Evangelho
Aproximando-se alguns dos saduceus - que negam existir ressurreição
- interrogaram-no: "Mestre, Moisés deixou-nos escrito: Se
alguém tiver um irmão casado e este morrer sem filhos,
tomará a viúva e suscitará descendência para
seu irmão. Ora, havia sete irmãos. O primeiro tomou mulher
e morreu sem filhos. Também o segundo, e depois o terceiro a
tomaram; e assim os sete morreram sem deixar filhos. Por fim, também
a mulher morreu. Essa mulher, na ressurreição, de qual
deles vai se tornar mulher? Pois todos os sete a tiveram por mulher".
Jesus
lhes respondeu: "Os filhos deste século casam-se e dão-se
em casamento; mas os que forem julgados dignos de ter parte no outro
século e na ressurreição dos mortos, nem eles se
casam, nem elas se dão em casamento; pois nem mesmo podem morrer:
são semelhantes aos anjos e filhos de deus, sendo filhos da ressurreição.
Ora que os mortos ressuscitam, também Moisés o indicou
na passagem da sarça, quando diz: o Senhor Deus de Abraão,
Deus de Isaac e Deus de Jacó. Ora, ele não é Deus
de mortos, mas sim de vivos; todos com efeito, vivem para ele".
Reflexão
do Evangelho
Novamente a nossa leitura exige que tenhamos alguma noção
dos partidos político-religiosos do tempo de Jesus. Depois de
serem mencionados “os Fariseus”, “os Escribas”,
e “os Herodianos”, entram em cena “os Saduceus”!
Para entender a controvérsia no texto, é imprescindível
conhecer algo sobre este partido.
Não há consenso referente a origem do nome “Saduceu”.
Alguns estudiosos acham que vem do nome do Sumo Sacerdote de Davi, “Sadoc”,
enquanto outros, diante do fato de que muito dos seus membros eram leigos,
acham mais provável que o nome venha duma palavra hebraica que
significa “justo”. Eles se consideravam “os justos”
(uma ilusão também partilhada por outros partidos da época,
como os fariseus e os essênios!). A primeira menção
deles é do tempo dos Macabeus (cerca 130 ªC.) quando fizeram
parte duma delegação judaica que foi à Roma. Podemos
dizer que eles representavam a “elite conservadora” do judaísmo
do tempo de Jesus. Defendiam os interesses da classe alta de Jerusalém,
os grandes comerciantes e donos de terras, e dos “donos”
do Templo - uma fonte de muito lucro. No tempo dos Romanos, praticamente
todos os Sumos Sacerdotes vieram deste grupo. Dominavam o Sinédrio,
ou Grande Conselho (realmente seriam eles os responsáveis pela
condenação de Jesus), colaboravam com os Romanos, desprezavam
o povo simples - ao contrário dos fariseus e escribas, não
tinham muito influência com eles -e mantinham uma interpretação
conservadora da Escritura, não admitindo a tradição
oral e limitando-se ao Pentateuco, ou “Torá”. Não
aceitavam a doutrina da ressurreição dos mortos, nem a
dos anjos, e eram opositores dos fariseus.
A partir da lei do casamento levirítico do Livro de Deuteronômio,
eles propõe para Jesus um argumento - que nos poderia parecer
absurdo - para contestar a doutrina tardia da ressurreição
dos mortos. Vale a pena lembrar-nos do que diz Dt 25,5-6: “Quando
dois irmãos moram juntos e um deles morre sem deixar filhos,
a viúva não sairá da casa para casar-se com nenhum
estranho; seu cunhado se casará com ela, cumprindo o dever de
cunhado. O primogênito que nascer receberá o nome do irmão
morto, para que o nome deste não se apague em Israel”.
Certamente uma lei que para nós parece no mínimo estranha!
Mas na época antes da fé na ressurreição,
era de suma importância para Israel que o nome dum homem se propagasse
nos seus filhos. Por isso, era dever do irmão sobrevivente suscitar
um filho para o falecido, para que este não morresse na memória
do seu povo. Naquele tempo, a família estendida, ou clã,
era mais importante do que a família nuclear de hoje.
Jesus ataca a premissa básica dos Saduceus - para eles a vida
vindoura é simplesmente uma continuação desta vida,
e por isso precisa de procriação humana. Em lugar de fazer
um argumento casuística, que não levaria a nada, Jesus
apresenta o ponto central da Escritura - que Deus é o Deus da
vida! Não criou ninguém para a morte, mas para a vida
eterna com ele!
O argumento dos saduceus dificilmente encontraria eco entre nós
hoje. Mas como eles nesta ocasião, quantas vezes nós nos
preocupamos mais como que possa acontecer depois a morte, do que com
a vida aqui e agora. Quanta preocupação hoje com o fim
do mundo, com as almas e os espíritos, com supostas visões
e revelações - e tão pouca com os problemas práticos
que trazem tanto sofrimento aos nossos irmãos e irmãs.
Jesus não permite que nós gastemos tempo e energias com
discussões inúteis sobre “como é” a
vida além-morte. Chama a nossa atenção para a vida
real - pois é aqui que devemos concretizar o seguimento dele,
que veio “para que todos tenham a vida e a vida em abundância
“ ( Jo 10,10).
Pode parecer que a preocupação dos saduceus era ridícula
- mas não era mais ridícula do que a dos cristãos
que gastam as suas forças em discussões fúteis
sobre a vida do além, que ninguém - segundo Paulo - é
capaz de imaginar, enquanto ignoram o Cristo presente nos sofredores
ao seu lado. A fé de Jesus não permite alienação,
“Deus não é Deus de mortos, mas de vivos”
( v.38), e nos desafia para que vivamos esta fé na luta para
que o mundo sonhado por Jesus se torne realidade.
Pe.
Tomaz Hughes - SVD