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Congregação Missionária Servas do Espírito Santo - Província Stella Matutina - SP/SP


Natal - Missa da Vigília - 25 de dezembro de 2005
"E a Palavra se fez carne e habitou entre nós
" - Lucas 2,1-14

Evangelho
No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus.
No princípio estava ela com Deus. Tudo foi feito por ela, e sem ela nada se fez de tudo que foi feito.
Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la. Surgiu um homem enviado por Deus; seu nome era João. Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz: daquele que era a luz de verdade, que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano.
A Palavra estava no mundo — e o mundo foi feito por meio dela — mas o mundo não quis conhecê-la. Veio para o que era seu, e os seus não a acolheram.
Mas, a todos que a receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam em seu nome, pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do varão, mas de Deus mesmo.
E a Palavra se fez carne e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua glória, glória que recebe do Pai como Filho unigênito, cheio de graça e de verdade. - Palavra da Salvação

Reflexão do Evangelho
Esta passagem é típica do estilo de Lucas, e contém muito material peculiar a ele. Ele toma as tradições de que Maria e José eram de Nazaré e que Jesus nasceu em Belém, liga-as com as figuras de Augusto, Herodes o Grande e o Governador Quirino, e através destas figuras tece um texto que une oito dos seus temas favoritos: “comida”, “graça”, “alegria”, “pequenez”, “paz”, “salvação”, “hoje”, e “universalismo”. Lucas é um verdadeiro artista das palavras evangélicas!
Este trecho pode ser subdivido assim:

1) O contexto histórico e o nascimento de Jesus - 2,1-7
2) Pronunciamentos angélicos explicando o sentido de Jesus - 2,8-14
3) Respostas aos pronunciamentos dos anjos - 2,15-20

A chave para a compreensão do texto se acha nos versículos 11-14. Aqui Lucas apresenta Jesus como o Messias davídico que trará o dom escatológico de paz, o Shalom de Deus. Assim ele faz contraste com a figura de César Augusto. Na impotência da sua infância, Jesus é o Salvador que traz a verdadeira paz, em contraste com o poderoso Augusto, que era celebrado no culto oficial imperial como o fundador dum reino de paz, a “Pax Romana”. O “Shalôm” é na verdade o contrário da “Pax Romana” como hoje seria o oposto da pretensa “paz” imposta pelos canhões e bombardeiros da força militar prepotente – a “Pax Americana!”. Esta revelação da parte dos anjos é recebida e aceita pelos humildes pastores, e meditada por Maria, modelo de fé e dos discípulos, que terão que meditar e aprofundar o sentido de Jesus para eles, sem cessar!
Desde a Idade Média, o presépio tem mantido o seu lugar como um dos símbolos mais caros aos cristãos. Porém, é bom não deixar que a cena do nascimento de Jesus se torne uma cena somente sentimental, com lembranças saudosas da nossa infância! O relato quer sublinhar a opção de Deus que se encarnou como pobre, sem as mínimas condições para um parto digno. Em nosso presépio, até os bois e o asno tomaram banho! A realidade de nascer numa gruta ou estribaria era diferente!! Jesus nasce em condições semelhantes a milhões de pobres e excluídos pelo mundo afora, nos dias de hoje!! É mais uma manifestação da fraqueza de Deus, que é mais forte do que os homens!! (cf I Cor 1, 25).
Diferente de Mateus - que tem outros interesses teológicos - os protagonistas desta cena são os pastores. Na época eles eram considerados gente desqualificada, marginais, sujos, ritualmente impuros. Mas é para essa gente que os anjos revelam o sentido do acontecido e são eles os primeiros a encontrar Jesus recém-nascido. Assim, em Lucas, são pessoas à margem da sociedade que testemunham o nascimento de Jesus, e igualmente são pessoas desqualificadas que são as testemunhas da Ressurreição - as mulheres! Lucas não perde uma oportunidade para destacar a opção preferencial de Deus pelos pobres e humilhados!
O trecho continua com mais três ênfases tipicamente lucanas - “não ter medo”, “sentir e expressar alegria” e o termo “hoje”. Os ouvintes poderão ter coragem e alegria, porque a salvação de Deus irrompe no mundo “hoje” - não numa data futura distante. Esta idéia volta diversas vezes - na sinagoga, depois de fazer a leitura de Isaías, Jesus dirá que “hoje cumpriu-se essa passagem” (4,21); ao condenado na cruz, Jesus garante que “hoje estará comigo no paraíso”(23,43). O reino da salvação está sendo inaugurado, e por Jesus, na fraqueza da exclusão social, e não por César, com toda a pompa da corte e das armas! Numa manjedoura, e não num palácio imperial! Por parte de quem carece de força e prestígio, e não pelos poderosos e fortes do mundo!
Os pastores não somente testemunham a presença do recém-nascido em Belém, mas anunciam o que disseram os anjos (v.17). Essa Boa-Notícia complementa o que foi já anunciado à Maria em 1,31-33, por Maria em 1,46-45, e por Zacarias em 1,68-79. É muito significante o termo que Lucas emprega para descrever a reação de Maria:

“Maria, porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração” (v.19).

Aqui Lucas retrata, através de Maria, a atitude do/a discípulo/a diante dos mistérios de Deus, revelados em Jesus - Maria não capta o significado pleno dos eventos e os rumina no seu íntimo. A idéia volta de novo em Lc 2,51:

“Sua mãe conservava no coração todas esses coisas”.

É uma maneira de apontar para a caminhada de fé que Maria trilhou - e que todos nós, que não captamos o sentido pleno da ação de Deus em nossas vidas, teremos que andar. O texto encerra afirmando que os pobres e marginalizados - personificados nos pastores:

“voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido”(v.20)

Qualquer celebração de Natal que não dê para os oprimidos motivo para alegria, coragem e louvor a Deus, pode ser tudo, menos uma celebração cristã!

Pe. Tomaz Hughes - SVD

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