Evangelho
Naquele tempo, algumas pessoas comentavam a respeito do Templo que era
enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas. Jesus disse: Vós
admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará
pedra sobre pedra. Tudo será destruído".
Mas eles perguntaram: "Mestre, quando acontecerá isso? E
qual vai ser o sinal de que estas coisas estão para acontecer?"
Jesus respondeu: "Cuidado para não serdes enganados, porque
muitos virão em meu nome, dizendo: 'Sou eu!' e ainda: 'O tempo
esta próximo'. Não sigais essa gente! Quando ouvirdes
falar de guerras e revoluções, não fiqueis apavorados.
É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não
será logo o fim".
E Jesus continuou: "Um povo se levantará contra outro povo,
um país atacará outro país. Haverá grandes
terremotos, fomes e pestes em muitos lugares; acontecerão coisas
pavorosas e grandes sinais serão vistos no céu.
Antes, porém, que estas coisas aconteçam, sereis presos
e perseguidos; sereis entregues às sinagogas e postos na prisão;
sereis levados diante de reis e governadores por causa do meu nome.
Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé.
Fazei o firme propósito de não planejar com antecedência
a própria defesa; porque eu vos darei palavras tão acertadas,
que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater. Sereis
entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos,
parentes e amigos. E eles matarão alguns de vós. Todos
vos odiarão por causa do meu nome. Mas vós não
perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça. É
permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!" - Palavra da Salvação
Reflexão
do Evangelho
Chegando ao fim do ano litúrgico, encontramos uma das passagens
chamadas “apocalípticas” de Lucas. É um texto
realmente complexo, que olha em duas direções: lendo o
que foi escrito pelo ano 85, o leitor pode olhar para trás para
19,47-21,4, e ver a conseqüência da rejeição
de Jesus e do seu ensinamento pelos líderes do Templo (a destruição
do Templo pelos Romanos sob Tito no ano 70d.C); também o leitor
pode olhar além dos eventos de Lucas 22-23 e ver a vindicação
do Filho do Homem por Deus, e o fortalecimento por Jesus dos seus discípulos,
que serão perseguidos por sua fidelidade a ele. A passagem (que
na realidade continua até v.38) pode ser dividida da seguinte
maneira:
1) Introdução (vv.5-7)
2) Exortação inicial (vv.8-9)
3) Desastres cósmicos (vv.10-11)
4) Eventos que precederão o fim do mundo - cristãos
serão perseguidos;(vv.12-19); a destruição de Jerusalém
(vv.20-24).
5) Desastres cósmicos (vv.25-33)
6) Exortação final (vv.34-36)
7) Inclusão com 19,47-48 (vv.36-38)
Este esquema mostra como no texto os eventos do fim do mundo são
relacionados à destruição de Jerusalém,
e assim sublinha a mensagem cristológica: a crise que Jerusalém
enfrentou no ministério de Jesus é uma previsão
da crise que ele e a sua mensagem, e especialmente a sua vinda como
o Filho do Homem, trarão a “todos aqueles que habitam a
face de toda a terra”(v.35).
Um termo que perpassa o texto a partir do v.7 é “estas
coisas”. Este termo muda de referências durante a passagem
- da destruição do Templo para a destruição
de Jerusalém para a destruição do mundo todo.
Mas os discípulos devem cuidar para não serem enganados
por falsos Messias! E não devem impressionar-se com guerras,
revoluções ou outras eventos estrondosos. Uma advertência
que vale muito para os dias de hoje!! É só lembrar algumas
reações fundamentalistas diante dos eventos do dia 11
de Setembro de 2001! Quantos falsos Messias, quanto pavor, quantos profetas
de destruição! Mas não é ainda o fim.
A partir de versículo 12, Jesus procura animar os seus discípulos,
para que possam agüentar a perseguição futura (que
na verdade já estava começando no tempo de Lucas). E a
perseguição não viria somente da parte das autoridades
do Império (a de Nero já tinha acontecido quase vinte
anos antes, na cidade de Roma). Os próprios pais, parentes e
amigos tornar-se-iam perseguidores. Realmente isso aconteceria a partir
do ano 85, quando o judaísmo se reorganizou na forma rabínica
, com o Sínodo de Jâmnia. A partir de então crescia
o racha entre cristãos e judeus, com os primeiros sendo expulsos
da sinagoga, e vistos como traidores do seu povo, da sua herança,
da sua fé javista. Com certeza, no tempo de Lucas, muitos já
estavam vacilando diante desta situação de insegurança
e perigo, e por isso o evangelista destaca tanto a exortação
de Jesus à perseverança e confiança.
A situação nossa de hoje é bem diferente - nós
não formamos uma minoria perseguida! Mas a mensagem permanece
válida - ser cristão implica carregar a cruz! Não
é possível servir Jesus e os valores desta sociedade consumista
e excludente! Ser cristão é muitas vezes andar na contramão
da sociedade, e acarreta necessariamente conflitos com um mundo regido
por outros valores. Uma Igreja acomodada, que não incomoda
a sociedade vigente, não seria Igreja do seguimento fiel de Jesus.
Como é tentador buscar uma religião só de consolo
e prática individual - uma religião que a sociedade até
estimula, pois relega o Evangelho à esfera do íntimo,
e tira dele a sua força transformadora. Lucas não nos
deixa esquecer que a fé em Jesus é altamente perigosa,
pois não se conforma com o mal, e por isso mesmo exige o seguimento
de Jesus “no caminho”- até Jerusalém, a cruz
- e a Ressurreição.
Pe.
Tomaz Hughes - SVD