Evangelho
Naquele tempo, alguém, do meio da multidão, disse a Jesus:
“Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança
comigo”. Jesus respondeu: “Homem, quem me encarregou de
julgar ou de dividir vossos bens?” E disse-lhes: “Atenção!
Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que
alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste
na abundância de bens”.
E contou-lhes uma parábola: “A terra de um homem rico deu
uma grande colheita. Ele pensava consigo mesmo: ‘O que vou fazer?
Não tenho onde guardar minha colheita’.
Então resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar
meus celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo,
junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Meu
caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe,
aproveita!’
Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Ainda nesta noite, pedirão
de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?’
Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não
é rico diante de Deus”. - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Mais uma vez, deparamos com um dos temas favoritos de Lucas - o combate
à ganância, em todas as suas formas, especialmente dentro
da comunidade dos discípulos de Jesus. A parábola de hoje
só se encontra neste Evangelho, sublinhando assim o interesse
de Lucas pelo assunto.
Ressoa com todas as letras a advertência de Jesus para os seus
discípulos: “Atenção! Tenham cuidado com
qualquer tipo de ganância.”(V. 15b). Com certeza, a caminhada
de mais ou menos cinqüenta anos das comunidades cristãs
tinha mostrado que os cristãos não eram isentos da tentação
da acumulação de bens, e do individualismo. Cumpre assinalar
que o evangelho não nega o valor nem a necessidade de bens materiais.
Afinal, sem eles, não seria possível ter uma vida digna
e humana - o que Deus quer para todos os seus filhos e filhas. A luta
não é contra os bens, mas contra a ganância, o egoísmo,
a acumulação, a confiança no aumento dos bens como
valor supremo das nossas vidas.
Se foi importante fazer esta advertência há quase dois
mil anos, quanto mais hoje, quando nós vivemos mergulhados num
mundo de consumismo e materialismo; quando se prega o “evangelho”
da competitividade e acumulação; onde os profetas do projeto
neo-liberal da exclusão entram todos os dias em nossos lares,
através da televisão; onde a meta do sistema é
concentrar cada vez mais bens nas mãos duma elite privilegiada,
excluindo cada vez mais pessoas que não podem competir. Como
nós cristãos vivemos mergulhados neste ambiente, acontece
muitas vezes que, sem dar conta do fato, nós o assimilamos, como
por osmose, diluindo o evangelho da fraternidade e solidariedade, e
reduzindo a prática religiosa ao âmbito individual e intimista,
tirando dela a sua força transformadora.
O rico da parábola muito bem poderia representar a ideologia
do sistema vigente dos nossos dias. Chama a atenção o
número de vezes que ele usa as palavras “eu”, “meu”
“minha” - é um homem totalmente fechado no seu mundinho,
fechado sobre si, sem sensibilidade diante dos sofrimentos e necessidades
dos irmãos e irmãs.
E Jesus o chama de “louco” - não por ter o suficiente
para viver bem, nem por alegrar-se com este fato, mas por colocar o
sentido da sua vida na acumulação de riquezas, achando
que isso lhe traria a felicidade por si. A pergunta que Jesus faz: “E
as coisas que você preparou, para quem vão ficar?”(v.20),
levanta a pergunta fundamental que todos nós temos que responder:
qual é o sentido da nossa vida? O que é realmente importante?
Sobre o que baseamos a nossa felicidade? Pois tudo passará -
e então seria tolice fundamentar a nossa felicidade sobre algo
que necessariamente vai acabar. É um convite para que achemos
o alicerce firme para a nossa caminhada, para a nossa felicidade. Podemos
construir as nossas vidas sobre a areia - movediça, sem firmeza
– ou sobre a rocha - firme e imutável; sobre coisas efêmeras,
ou sobre Deus e o seu projeto de solidariedade, fraternidade e partilha.
O homem da parábola terminou a sua vida na frustração,
perdeu tudo, e a sua vida acabou sem sentido. E Jesus nos adverte: “Assim
acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é
rico para Deus!”(v. 21)
A escolha é nossa!
Pe.
Tomaz Hughes - SVD