Evangelho
Estando em viagem, entrou num povoado, e certa mulher, chamada Marta,
recebeu-o em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, ficou sentada
aos pés do Senhor, escutando-lhe a palavra. Marta estava ocupada
pelo muito serviço. Parando, por fim, disse: "Senhor, a
ti não importa que minha irmã me deixe assim sozinha a
fazer o serviço? Dize-lhe, pois, que me ajude". O Senhor,
porém, respondeu: "Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas
por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária,
até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor
parte, que não lhe será tirada." - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Mais uma vez, o Evangelho de Lucas destaca o fato que Jesus e os seus
discípulos caminhavam. É caminhando que se faz caminho,
e é no caminho que se aprende o que é ser discípulo
de Jesus. Todos nós estamos no caminho, como Jesus e os outros,
só que a nossa caminhada não se mede em quilômetros
mas em anos!
O Evangelho de hoje frisa muito o lado afetivo de Jesus e dos seus discípulos
e discípulas. Jesus se dirige à casa duma família
em Betânia, perto de Jerusalém. Era o lugar predileto onde
Jesus procurava - e recebia - aconchego humano, carinho, afeto, amizade,
acolhimento; onde podia refazer as suas forças nas suas caminhadas
evangelizadoras. Do Evangelho do Discípulo Amado aprendemos que:
“Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro”
(Jo 11,5). Este tipo de relacionamento humano é necessário
para que formemos verdadeiras comunidades cristãs - e quantas
vezes dispensamos este elemento fundamental.
É gritante a diferença de gênio das duas irmãs!
Marta, provavelmente a mais velha, preocupada com os seus afazeres -
afinal tinha chegado treze hóspedes para uma refeição,
e tinham que ser bem tratados; Maria, calma, sente-se aos pés
do Senhor, para escutar a Palavra. De repente, ressoa o desabafo de
Marta: “Senhor, não te importas que minha irmã me
deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela venha ajudar-me!”
(v. 40). Instintivamente, a nossa simpatia fica com a Marta. Qual é
a mãe da família, a dona de casa ou o anfitrião
de visita que não sentiria o que Marta sentia? Por isso mesmo,
chama a atenção a resposta do Senhor: “Marta, Marta!
Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas; porém
uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor
parte, e esta não lhe será tirada.”( V. 41s).
Uma coisa é óbvia - Jesus não está defendendo
a preguiça, a omissão, a exploração do trabalho
dos outros! Num mundo agitado como é o nosso, que não
nos deixa tempo para cultivar o relacionamento humano, a amizade, a
oração, o nosso próprio ser, esta resposta nos
faz lembrar a importância de viver duma maneira que prioriza as
coisas. É óbvio que nós temos que nos preocuparmos
com os afazeres, os trabalhos, - mas na verdade, quantas vezes nós
enchemos os nossos dias com ativismo, atividades fúteis, agitação,
- e assim não conseguimos escutar nem nós mesmos, nem
os irmãos, nem o próprio Deus!
Jesus aqui questiona a agitação e o ativismo - que não
se mede pelo número de atividades. O ativismo é uma fuga,
uma fuga dum encontro com os anseios mais profundos do nosso ser, dos
apelos de Deus, refugiando-nos num número sem fim de atividades
sem objetivos claros, sem organização, sem rumo. A atitude
de Maria é a duma discípula, que aprende viver de maneira
nova, ouvindo e ruminando a Palavra de Deus, uma palavra que pode levar
à muita atividade, mas nunca ao ativismo.
Jesus de forma alguma quer menosprezar a Marta. Aliás, diversas
vezes os evangelhos põe Marta em mais relevo do que Maria. O
próprio Lucas diz que foi Marta que recebeu Jesus na sua casa
(v.38). Em João, é Marta que faz a profissão de
fé em Jesus, que nos Sinóticos é feita por Pedro:
“Sim, Senhor. Eu acredito que tu és o Messias, o Filho
de Deus que devia vir a este mundo”( Jo 11,27).Na realidade, todos
nós temos que ser “Marta e Maria”. Temos necessidade
de nos dedicarmos aos nossos afazeres, mas também é preciso
achar tempo para ficarmos aos pés do Senhor. O desafio é
de conseguir o equilíbrio entre os dois aspectos de vida, entre
“lançar as redes” e “consertar as redes”(cf.
Mc 1,16-120), entre “atividade” e “oração”,
entre “missão” e “interiorização”.
Pois os dois lados são tão intimamente ligados que o desequilíbrio,
do lado que for, trará conseqüências negativas para
a nossa vida de discípulos e discípulas.