Evangelho
Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de
um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. Jesus notou como os
convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes
uma parábola: “Quando tu fores convidado para uma festa
de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha
sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da
casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar
a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás
ocupar o último lugar. Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te
no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá:
‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para
ti diante de todos os convidados. Porque quem se eleva, será
humilhado e quem se humilha, será elevado”.
E disse também a quem o tinha convidado: “Quando tu deres
um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem
teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois
estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua
recompensa. Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os
pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás
feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás
a recompensa na ressurreição dos justos”. - Palavra
da Salvação
Reflexão do Evangelho
O relato de hoje se situa no contexto duma refeição na
casa dum chefe dos fariseus, que permanece no anonimato. Lucas tem o
cuidado de sublinhar que o evento aconteceu num dia de sábado,
e que os fariseus estavam observando Jesus para tentar pegá-lo
em algum erro. Então, embora trate-se duma refeição,
não era uma confraternização, mas muito antes um
confronto.
Jesus aproveitou da oportunidade para nos deixar o seu ensinamento sobre
dois assuntos importantes para a vida dos discípulos: a opção
entre a humildade e o orgulho, e a gratuidade.
Como bom pedagogo, Jesus observa a vida ao seu redor, e a usa para ensinar
algo sobre Deus. Os fariseus eram muito bem vistos no meio do povo simples.
É uma erro nosso pensar que a palavra "fariseu" seja
sinônimo cm "hipócrita". Talvez essa idéia
venha do Capítulo 23 de Mateus, que reflete a situação
de antagonismo entre eles e os discípulos de Jesus no tempo do
autor - pelo ano 85 d.C. - mais do que do Jesus. Os fariseus eram exímios
observadores da Lei, mas muitas vezes caíam no perigo de sentir-se
superiores às massas que não podiam ou não conseguiam
viver os seus pormenores. Confiando na sua observância como garantia
de salvação, na prática dispensaram a gratuidade
de Deus.
Vendo como os convidados buscaram os primeiros lugares na refeição,
Jesus nos dá a lição sobre buscar os últimos
lugares no festa de casamento. A primeira vista, parece que Jesus está
nos ensinando ser falsos, hipócritas. Mas a verdade é
outra. A banquete desta história simboliza a nossa vida. Diante
da vida, podemos optar - buscar uma vida de prestígio, aos olhos
do mundo, com todos os privilégios que isso acarreta, ou buscar
o serviço aos irmãos, - nos "humilhando", pois
quem servia era considerado menor do que quem era servido (como geralmente
também hoje é). De novo Jesus nos coloca diante do seu
próprio exemplo - ele que veio "não para ser servido,
mas para servir, e dar a sua vida em favor de muitos"(Mc 10,46).
E como é atual este ensinamento! O nosso mundo é um mundo
classista, onde "quem pode mais, chora menos", até
nas Igrejas - como gostamos de títulos, honras, prestígio!
Em vão buscaremos nos Evangelhos títulos de honra como
"Eminência" "Santidade" "Reverendo",
"Reverendíssimo"!! Sem que notássemos, o mundo
entrou nas nossas comunidades!!
O nó da questão está em versículo 11: "de
fato, quem se eleva será humilhado, e quem se humilha, será
elevado". Não é uma recomendação sádica
para que procuremos ser humilhados, como muitas vezes se pregava na
formação da Vida Religiosa e na espiritualidade, antigamente.
Pelo contrário, é uma orientação para que
não ponhamos o nosso valor nos títulos e honrarias vãs
que a sociedade tanto aprecia, mas no serviço humilde dos irmãos,
unindo-nos à luta pelos oprimidos, que são humilhados
pela sociedade de consumismo e opulência.
Ato contínuo, Jesus nos orienta sobre a gratuidade. Recomendando
ao fariseu que ele não convide os que possam retribuir com outros
convites, ele nos põe diante do exemplo do próprio Deus,
que é gratuidade absoluta. De novo, os marginalizados servem
como exemplo para o exercício de gratuidade. Temos muitas indicações
na literatura daquele tempo que tanto a sociedade judaica como a greco-romana
rejeitava este pessoal sofrido. Um documento dos Essênios de Qumrã
elenca as categorias que serão proíbidas de entrar no
banquete escatológico: "os que têm problema na pele,
com as mãos ou os pés esmagados, os aleijados, os cegos,
os surdos, os mudos; os que têm defeito na vista ou que sofrem
de senilidade". A lista lucana adiciona a categoria "os pobres".
Sabemos que na literatura judaica "os pobres" era muitas vezes
a designação usada para Israel e especialmente para os
eleitos dentro de Israel. Então Lucas está usando de ironia
- mostrando que os verdadeiros eleitos não são os que
a sociedade assim considera, mas os realmente pobres, marginalizados
e sofredores!!
O discípulo, "convidando-os", ou seja relacionando-se
com eles como igual para igual, não receberá deles a retribuição.
Eles não terão como que retribuir, e assim seremos como
Deus, que nos ama sem esperar algo em retorno. Assim estaremos colocando
a nossa confiança na gratuidade de Deus, e não agindo
dum modo calculista, como tanto se prega hoje: "é dando
que se recebe", como dizem os politiqueiros cínicos, como
também alguns pregadores cristãos, interessados no acúmulo
de dinheiro..
A imagem do banquete é simplesmente um símbolo. A história
nos desafia para que examinemos as nossas motivações mais
profundas, para que busquemos o serviço aos irmãos, e
para que aprendamos de Deus, que é o Amor Gratuito por excelência.