Evangelho
E eis que um legista se levantou e disse para experimentá-lo:
Mestre, que farei para herdar a vida eterna?" Ele disse "Que
está escrito na lei? Como lês?" Ele, então,
respondeu: "Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração,
de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento;
e a teu próximo como a ti mesmo". Jesus disse: "Respondeste
corretamente; faze isso e viverás".
Ele,
porém, querendo se justificar, disse a Jesus: "E quem é
meu próximo?" Jesus retomou: "Um homem descia de Jerusalém
a Jericó, e caiu no meio de assaltantes que, após havê-lo
despojado e espancado, foram-se, deixando-o semimorto. Casualmente,
descia por esse caminho um sacerdote; viu-o e prosseguiu. Certo samaritano
em viagem, porém, chegou junto dele, viu-o e moveu-se de compaixão.
Aproximou-se, cuidou de suas chagas, derramando óleo e vinho,
depois colocou-o em seu próprio animal, conduziu-o à hospedaria
e dispensou-lhe cuidados. No dia seguinte, tirou dois denários
e deu-os ao hospedeiro, dizendo: "Cuida dele, e o que gastares
a mais, em meu regresso te pagarei". Qual dos três, em tua
opinião, foi o próximo do homem que caiu nas mãos
dos assaltantes?" Ele respondeu: "Aquele que usou de misericórdia
para com ele". Jesus então lhes disse: "Vai, e também
tu, faze o mesmo". - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
A parábola do “Bom Samaritano” talvez seja, junto
com a do “Filho Pródigo”, a mais conhecida de todas
as parábolas de Jesus. Por isso mesmo, corre o risco de ser banalizada,
de não ser levada muito a sério, de ser relegada quase
ao nível de folclore religioso. Merece uma atenção
mais minuciosa.
A parábola situa-se logo após Jesus ter louvado o Pai
por ter “escondido essas coisas aos sábios e inteligentes
e revelado aos pequeninos” ( cf. Lc 10 ,21). Realmente, o primeiro
a tentar atrapalhar Jesus é um “sábio e inteligente”
- um especialista em leis. Lucas salienta que ele fez a pergunta “O
que devo fazer para receber em herança a vida eterna”(
v 25), não porque ele se interessava pela verdade, mas “para
tentar Jesus”. Devolvendo a pergunta a ele, Jesus deixa claro
que o legista já sabia a resposta:“Ame o Senhor, se Deus,
como todo o seu coração, com toda a sua alma, como toda
a sua força e com toda a sua mente; e ao seu próximo como
a si mesmo.” Jesus simplesmente diz: “Você respondeu
certo. Faça isso e viverá”( v 28)
Mas com a petulância típica do pseudo-intelectual, ele
insiste, “para se justificar”, com uma segunda pergunta:
“E quem é o meu próximo?”( v29). Mas Jesus
não cai na cilada de fazer uma discussão teórica
e estéril sobre quem seja o próximo - ele logo traz o
debate para o nível prático da vivência. Ele conta
a parábola do “Bom Samaritano”. Vejamos.
Depois do assalto, passou pela vítima um sacerdote que “viu
o homem e passou adiante pelo outro lado”( v.31) . A mesma coisa
aconteceu com um levita. Porque será que esses homens - ligados
ao culto judaico - agiram assim? A resposta está nas leis de
pureza daquela época. O contato com um defunto, ou com sangue,
deixava a pessoa ritualmente impura, isso é, inapta para participar
do culto. Como o homem estava coberto de sangue, e talvez morto, estes
dois não se arriscavam a tocar nele, pois para eles o culto religioso
era mais importante do que a misericórdia para com uma pessoa
sofrida.
Entra em cena um samaritano. A religião dele era considerada
como cheia de deformações e ignorância pelo judaísmo
oficial, pois desde a invasão da Assíria em 721 a.C. a
sua prática religiosa tinha sido contaminada por religiões
pagãs (cf. 2 Rs 17,24-31). Mas quando ele vê o sofrimento
alheio, ele não pensa em discussões teológicas
sobre pureza, mas parte para uma ajuda prática, com misericórdia.
Terminando a história, Jesus devolve a pergunta ao especialista
em leis - mas faz uma mudança fundamental! Não faz a pergunta
teórica “quem é o meu próximo”, mas
uma pergunta prática “quem se fez próximo do homem
que caiu nas mãos dos assaltantes?” A primeira pergunta
só levaria à uma discussão vazia; a de Jesus leva
à uma mudança de prática vivencial.
Forçado a reconhecer que quem se fez próximo do sofredor
era o samaritano, o legista ouviu da boca de Jesus a conclusão:“Vá
e faça a mesma coisa”( v. 37).
Com esta parábola, Jesus quer ensinar que nada, nem o culto,
tem prioridade sobre o ajuda a uma pessoa necessitada. A religião
de Jesus não é teoria, é prática de misericórdia,
pois Deus é misericordioso. O legista já sabia a orientação
da Escritura, mas tentava escapar das suas conseqüências,
criando discussões inúteis. Nós também sabemos
o que diz a Bíblia, - não tentemos esvaziá-la com
debates estéreis sobre quem é “o pobre”, “o
aflito”, “o próximo”, “o bom”.
Façamos o que Jesus ensina nesta parábola “e viveremos”.