Evangelho
Naquele tempo, Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo
o caminho para Jerusalém. Alguém lhe perguntou: “Senhor,
é verdade que são poucos os que se salvam?”
Jesus respondeu: “Fazei todo esforço possível para
entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão
entrar e não conseguirão. Uma vez que o dono da casa se
levantar e fechar a porta, vós, do lado de fora, começareis
a bater, dizendo: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele responderá:
‘Não sei de onde sois’.
Então começareis a dizer: ‘Nós comemos e
bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças!’
Ele, porém, responderá: “Não sei de onde
sois. Afastai-vos de mim, todos vós, que praticais a injustiça!’
Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão,
Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no Reino de Deus, e
vós, porém, sendo lançados fora. Virão homens
do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar
à mesa no Reino de Deus. E assim há últimos que
serão primeiros, e primeiros que serão últimos”.
- Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Jesus continua a sua caminhada em direção à Jerusalém.
E no caminho, prossegue ensinando os seus discípulos. O debate
agora é sobre uma questão que sempre intrigava os cristãos
- e também os de outras crenças: "É verdade
que são poucos aqueles que se salvam?"(v.23).
Durante muito tempo, o assunto de muitas pregações nas
igrejas era a condenação. Falava-se muito mais em pecado
do que na graça, no diabo do que em Jesus, do inferno do que
no céu ou no projeto de Jesus para este mundo. Infelizmente,
especialmente nos ambientes fundamentalistas, tanto católicos
como protestantes, este tendência volta a vigorar. Neste trecho
Jesus nos ensina como enfrentar esta questão!
Chama a atenção que Jesus não responde à
pergunta. Ele não indica se são muitos os que se salvam,
ou não. A preocupação dele é que as pessoas
vivam de acordo com o projeto de Deus. Nisso encontrarão a salvação.
Por isso, ele desvia a atenção do ouvinte da questão
do "além morte" para que volte à vivência
prática da fé. O conselho dele é claro: "Façam
todo o esforço possível para entrar pela porta estreita"
(v.24). Resta perguntar - em que consiste esta "porta estreita"?
O texto nos dá a resposta: Ele responderá: "Não
sei de onde são vocês. Afastem-se de mim todos vocês
que praticam a injustiça"(v.27).
Interessante que Deus afastará os que praticam a injustiça
- não fala daqueles que têm fraquezas humanas, que têm
uma fé diferente, que ignoram as verdades da teologia - se preocupa
com a prática da injustiça. Pois o seguimento de Jesus
é basicamente isso - o amor prático, que se manifesta
na justiça. Sem esta prática, simplesmente a fé
é! A "porta estreita" é a prática da
justiça!
Jesus adverte que talvez não sejam os que conhecem a sua mensagem
que irão herdar o Reino. Pois o critério do julgamento
não será o conhecimento teórico do evangelho, mas
muito antes a sua vivência concreta na justiça, conforme
ele diz: "Muita gente virá do oriente e do ocidente, do
norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus"(v.29).
Diante do fechamento do judaísmo farasaico, com a sua religião
nacionalista, Jesus abre perspectivas ecumênicas - a salvação
não se restringe aos que faziam parte oficialmente do Povo de
Deus! Virão pessoas do mundo todo - as pessoas que, mesmo sem
conhecer a Bíblia - viviam a luta pela justiça!
É impossível, no nosso mundo de exclusão, fugir
da questão da justiça. A Conferência de Santo Domingo,
seguindo as de Medellin e Puebla já perguntou como era possível
que as piores injustiças do mundo se dão exatamente no
continente nosso, que se diz cristão! Como é possível
que nos países oficialmente católicos há tantas
rostos do Cristo crucificado? Não é possível ser
cristão sem lutar em favor das pessoas com "rostos desfigurados
pela fome, rostos desiludidos pelas promessas políticas, rostos
humilhados de quem vê desprezada a própria cultura, rostos
assustados pela violência cotidiana e indiscriminada, rostos angustiados
de menores, rostos de mulheres ofendidas e humilhadas, rostos cansados
de migrantes sem um digno acolhimento, rostos de idosos sem as mínimas
condições para uma vida digna"(João Paulo
11, Vita Consecrata no. 76).
Não devemos medir o nosso cristianismo e a pujança da
nossa fé pelos belos edifícios e imponentes matrizes,
nem pelas belas celebrações e concentrações
nas grandes ocasiões, por tão válidas e até
importantes que possam ser. Meçamos a nossa fé, a nossa
adesão ao Reino pelo nosso empenho em prol dos empobrecidos,
pelos injustiçados, não nos limitando à uma ação
meramente assistencialista (por tão imprescindível que
tais ações sejam), mas também nos engajando na
luta pela mudança estrutural duma sociedade cujo projeto de vida
- o neo-liberalismo selvagem - nada mais é do que um projeto
de morte, e portanto anti-evangélico e pecaminoso.
É mister unir as nossas forças às das pessoas de
boa vontade de todas as crenças e de nenhuma, para que em parceria
defendamos a vida ameaçada no sociedade moderna. Aprendamos de
Jesus neste trecho - ele não permite que os seus interlocutores
fiquem olhando só para o que acontecerá depois da morte,
lá no além, mas insiste que olhem para a vida cotidiana,
com as suas exigências em favor do oprimidos. E ressoa uma advertência
para nós que somos freqüentadores das Igrejas, que conhecemos
os ensinamentos do Evangelho, e que talvez caiamos na tentação
dum certo elitismo religioso: "Vejam: há últimos
que serão primeiros, e primeiros que serão últimos"(v.30).
Ser primeiro ou último, acolhido ou afastado, depende em primeiro
lugar do nosso empenho pela justiça!