Evangelho
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Não
tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós
o Reino. Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não
se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali
o ladrão não chega nem a traça corrói. Porque,
onde está o vosso tesouro, aí estará também
o vosso coração.
Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como
homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de
casamento, para lhe abrirem, imediatamente, a porta, logo que ele chegar
e bater. Felizes os empregados que o senhor encontrar acordados quando
chegar. Em verdade eu vos digo: Ele mesmo vai cingir-se, fazê-los
sentar-se à mesa e, passando, os servirá. E caso ele chegue
à meia-noite ou às três da madrugada, felizes serão,
se assim os encontrar.
Mas ficai certos: se o dono da casa soubesse a hora em que o ladrão
iria chegar, não deixaria que arrombasse a sua casa. Vós
também, ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar
na hora em que menos o esperardes”.
Então Pedro disse: “Senhor, tu contas esta parábola
para nós ou para todos?” E o Senhor respondeu: “Quem
é o administrador fiel e prudente, que o senhor vai colocar à
frente do pessoal de sua casa, para dar comida a todos na hora certa?
Feliz o empregado que o patrão, ao chegar, encontrar agindo assim!
Em verdade eu vos digo: o senhor lhe confiará a administração
de todos os seus bens.
Porém, se aquele empregado pensar: ‘Meu patrão está
demorando’, e começar a espancar os criados e as criadas,
e a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele empregado chegará
num dia inesperado e numa hora imprevista, ele o partirá ao meio
e o fará participar do destino dos infiéis.
Aquele empregado que, conhecendo a vontade do senhor, nada preparou,
nem agiu conforme a sua vontade, será chicoteado muitas vezes.
Porém, o empregado que não conhecia essa vontade e fez
coisas que merecem castigo, será chicoteado poucas vezes. A quem
muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado,
muito mais será exigido!” - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Este trecho do capítulo doze, em grande parte retoma o tema do
domingo anterior - a questão do relacionamento do cristão
e da comunidade com os bens materiais. A comunidade cristã é
caracterizada como “pequeno rebanho” - certamente pequena
diante da força e enormidade do sistema do Império Romano.
Aqui não é tão importante a sua pequenez em termos
numéricos, mas em termos da sua importância e força
dentro da sociedade - a fraqueza dela é gritante, e devia ter
provocado insegurança e medo em muitos dos seus membros. Por
isso as palavras de encorajamento: “Não tenha medo, pequeno
rebanho, porque o Pai de vocês tem prazer em dar-lhes o Reino”
(v.32)
O rebanho não tem muitos bens materiais, mas terá os bens
mais importantes - os do Reino. Está idéia nasce do versículo
anterior a este trecho: “Busquem o Reino dele e Deus dará
a vocês essas coisas em acréscimo”( v. 31). Estes
bens virão na medida em que a comunidade vive a partilha, ou
seja, se coloque na contramão duma sociedade de ganância
e exploração, repartindo o que tem. Retomando o tema do
último domingo, Jesus adverte: “De fato, onde está
o seu tesouro, aí estará também o seu coração.”
(v.34)
Este último versículo nos desafia a fazermos uma meditação
mais profunda sobre os valores das nossas vidas. Onde - realmente, e
não teoricamente - está o meu tesouro? Em que eu de fato
ponho a minha confiança? Sobre o que estou baseando a minha vida?
Qual é a mina experiência prática de partilha? Quais
são os verdadeiros tesouros da minha vida?
Em seguida, Lucas nos coloca diante das exigências de vigilância
e responsabilidade. Embora muitas vezes se interprete este trecho sobre
a vinda do Senhor em termos do “fim do mundo”, ou referindo-se
ao momento da nossa morte, realmente, estes versículos têm
uma abrangência muito maior. A ênfase não está
no fim, mas na atitude que nós devemos ter sempre em nossa caminhada.
Sempre devemos estar alertos, para não perdermos o momento de
Jesus passar em nossas vidas. Ele chega para nós, não
somente na hora da nossa morte, muito menos no fim do mundo, mas todos
os dias, nas pessoas, nos acontecimentos da nossa realidade, na comunidade
em que vivemos. Jesus aqui exige uma atitude de busca permanente do
Reino, através duma vida de serviço fraterno.
Os versículos 41-46, e o fato que a pergunta é feita por
Pedro, porta-voz dos líderes da comunidade em Lucas, indicam
que a mensagem aqui é dirigida em primeiro lugar aos que têm
uma função de dirigente na comunidade. Os dirigentes cristãos
não têm estes ofícios para exercer um poder, para
dominar, mas muito pelo contrário, para melhor servir. Somos
alertados para que não deixemos a corrupção do
poder tomar conta das nossas vidas. E como os dirigentes das comunidades
têm consciência dos seus deveres, muito mais ainda é
a sua responsabilidade: “A quem muito foi dado, muito será
pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido”(
v. 48). Aqui o trecho alarga a sua visão para incluir não
somente uma possível corrupção do projeto cristão
através do apego aos bens materiais, mas também através
do apego ao poder, quando este é usado não como serviço,
mas como dominação e projeção pessoal por
parte dos dirigentes cristãos. Talvez não haja corrupção
mais sutil do que a do poder, manifestado em carreirismo, autoritarismo
e auto-projeção dentro das Igrejas. Vale a advertência
já feita no século XIX pelo historiador católico
inglês, Lord Acton: “Todo o poder tende a corromper, e o
poder absoluto corrompe absolutamente!”
Lucas convida a todos, especialmente aos dirigentes, à vigilância,
para que o nosso verdadeiro tesouro seja o serviço fraterno,
como concretização do projeto de Jesus, e não a
ganância, o poder, a dominação.