Missa da Imaculada Conceição - 8 de dezembro de 2002
"Faça-se em mim segundo a tua palavra" -
Lucas 1,26-38
Evangelho
Naquele tempo, no sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus
a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem,
prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente
de Davi e o nome da Virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava
e disse: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está
contigo!"
Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar
qual seria o significado da saudação.
O anjo, então, disse-lhe: "Não tenhas medo, Maria,
porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás
e darás à luz um filho, a quem porás o nome de
Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo,
e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará
para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não
terá fim".
Maria perguntou ao anjo: "Como acontecerá isso, se eu não
conheço homem algum?"
O anjo respondeu: "O Espírito virá sobre ti, e o
poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso,
o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. Também
Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é
o sexto mês daquela que era considerada estéril, porque
para Deus nada é impossível".
Maria, então disse: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se
em mim segundo a tua palavra!" E o anjo retirou-se. - Palavra da
Salvação
Reflexão do Evangelho
Maria de Nazaré é uma das figuras mais importante nas
leituras do tempo do Advento. O texto de hoje é riquíssimo,
e mereceria um tratamento muito mais pormenorizado. É essencial
para entendermos a figura de Maria que as Escrituras nos apresentam.
No
esquema de Lucas, a anunciação à Maria se contrapõe
àquela feita a Zacarias (Lc 1,5-22). Naquele relato, é
feita a um sacerdote, idoso, no Templo judaico. No texto de hoje, à
uma moça, jovem, no dia-a-dia dum lugarejo, Nazaré. O
sacerdote não acreditou, e ficou mudo......simbolizando que os
ritos do Templo não tem mais nada a dizer! Maria acredita e é
proclamada "bendita entre as mulheres" (1,42).
Infelizmente,
muitas vezes, este trecho é interpretado de maneira a nos apresentar
uma Maria totalmente passiva, sem expressão - e ideologicamente
foi usado para insistir que as mulheres, no mundo e na Igreja, deveriam
ficar passivas e sem expressão! Tal interpretação
distorce totalmente o que Lucas quer nos dizer!
Maria,
embora não entenda plenamente, (cf. 1,29; 2,19; 2,50s), aceita
não somente ser instrumento da vontade de Deus, mas ser protagonista
da realização desse plano divino. A frase "faça-se
em mim" não deve ser interpretada duma maneira passiva,
mas como o grito de entusiasmo de quem quer ser colaboradora na realização
da visão que Deus tem para o mundo. Não se refere somente
ao fato de engravidar - isso seria muito pouco - mas à grande
visão de Deus para os seus filhos e filhas. Um pouco adiante
Lucas vai mostrar o alcance dessa frase, quando na boca de Maria ele
coloca o grande canto de libertação, que é o Magnificat!
Não é possível entender a profundidade da frase
de Maria na anunciação sem ler também o Magnificat
(1,46-55). O que é que Maria quer quando ela pede que seja feita
a vontade de Deus nela? Ela quer a realização da vira-volta
no mundo que é o Advento do Reino de Deus, quando Deus vai "dispersar
os homens de pensamento orgulhoso; precipitar os poderosos dos seus
tronos e exaltar os humildes; cobrir de bens os famintos e despedir
os ricos de mãos vazias"(1,51-53). Num mundo onde a realidade
é a prepotência e a violência dos poderosos contra
pobres e indefesos, e onde as mulheres muitas vezes estão na
liderança da resistência, Lucas nos apresenta Maria como
protagonista da concretização do Reino. Como ela, quem
realmente quer receber o Salvador no Natal, tem que se comprometer duma
maneira concreta na construção dum mundo novo, de justiça
e fraternidade - tão contrário ao que vivemos hoje - e
que Maria canta no primeiro capítulo de Lucas.