos glória a Deus através do nosso esforço em criar um mundo de Shalôm – onde todos possam “ter a vida e a vida em abundância!”(cf Jo 10,10)

É importante também refletir como Lucas nos apresenta a pessoa da Maria neste texto. Enquanto todos os que ouviam os pastores “assombravam-se”(v. 18), “Maria porém conservava isso e meditava tudo em seu íntimo”(v 19). Dois textos do Antigo Testamento usam o mesmo verbo grego (synetèrein): Gn 37,11 e Dn 4, 28, para descrer a perplexidade íntima duma pessoa que procura entender o significado profundo dum fato. Assim Lucas enfatiza que Maria não captou de imediato todo o sentido do que ouviu, mas meditava as palavras, contemplando-as, para descobrir o seu significado. Maria cresceu na fé, acolhendo e discernindo o sentido profundo dos acontecimentos – se torna peregrina na fé, modelo para todos nós, nos convidando a nos mergulharmos nos relatos evangélicos, contemplando os mistérios da vida de Jesus e o que eles podem significar para nós hoje.

A festa de Natal é uma oportunidade ímpar para nos aprofundarmos no sentido do amor de Deus por nós, expressado na Encarnação. Mas, se fizermos dele somente uma festa de consumismo e materialismo, jamais colheremos os seus frutos. Sem deixar do lado o seu lado lúdico, familiar e festivo, cuidemos para não sermos seduzidos pelos ídolos do ter e do prazer tão bem promovidos pelo marketing dos Shoppings – mas retornemos à singeleza da gruta de Belém e redescubramos o motivo duma verdadeira “alegria para todo o povo”, - nasceu para nos o Salvador!

Pe. Tomaz Hughes - SVD

Evangelistas