Evangelho
Naquele tempo, as multidões perguntavam a João: "Que
devemos fazer?" João respondia: "Quem tiver túnicas
dê uma a quem não tem; e quem tiver comida faça
o mesmo!"
Foram também para o batismo cobradores de impostos, e perguntaram
a João: "Mestre, que devemos fazer?" João respondeu:
"Não cobreis mais do que foi estabelecido".
Havia também soldados que perguntavam: "E nós, que
devemos fazer?" João respondia: "Não tomeis
à força dinheiro de ninguém, nem façais
falsas acusações; ficai satisfeitos com o vosso salário!"
O povo estava na expectativa e todos se perguntavam no seu íntimo
se João não seria o Messias. Por isso, João declarou
a todos:
"Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é
mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia
de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito
Santo e no fogo. Ele virá com a pá na mão: vai
limpar sua eira e recolher o trigo no celeiro; mas a palha, ele a queimará
no fogo que não se apaga".
E ainda de muitos outros modos João anunciava ao povo a boa nova.
- Palavra da Salvação
Reflexão
do Evangelho
Esta passagem trata da pregação de João Batista,
que: "Percorria toda a região do rio Jordão, pregando
um batismo de conversão para o perdão dos pecados"(v.3)
O
início do texto de hoje, versículos 10-14, que constam
somente em Lucas, mostra bem a sua teologia e contexto - não
são os líderes religiosos que estão prontos para
arrepender-se, mas o povo comum, e até pessoas que estavam à
margem da sociedade, - como cobradores de impostos e soldados. Mais
adiante no Evangelho, são estas as pessoas que vão responder
positivamente diante da pregação do próprio Jesus.
Escrevendo para as comunidades pelo ano 80-85 d.C., Lucas quer lembrar
aos cristãos que eles também devam estar abertos para
achar sinceridade e bondade fora das vias "aceitáveis"-
como fizeram João e Jesus!
A
frase lapidar do trecho é a pergunta que os diversos grupos formulam
para João: "O que devemos fazer?" Esta pergunta aparece
mais vezes no Terceiro Evangelho, em Lc 10, 25 (na boca dum doutor da
Lei) e Lc 18,18 (uma pessoa importante), e também nos Atos dos
Apóstolos: At 2,37 (os judeus depois da pregação
do Pedro), At 16,30 (o carcereiro gentio de Filipos), At 22,10 (Saulo,
o perseguidor). Usando este artifício, Lucas quer salientar que
é uma pergunta que tem que ser feita constantamente durante a
nossa caminhada. Não há cristão que possa se dispensar
de fazê-la sempre, por achar que já sabe a resposta.
É
interessante que João, embora uma pessoa de cunho fortemente
ascético, não exige sacrifícios, ou práticas
religiosos como jejum e abstinência. Ela enfatiza uma exigência
muito mais radical, que atinge o cerne do nosso ser - uma preocupação
com os mais pobres, manifestada na busca de justiça e solidariedade.
A Campanha da Fraternidade segue esta linha de João - pois muitas
vezes é mais fácil abster duma carne ou uma bebida do
que engajar-se na luta por um mundo melhor.
Este
trecho traz à tona mais uma vez um dos temas principais do Evangelho
de Lucas - o uso correto dos bens materiais. No fundo, João aqui
prega antecipadamente o que mais tarde Jesus vai ensinar - a partilha
dos bens com as pessoas que sofrem necessidades, a justiça nos
relacionamentos econômicos e políticos, a conversão
que se manifesta numa mudança radical da vida.
A
segunda parte da passagem insiste que João é inferior
a Jesus. João batiza com água como agente de purificação,
mas Jesus usará a força purificadora maior do Espírito
Santo e do fogo. Lucas vai mostrar em Atos 2 - na história de
Pentecostes - como o fogo do Espírito Santo cumpre a sua missão
nas pessoas.
E
o texto termina com a declaração que "João
anunciava a Boa Notícia ao povo de muitos outros modos"(v.18).
O que João prega é tão semelhante ao que Jesus
pregará que também merece ser taxado de "Boa Notícia".
A boa notícia da chegada da misericórdia e da salvação
de Deus duma forma gratuita, mas que exige resposta de cada pessoa.
É a crise existencial do mundo todo - aceitar ou rejeitar a salvação
oferecida gratuitamente em Jesus. E para Lucas, esta decisão
tem que ser renovada sempre, através da pergunta "o que
devemos fazer", enquanto continuamos andando "pelo caminho"!
Pe.
Tomaz Hughes - SVD