Evangelho
Naquele tempo, os chefes zombavam de Jesus, dizendo: A outros
ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus,
o Escolhido!
Os soldados também caçoavam dele; aproximavam-se, ofereciam-lhe
vinagre, e diziam: Se és o rei dos judeus, salva-te a ti
mesmo! Acima dele havia um letreiro: Este é o Rei
dos Judeus.
Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: Tu não
és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós! Mas o
outro o repreendeu, dizendo: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres
a mesma condenação? Para nós, é justo, porque
estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal.
E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu
reinado. Jesus lhe respondeu: Em verdade eu te digo: ainda
hoje estarás comigo no Paraíso. -
Palavra da Salvação
Reflexão
do Evangelho
Como é de costume na Igreja Católica, hoje, o último
domingo do Ano Litúrgico, celebra-se a festa de Nosso Senhor
Jesus Cristo, Rei do Universo. A festa foi estabelecida na época
dos governos totalitários nazistas, fascistas e comunistas, nos
anos antes da Segunda Guerra, para enfatizar que o único poder
absoluto é de Deus. Nos dias de hoje, em que milhões padecem
as conseqüências dum novo tipo de totalitarismo disfarçado,
o do poder econômico inescrupuloso, torna-se atual a inspiração
original da festa – que Deus é o único Absoluto.
Num mundo que não é ateu, mas idolátrico, pois
presta culto ao lucro, a festa de hoje nos desafia para que revejamos
as nossas atitudes e ações concretas – para descobrir
o que é para nós, na verdade, o valor absoluto das nossas
vida. Num mundo onde freqüentemente o nome de Deus é invocado
para justificar regimes repressivos fundamentalistas, ou sistemas imperialistas
que abusam do nome “cristã” para se justificar a
festa nos lembra do verdadeiro sentido do Reino de Deus.
Foi exatamente por ter semeado este Reino, na contramão da sociedade
de então, que Jesus devia morrer – ou melhor, ser matado,
o que é diferente. Todos os Evangelhos mostram, cada um da sua
maneira, que quem matou Jesus não foi o povo, mas um conluio
dos chefes religiosos, políticos e economicos . É importante
entender o que isso significa, pois se Jesus foi assassinado, houve
algum motivo, e houve alguém que o matasse. Os sumos sacerdotes
eram, no tempo de Jesus, todos nomeados pelos romanos, dentro do partido
dos saduceus, o partido da elite de Jerusalém, donos de terras
e do comércio, e chefes do Templo. Este Templo funcionava como
Banco Central, centro de arrecadação de impostos, e lugar
de câmbio monetário, uma vez que não se aceitava
nele a moeda corrente. Jesus, portanto, foi assassinado pelo poder político,
econômico e religioso, coniventes com o poder imperialista, representado
por Pilatos. Pois o Reino de Deus se opõe frontalmente com qualquer
reino opressor, como era o de Roma.
O texto de hoje usa a ironia para demonstrar a verdadeira identidade
de Jesus. Lucas faz isso através do uso de títulos por
ele – títulos usados como gozação, mas que
de fato que descreviam a sua pessoa e missão – “o
Messias de Deus” "o Escolhido” o “Rei dos judeus”.
Enquanto o povo fica quieta,contemplando a cena (v35), os detentores
do poder, chefes e soldados, zombam de Jesus. Não sabem que a
sua zombaria expressa a verdade sobre ele, que eles, opressores, são
incapazes de entender. Ao contrário, quem entendeu era o condenado
que costumamos chamar “o bom ladrão”. Ele expressa
a esperança básica de todos os sofridos, rejeitados e
excluídos desse mundo quando pede com fé “Jesus,
lembra-te de mim, quando vieres como rei” (v 42). É o grito
que expressa a esperança última dos sofredores, a vitória
do bem sobre o mal, e a instauração do Reino de Deus,
de justiça, fraternidade e paz.
A realidade vivida por Jesus continua hoje. O seguimento dele, na construção
dum Reino de justiça e paz, do shalom de Deus, necessariamente
vai entrar em conflito com os reinos que dependem da exploração
e da injustiça. Normalmente, esses poderes primeiro vão
tentar cooptar a Igreja, para que, em lugar de ser voz profética
diante das injustiças, se torne porta-voz dos valores desses
reinos. Não faltarão incentivos, financeiros e outros,
para que as Igrejas caiam nesta cilada. Por isso, como nos advertiram
os textos nos últimos domingos, é mister ficarmos sempre
vigilantes, para verificarmos se a nossa vida prática está
mais de acordo com o Reino de Deus ou o reino de Pilatos.
Jesus traz a grande crise da história. Diante da verdade, que
é Ele, todos têm que se posicionar. Ele, como todo profeta,
não causa a divisão mas desmascara a divisão que
existe dentro da sociedade, a divisão entre o bem e o mal, entre
um projeto da morte e um projeto da vida, uma divisão que permeia
todos os elementos da sociedade. Diante dele, não há lugar
para meio-termo - todos têm que optar. Por isso, a nossa festa
de hoje, longe de ser algo triunfalista, nos desafia para que façamos
um exame de consciência – tanto individual como eclesial
e comunitário - para verificar se o nosso Rei é realmente
Jesus, ou se, mesmo duma maneira disfarçada, continua sendo Pilatos!