Evangelho
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: "Haverá
sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações
ficarão angustiadas, com pavor do barulho do mar e das ondas.
Os homens vão desmaiar de medo, só em pensar no que vai
acontecer ao mundo, porque as forças do céu serão
abaladas.
Então eles verão o Filho do Homem, vindo numa nuvem com
grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a
acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação
está próxima.
Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem
insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações
da vida e esse dia não caia de repente sobre vós; pois
esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de
toda a terra.
Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força
para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé
diante do Filho do Homem". - Palavra da Salvação
Reflexão
do Evangelho
Neste primeiro domingo do Ano Litúrgico, Lucas nos mergulha num
dos discursos escatalógicos do Evangelho. Sendo assim, usa imagens
e símbolos que não são da nossa cultura e época,
e por isso nem sempre são fáceis a serem compreendidos,
mesmo que fossem claros para os leitores daquele época. Mas na
literatura apocalíptica não é necessário
interpretar cada imagem detalhadamente - o mais importante não
é cada pedra do mosaico, mas o padrão inteiro - não
cada imagem e símbolo, mas a sua mensagem.
O
texto nos apresenta a figura do "Filho do Homem" - o título
que nos Evangelhos Jesus mais usava para si mesmo, e que nós
quase nunca usamos. Este título vem dum trecho do livro apocalíptico
de Daniel: Em imagens noturnas, tive esta visão: entre as nuvens
do céu vinha alguém como um filho de homem... Foi-lhe
dado poder, glória e reino, e todos os povos, nações
e línguas o serviram. O seu poder é um poder eterno, que
nunca lhe será tirado. E o seu reino é tal que jamais
será destruído."(Dn 7,13s)
Então
Jesus recorda aos seus discípulos a mensagem de ânimo que
o Livro de Daniel trazia aos perseguidos do tempo dos Macabeus, pelo
ano 175 a.C. - que embora possa parecer que os poderes deste mundo,
os impérios opressores, sejam mais fortes do que o poder de Deus,
não passa duma ilusão. Pois, na plenitude dos tempos,
Deus, através do seu messias - o Filho do Homem - revelará
o seu poder, e estabelecerá um Reino que jamais será destruído.
E isso acontece agora em Jesus!
Qualquer
interpretação dum texto apocalíptico que causa
medo nos ouvintes, é necessariamente errada, pois a função
da apocalíptica é de animar e dar coragem aos oprimidos
e sofredores. Por isso, o ponto central do nosso texto de hoje é
uma mensagem de ânimo, coragem e fé: "Quando essas
coisas começarem a acontecer, levantem-se e erguem a cabeça,
porque a libertação de vocês está próxima."(v.28)
Este
trecho tem uma dimensão fortemente cristológica - nos
afirma que Jesus, o Filho do Homem vitorioso, está em controle
do todos as forças, sejam elas de guerra (v.9) ou do mar - símbolo
de forças indomináveis para os judeus (v.25). E o versículo
acima citada traz uma mensagem cheia de confiança: em contraste
com a atitude de covardia dos malvados (v.26), os discípulos
ficarão com a cabeça erguida, para acolher o juiz justo,
o Filho do Homem.
Mesmo
assim, os eleitos devem ficar atentos para não caírem.
Devem cuidar muito para que: "Os corações ... não
fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações
da vida." (v.34). Pois é fácil assumir as atitudes
do mundo, sem que notemos, a não ser que sejamos vigilantes.
Por isso, o texto de hoje termina com um conselho válido também
para os discípulos dos tempos modernos: "Fiquem atentos
e rezem todo o tempo, a fim de terem força"(v.36)
Quase
dois mil anos atrás, o precursor do Império de hoje, o
Romano, tentou, aliado com seus auxiliares locais, acabar com um projeto
de vida, matando o seu arauto, Jesus de Nazaré. A força
parecia ter a última palavra. Mas a verdade era outra –
a força do Império era ilusão, pois Deus ressuscitou
Jesus de dentro dos mortos, mostrando que o mal nunca é mais
forte do que o bem, a morte do que a vida, a opressão do que
a libertação.
Recentemente,
diante da situação da guerra, o Papa João Paulo
II pediu que os cristãos não perdessem a esperança,
mesmo que, como ele disse, "pode parecer que Deus tem entregado
o mundo nas mãos dos homens do mal!" Pois as aparências
enganam! O que parecia derrota absoluta em Calvário, foi de fato
a vitória última do bem! Da semente caída na terra
e morta, nasceu muitas espigas de vida. O mesmo acontece hoje. Os EUA
não são mais o único superpotência, pois
nasce um outro – a força de milhões de pessoas de
boa vontade que querem dar um "basta" à prepotência,
à opressão, ao projeto de morte do sistema neoliberal.
O que nasceu em Seattle e Praga, cresceu em Genova e agora explodiu
num movimento pelo bem que uniu como nunca visto antes, dezenas de milhões
de pessoas de todas as raças e nações, de todas
as línguas e culturas, de todas as religiões e de nenhuma.
O mundo nunca mais será o mesmo diante deste novo movimento.
Os dias do Império estão contados, não somente
o império político e econômico, mas o dos barões
do narcotráfico, da máfia e outros (todo Império
tem pés de barro, como ensina o Livro de Daniel e toda a literatura
apocalíptica). O projeto de Deus, concretizado em Jesus e continuado
hoje por nós, vencerá o projeto de Bush, Blair, Rumsfeld
e os arbutres do complexo industrial-militar e petrolífero, que
só sugam o sangue dos inocentes para que aumentem os seus lucros
imundos. A união das pessoas comuns vencerá a dominação
dos propagadores do terror – quando, animados pela sua fé,
seja com a expressão teológica que for, descobrirem a
força da união, da solidariedade, da não violência
que inspira uma luta decidida pela verdadeira paz.
Advento
é tempo oportuno para que examinemos a nossa vida para descobrir
se realmente estamos atentos o tempo todo, para não perdermos
as manifestações da presença de Jesus no meio de
nós. É tempo de nos dedicarmos mais à oração,
para renovarmos as nossas forças, para não cairmos na
armadilha da "inatenção" no meio das preocupações
e barulho do mundo moderno, para que os nossos corações
continuem "sensíveis" aos apelos do Senhor, através
dos irmãos, no nosso dia-a-dia!
Pe.
Tomaz Hughes - SVD