Evangelho
No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a
Palavra era Deus.
No princípio estava ela com Deus. Tudo foi feito por ela, e sem
ela nada se fez de tudo que foi feito.
Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha nas
trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la. Surgiu
um homem enviado por Deus; seu nome era João. Ele veio como testemunha,
para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé
por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho
da luz: daquele que era a luz de verdade, que, vindo ao mundo, ilumina
todo ser humano.
A Palavra estava no mundo — e o mundo foi feito por meio dela
— mas o mundo não quis conhecê-la. Veio para o que
era seu, e os seus não a acolheram.
Mas, a todos que a receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos
de Deus, isto é, aos que acreditam em seu nome, pois estes não
nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do varão,
mas de Deus mesmo.
E a Palavra se fez carne e habitou entre nós. E nós contemplamos
a sua glória, glória que recebe do Pai como Filho unigênito,
cheio de graça e de verdade. - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Esta passagem é típica do estilo de Lucas, e contém
muito material peculiar a ele. Ele toma as tradições de
que Maria e José eram de Nazaré e que Jesus nasceu em
Belém, liga-as com as figuras de Augusto, Herodes o Grande e
o Governador Quirino, e através destas figuras tece um texto
que une oito dos seus temas favoritos: “comida”, “graça”,
“alegria”, “pequenez”, “paz”, “salvação”,
“hoje”, e “universalismo”. Lucas é um
verdadeiro artista das palavras evangélicas!
Este trecho pode ser subdivido assim:
1) O contexto histórico e o nascimento de Jesus - 2,1-7
2) Pronunciamentos angélicos explicando o sentido de Jesus -
2,8-14
3) Respostas aos pronunciamentos dos anjos - 2,15-20
A chave para a compreensão do texto se acha nos versículos
11-14. Aqui Lucas apresenta Jesus como o Messias davídico que
trará o dom escatológico de paz, o Shalom de Deus. Assim
ele faz contraste com a figura de César Augusto. Na impotência
da sua infância, Jesus é o Salvador que traz a verdadeira
paz, em contraste com o poderoso Augusto, que era celebrado no culto
oficial imperial como o fundador dum reino de paz, a “Pax Romana”.
O “Shalôm” é na verdade o contrário
da “Pax Romana” como hoje seria o oposto da pretensa “paz”
imposta pelos canhões e bombardeiros da força militar
prepotente – a “Pax Americana!”. Esta revelação
da parte dos anjos é recebida e aceita pelos humildes pastores,
e meditada por Maria, modelo de fé e dos discípulos, que
terão que meditar e aprofundar o sentido de Jesus para eles,
sem cessar!
Desde a Idade Média, o presépio tem mantido o seu lugar
como um dos símbolos mais caros aos cristãos. Porém,
é bom não deixar que a cena do nascimento de Jesus se
torne uma cena somente sentimental, com lembranças saudosas da
nossa infância! O relato quer sublinhar a opção
de Deus que se encarnou como pobre, sem as mínimas condições
para um parto digno. Em nosso presépio, até os bois e
o asno tomaram banho! A realidade de nascer numa gruta ou estribaria
era diferente!! Jesus nasce em condições semelhantes a
milhões de pobres e excluídos pelo mundo afora, nos dias
de hoje!! É mais uma manifestação da fraqueza de
Deus, que é mais forte do que os homens!! (cf I Cor 1, 25).
Diferente de Mateus - que tem outros interesses teológicos -
os protagonistas desta cena são os pastores. Na época
eles eram considerados gente desqualificada, marginais, sujos, ritualmente
impuros. Mas é para essa gente que os anjos revelam o sentido
do acontecido e são eles os primeiros a encontrar Jesus recém-nascido.
Assim, em Lucas, são pessoas à margem da sociedade que
testemunham o nascimento de Jesus, e igualmente são pessoas desqualificadas
que são as testemunhas da Ressurreição - as mulheres!
Lucas não perde uma oportunidade para destacar a opção
preferencial de Deus pelos pobres e humilhados!
O trecho continua com mais três ênfases tipicamente lucanas
- “não ter medo”, “sentir e expressar alegria”
e o termo “hoje”. Os ouvintes poderão ter coragem
e alegria, porque a salvação de Deus irrompe no mundo
“hoje” - não numa data futura distante. Esta idéia
volta diversas vezes - na sinagoga, depois de fazer a leitura de Isaías,
Jesus dirá que “hoje cumpriu-se essa passagem” (4,21);
ao condenado na cruz, Jesus garante que “hoje estará comigo
no paraíso”(23,43). O reino da salvação está
sendo inaugurado, e por Jesus, na fraqueza da exclusão social,
e não por César, com toda a pompa da corte e das armas!
Numa manjedoura, e não num palácio imperial! Por parte
de quem carece de força e prestígio, e não pelos
poderosos e fortes do mundo!
Os pastores não somente testemunham a presença do recém-nascido
em Belém, mas anunciam o que disseram os anjos (v.17). Essa Boa-Notícia
complementa o que foi já anunciado à Maria em 1,31-33,
por Maria em 1,46-45, e por Zacarias em 1,68-79. É muito significante
o termo que Lucas emprega para descrever a reação de Maria:
“Maria, porém, conservava todos esses fatos, e meditava
sobre eles em seu coração” (v.19).
Aqui Lucas retrata, através de Maria, a atitude do/a discípulo/a
diante dos mistérios de Deus, revelados em Jesus - Maria não
capta o significado pleno dos eventos e os rumina no seu íntimo.
A idéia volta de novo em Lc 2,51:
“Sua mãe conservava no coração todas esses
coisas”.
É uma maneira de apontar para a caminhada de fé que Maria
trilhou - e que todos nós, que não captamos o sentido
pleno da ação de Deus em nossas vidas, teremos que andar.
O texto encerra afirmando que os pobres e marginalizados - personificados
nos pastores:
“voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam
visto e ouvido”(v.20)
Qualquer celebração de Natal que não dê para
os oprimidos motivo para alegria, coragem e louvor a Deus, pode ser
tudo, menos uma celebração cristã!