Evangelho
No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a
Palavra era Deus.
No princípio estava ela com Deus. Tudo foi feito por ela, e sem
ela nada se fez de tudo que foi feito.
Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha nas
trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la. Surgiu
um homem enviado por Deus; seu nome era João. Ele veio como testemunha,
para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé
por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho
da luz: daquele que era a luz de verdade, que, vindo ao mundo, ilumina
todo ser humano.
A Palavra estava no mundo — e o mundo foi feito por meio dela
— mas o mundo não quis conhecê-la. Veio para o que
era seu, e os seus não a acolheram.
Mas, a todos que a receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos
de Deus, isto é, aos que acreditam em seu nome, pois estes não
nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do varão,
mas de Deus mesmo.
E a Palavra se fez carne e habitou entre nós. E nós contemplamos
a sua glória, glória que recebe do Pai como Filho unigênito,
cheio de graça e de verdade. - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Apesar da sua mensagem ser quase abafada pela euforia do consumismo
e materialismo que transforma a grande festa cristã do Natal
do Senhor numa verdadeira orgia pagã de esbanjamento e exclusão,
a história do nascimento do Senhor, contada nas palavras singelas
de Lucas, perduram ainda com a sua mensagem profunda de paz, união,
solidariedade e amor, que o paganismo pós-moderno da nossa sociedade
é incapaz de ofuscar.
As Missas da vigília e da aurora usam dois textos contínuos
da Lucas, que realmente formam um mosaico teológico de grande
beleza, através da sua habilidade literária. Lucas pega
as tradições que põe a origem de Maria e José
em Nazaré e junto-as às que colocam o nascimento de Jesus
em Belém, e as insere na história humana e universal,
através das suas referências à grandes figuras históricas
da época, César Augusto, Herodes o Grande e o governador
da Síria, Quirino. Nesse contexto ele tece uma rede que contem
oito dos seus temas preferidos – alimento, graça, alegria,
pequenez, paz, salvação, “hoje”, e universalismo,
para trazer à humanidade de todos os tempos “uma boa notícia,
uma alegria para todo o povo”(2, 10).
Embora haja uma confusão sobre as referências cronológicos
na Lucas, pois Quirino não foi governador no tempo de Herodes
e não se tem informações extra-bíblicas
sobre um recenseamento feito por Augusto, a finalidade de Lucas é
situar o nascimento do Salvador bem dentro da história humana
– e especialmente a história humana dos pobres e excluídos.
Jesus nasce filho de viajantes, forcados a sair da sua casa pela força
opressora do império, pois a finalidade dum recenseamento era
alistar todos para cobrança de impostos. Assim o Messias nasce
em condições subumanas e indignas – como nascem
e se criam milhões de crianças todos os anos na nossa
sociedade atual. Como não teve lugar para eles na “hospedaria”(um
tipo de albergue para viajantes, onde os animais ficavam no pátio,
no primeiro andar tinha cozinha comunitária e no segundo andar
dormitórios, algo ainda comum em certos regiões do Oriente
hoje), Maria dá à luz numa gruta ou estrebaria e deita
Jesus numa manjedoura. O termo “manjedoura” vai aparecer
três vezes no relato, levando diversos autores a interpretar essa
ênfase como uma indicação que Jesus é o verdadeiro
alimento para o mundo, enviado por Deus.
Logo Lucas introduz mais personagens tirados dos excluídos da
religião e sociedade de então – os pastores. No
tempo de Jesus eram considerados como delinqüentes, dispostos sempre
ao roubo e à pilhagem, por isso não mereciam confiança
alguma e nem podiam testemunhar em juízo. É importante
notar que em Lucas são pessoas pertencentes a duas categorias
proibidas de dar testemunho em juízo (pastores e mulheres) que
Deus escolhe para testemunhar os dois eventos mais importantes da história
– o nascimento e a ressurreição do Salvador. Natal
se torna festa de inclusão dos que a religião oficial
e a sociedade dominante excluía – enquanto a maioria da
classe abastada da nossa sociedade atual celebra o Natal exatamente
nos templos de consumo de hoje – os Shoppings, onde pessoas pobres
são excluídas do banquete de poucos. Que contradição!!!
É importante também por em relevo a mensagem dos anjos:
"Glória a Deus no alto, e na terra paz aos homens que ele
ama” (v 14). Aqui Lucas cria um binômio – dois elementos
conjugados, ou seja, uma maneira de dar glória a Deus no alto
é a criação da paz entre as pessoas aqui na terra.
Atrás do termo “paz” há um cabedal de reflexão
teológica, vindo do Antigo Testamento. O nosso termo “paz”
capta somente uma parte do que significava a palavra hebraica “Shalôm",
que não se limita à uma mera ausência de violência
física, mas inclui a realização de tudo que Deus
deseja para os seus filhos e filhas. Portanto o texto natalino nos convida
e desafia para que demos glória a Deus através do nosso
esforço em criar um mundo de Shalôm – onde todos
possam “ter a vida e a vida em abundância!”(cf Jo
10,10)
É importante também refletir como Lucas nos apresenta
a pessoa da Maria neste texto. Enquanto todos os que ouviam os pastores
“assombravam-se”(v. 18), “Maria porém conservava
isso e meditava tudo em seu íntimo”(v 19). Dois textos
do Antigo Testamento usam o mesmo verbo grego (synetèrein): Gn
37,11 e Dn 4, 28, para descrer a perplexidade íntima duma pessoa
que procura entender o significado profundo dum fato. Assim Lucas enfatiza
que Maria não captou de imediato todo o sentido do que ouviu,
mas meditava as palavras, contemplando-as, para descobrir o seu significado.
Maria cresceu na fé, acolhendo e discernindo o sentido profundo
dos acontecimentos – se torna peregrina na fé, modelo para
todos nós, nos convidando a nos mergulharmos nos relatos evangélicos,
contemplando os mistérios da vida de Jesus e o que eles podem
significar para nós hoje.
A festa de Natal é uma oportunidade ímpar para nos aprofundarmos
no sentido do amor de Deus por nós, expressado na Encarnação.
Mas, se fizermos dele somente uma festa de consumismo e materialismo,
jamais colheremos os seus frutos. Sem deixar do lado o seu lado lúdico,
familiar e festivo, cuidemos para não sermos seduzidos pelos
ídolos do ter e do prazer tão bem promovidos pelo marketing
dos Shoppings – mas retornemos à singeleza da gruta de
Belém e redescubramos o motivo duma verdadeira “alegria
para todo o povo”, - nasceu para nos o Salvador!